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Precisa de muletas ou cadeira de rodas? O Civida conecta quem doa equipamentos de saúde com quem precisa deles

Giovanna Riato - 21 fev 2020 Civida oferece doação de equipamentos como cadeira de rodas e muletas
Ao centro, Lucas recebe o Prêmio Instituto 3M para Estudantes Universitários acompanhado do orientador do projeto, Fernando Lunardelli.
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Quem já usou equipamentos de saúde, como muletas ou cadeira de rodas, por um período determinado conhece a sensação ruim de deixar estes itens encostados quando eles deixam de ser necessários. Enquanto isso, do outro lado, uma série de pacientes está na situação oposta: são pessoas que recebem a recomendação para usar um equipamento, mas não têm dinheiro para comprar ou alugar.

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Foi para resolver este problema que nasceu o Civida, um aplicativo que conecta quem doa com quem precisa usar itens que vão desde simples muletas e cadeiras de banho, até complexas cadeiras de rodas e camas hospitalares. A solução foi criada por Lucas Humberto Reinhardt, 33, quando ele cursava Sistemas para Internet na Faculdades Integradas de Taquara (Faccat), no Rio Grande do Sul.

A ideia surgiu justamente de uma dor que ele conheceu de perto. O estudante acompanhou a dificuldade do próprio sogro, que recebeu o diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica e passou a precisar de uma série de equipamentos. “Era um desafio enorme conseguir cada um deles”, conta. Logo entendeu que a dificuldade não era só dele.

“As pessoas precisam de coisas que, muitas vezes, são difíceis de obter pelo SUS, onde há longa espera e um processo burocrático”, conta. Ele diz que, quando não é possível obter o equipamento de saúde pelo sistema público, muita gente recorre a amigos, vizinhos, igrejas e centros sociais para encontrar a doação, mas nem sempre é simples achar uma doação.

“Tem quem passe anos com problemas de mobilidade sem ter uma cadeira de rodas. Era uma questão que precisava de solução”

A JORNADA PARA TIRAR A IDEIA DO PAPEL

Em 2017, quando descobriu este grande gargalo, Lucas começou a desenhar o Civida. Na época, inscreveu o projeto no Prêmio Instituto 3M para Estudantes Universitários que, em parceria com a AlfaSol – ONG dedicada à alfabetização solidária, reconhece projetos que propõem inovação e avanço tecnológico com foco em gerar impacto positivo na sociedade.

A ideia de Lucas não foi vencedora daquela edição, mas pelo alto potencial de melhorar a vida das pessoas, recebeu uma menção honrosa no prêmio. Era o suficiente. “Eu precisava de 9,5 mil reais para colocar um piloto do projeto para rodar. Recebi 10 mil reais do Instituto 3M”, lembra. Segundo ele, dava certinho para colocar de pé o MVP (Minimum Viable Product).

Valéria Chaves, diretora voluntária de tecnologia social da instituição, diz que a iniciativa recebeu o reconhecimento pela potência da proposta:

“O Lucas chegou com essa ideia de que podemos usar a lógica do compartilhamento para propor uma corrente do bem. O Civida é, acima de tudo, uma plataforma que acredita no ser humano, no interesse das pessoas em fazer melhor ao próximo”

Segundo ela, provocar jovens a repensarem problemas sociais, como propõe o Prêmio Instituto 3M para Estudantes Universitários, é uma maneira de oxigenar o mundo acadêmico e, de quebra, estimular o protagonismo nas novas gerações para resolver problemas do mundo. “Com iniciativas assim estimulamos as pessoas a gerarem valor para a sociedade”, resume.

E já que o ciclo é positivo, o investimento feito pelo Instituto 3M chamou a atenção da Faccat, a universidade em que Lucas estudava, que também decidiu apoiar o empreendedor ao estimular outros alunos a trabalharem no projeto. “São estudantes voluntários que se engajam. Dois deles recebiam bolsa na faculdade”, conta. Com esta troca, ele diz ter montado uma equipe com cerca de 10 pessoas.

A ideia caiu tão bem que antes mesmo do aplicativo entrar no ar, Lucas já começou a ser procurado pela imprensa para falar da iniciativa. “Demos entrevista para um jornal de grande audiência da RBS, afiliada da Globo no Rio Grande do Sul, e as pessoas já começaram a nos procurar”, diz.

SOBRE CONECTAR PESSOAS E PROMOVER TROCAS

Civida-doação-equipamentos-saúde

À esquerda, Lucas e Lee Jones, gerente de marketing do Civida, fazem a entrega de de um andador doado pelo Hospital Bom Pastor.

Em abril de 2019 o Civida foi lançado como uma plataforma para conectar pessoas e promover a troca de equipamentos de saúde e itens capazes de melhorar a qualidade de vida. Lucas diz que o projeto deu a ele a chance de viver grandes histórias. Ele e a equipe do projeto cuidam pessoalmente de algumas demandas e, muitas vezes, fazem até a logística do equipamento quanto é na região em que vivem.

Ele conta de uma entrega que fizeram para um homem que sofria com obesidade mórbida e esperava há dois anos por uma cadeira de rodas pelo SUS, com a mobilidade completamente restrita. “Conseguimos a cadeira, fizemos a entrega e foi muito comovente ver o quanto ele se emocionou por reconquistar a autonomia para se deslocar”, conta.

Outro caso que marcou a jornada do projeto, diz Lucas, foi o de um andador infantil que estava sem uso. A própria criança que tinha utilizado o equipamento viu sobre o projeto na TV e pediu para a mãe entrar no aplicativo e oferecer para doação. Com a intermediação do Civida, a solução foi parar nas mãos de outra criança, que esperava há mais de seis meses pelo andador. Um ciclo de boas trocas.

Em quase um ano com o projeto rodando, foram mais de 500 equipamentos de saúde emprestados e doados, calcula Lucas. Ele diz que, com o tempo, o projeto ganha novos parceiros, como alguns hospitais que abastecem a plataforma com seus andadores, cadeiras de rodas, entre outros itens.

Entraram na jogada também algumas transportadoras, que toparam oferecer frete gratuito para levar os equipamentos doados na plataforma de um lugar a outro do Brasil. “Esta era uma grande dificuldade. As pessoas não têm dinheiro para o transporte e muitas vezes tinha um item disponível em um lugar distante.”

Por enquanto o Civida é uma solução relevante para os usuários, mas que ainda não gera receitas. Lucas quer mudar este jogo e transformar o projeto em um empreendimento social capaz de trazer faturamento e lucro, além do impacto positivo.

“Elaboramos um plano de negócio. Queremos nos tornar um marketplace de equipamentos de saúde e, além de doar, vender alguns itens. O plano é trazer como alternativa na mesma plataforma a venda dos produtos com preço mais acessível.”

Entre os cenários para o médio prazo, está inclusive abrir a possibilidade de contratar profissionais como cuidadores pela plataforma. Tudo on-line, fácil e simples. Colocar o projeto de pé, no entanto, demanda captar investimento. Para realizar mais esta etapa do projeto Lucas diz que vai continuar a fazer o que mais aprendeu com a plataforma: se conectar com as pessoas e fazer a roda do impacto positivo girar. Tem funcionado bem até aqui.

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