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Mais do que vender calcinhas absorventes, a Herself quer mudar a relação das mulheres com a menstruação e o próprio corpo

Marília Marasciulo - 3 fev 2020
Ainda na faculdade, a gaúcha Raíssa Kist, 26 anos, criou o próprio negócio, a marca de calcinhas absorventes Herself.
Marília Marasciulo - 3 fev 2020
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A gaúcha Raíssa Kist tem 26 anos e um propósito claro: ajudar a mudar a maneira como as mulheres se relacionam com seu corpo e sua menstruação.

Em 2017, com esse objetivo em mente, a empreendedora criou a Herself, uma marca de calcinhas absorventes totalmente desenvolvidas e fabricadas no Brasil.

“Os absorventes e o próprio coletor são da década de 1930, e desde então não surgiu nenhuma novidade no setor. Por quê? O problema está resolvido? Resolvido para quem? Ninguém perguntou às mulheres se elas estão satisfeitas com os produtos disponíveis. O tabu faz com que não se dê voz a elas e não se criem inovações”

A própria Raíssa só começou a pensar a respeito depois que uma primeira tentativa de empreender não foi para frente. Em 2016, no terceiro ano de faculdade de engenharia química, ela tentou criar, com a colega Nicole Zagonel dos Santos, uma empresa de logística reversa para coleta de embalagens antes que terminassem em um lixão.

Seria algo parecido, diz Raíssa, com o que faz a marca de cosméticos britânica Lush, que dá produtos de graça aos clientes em troca dos potes vazios.

“São polímeros consistentes, não faz sentido destruí-los para a reciclagem. Eu queria fazer uma triagem para que fossem reaproveitados pelas próprias empresas”

A ideia foi aceita no programa AGIR, do Sebrae-RS, de apoio a empreendedores de impacto social. A mentoria duraria quatro meses, mas logo no primeiro as estudantes não conseguiram validar o projeto: uma regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) impossibilitava colocar em prática o reaproveitamento das embalagens.

APEGAR-SE AO PROBLEMA: PRIMEIRA LIÇÃO PARA QUEM QUER EMPREENDER

Decepção à parte, Raíssa não desistiu. “Uma coisa que aprendi com o empreendedorismo é a se apegar ao problema, e não à solução”, diz.

Na primeira coleção da Herself, todas as calcinhas eram pretas.

O problema, para ela, era a grande quantidade de lixo produzido pela sociedade. Mas a partir daí, ela começou a desdobrar o tema em outros desafios. Voltando a atenção para as dificuldades no dia a dia das mulheres, Raíssa chegou à menstruação. “Pensei: menstruo todo mês e tenho que usar sempre os mesmos produtos.”

Além de considerá-los desconfortáveis, ela se incomodava com o fato de serem poluentes. Fabricados com plástico, poliéster, polipropileno e outros produtos químicos incorporados ao algodão para aumentar sua performance, os absorventes tradicionais não são recicláveis e a maioria nem sequer é biodegradável.

Assim, entre o fim de 2016 e metade de 2017, Raíssa e Nicole persistiram e foram ouvir outras 800 mulheres para entender se compartilhavam o mesmo incômodo.

“Foi emocionante conversar e ver que a questão não estava resolvida, jamais, a inquietação era de muitas…. Quando pedia para elas idealizarem um produto, elas é que traziam a sugestão de que podia ser uma calcinha, e algumas até se ofereciam para testar”

Em uma pesquisa de mercado, as duas colegas descobriram que, no exterior, já havia empresas apostando no modelo, aplicando tecnologia de absorção a tecidos comerciais para criar peças leves e maleáveis. Mas, para Raíssa, simplesmente importar os produtos não fazia sentido.

MODELAGEM PENSADA SOB MEDIDA PARA O CORPO DA MULHER BRASILEIRA

Pense nisso: por ano, cada mulher usa em média 400 absorventes, que equivalem a 3 quilos de lixo. Multiplique pela população de 3,5 bilhões de mulheres, e os cerca de 40 anos que uma mulher menstrua durante a vida, e você terá uma ideia do impacto ambiental.

Aliás, entendeu por que não fazia sentido importar?

“Se fosse para trazer tudo do exterior, como ficaria a pegada de carbono? E o impacto ambiental e social? Eu queria desenvolver tudo aqui, com uma tecnologia nossa e uma modelagem pensada para o corpo da brasileira”

E de tecnologia ela entendia bem. Afinal, foi a vontade de levar a inovação da área acadêmica para o consumidor final que a fez migrar para o empreendedorismo: Raíssa trancou a faculdade de engenharia para se dedicar ao próprio negócio.

NA INSCRIÇÃO PARA O ESTÁGIO, ELA COMEÇOU A QUESTIONAR SUAS ESCOLHAS

Natural de Santa Cruz do Sul, a “capital do tabaco” do Brasil, e neta de agricultores, Raíssa sempre foi estimulada a trabalhar na indústria. Mas ao se mudar para Porto Alegre e cursar a faculdade, viu que seu desejo era outro.

“Quando chegou o momento de me inscrever em um estágio, como todo mundo fazia, comecei a me questionar, porque não me sentia representada nesse ambiente”

Ao mesmo tempo, uma inquietação por “tirar as coisas do papel” a afastava da área acadêmica.

A coleção “Plurais” traz peças em diferentes tons de pele.

Nesse sentido, uma experiência foi marcante: em um projeto de iniciação científica, ajudou a criar uma embalagem inteligente que mudava de cor se o alimento estivesse em processo de decomposição.

Como tantas outras ideias que Raíssa considerava inovadoras, porém, esta não saiu do ambiente acadêmico. “A pós-doutoranda [da pesquisa] tinha vários outros projetos que acabaram virando livros, e eu não queria isso.”

TRÊS CAMADAS DE TECIDO AJUDAM A PROPORCIONAR CONFORTO E ABSORÇÃO

Raíssa foi em busca de cursos e chegou ao “Liderança”, da Fundação Estudar, em que teria 30 dias para tirar alguma ideia do papel. E encontrou no empreendedorismo o complemento perfeito para a formação acadêmica.

“Decidi mergulhar em mim para entender o que eu gostaria de fazer. A engenharia traz muito essa parte de desenvolvimento de ideias, mas não explica como tirá-las do papel, e o empreendedorismo faz isso”

Foi unindo esses conhecimentos que Raíssa desenvolveu a tecnologia para as calcinhas. Elas são feitas com três camadas de tecidos diferentes para proporcionar conforto e absorção.

A camada mais interna, em contato com a região íntima, é de algodão (material indicado pelos ginecologistas); a intermediária é de poliéster e algodão, que passam por processos para adquirir propriedades absorventes, além da função antimicrobiana proporcionada por nanopartículas de prata; e a externa é de um tecido sintético com hidrorrepelente, composto por poliamida, que dá elasticidade e evita que a menstruação passe para a roupa.

O tempo de absorção varia de acordo com cada mulher e modelagem, mas a Herself recomenda que o uso não ultrapasse 12 horas, para evitar a proliferação de fungos e bactérias.

COM O PRODUTO IDEAL, FALTOU DINHEIRO PARA PRODUZIR EM LARGA ESCALA

As peças duram 48 lavagens (de preferência, com sabão neutro, pois produtos com cloro e alvejante podem danificar o tecido a longo prazo), principalmente por causa do efeito antimicrobiano, mas a ideia é que continuem a ser usadas depois como calcinhas normais.

Até chegar a esse modelo, em 2017, porém, foram necessários sete “pilotos”. Raíssa explica:

“O desafio era calibrar as máquinas para unir tudo isso em um formato de calcinha com uma costura firme, para que fosse algo duradouro”

Quando finalmente chegaram a ele, faltou grana para produzi-lo em larga escala.

“Era uma aposta com risco muito grande para pedir apoio de familiares ou pegar empréstimos com bancos”, diz. A solução encontrada foi buscar apoio em crowdfunding. Abriram uma campanha no Catarse com a meta de arrecadar 30 mil reais.

Missão cumprida: receberam quase 800 apoios, levantando 113 mil reais. Cada apoio era uma calcinha (essa era a contrapartida oferecida).

PROGRAMAS DE MENTORIA E INCUBAÇÃO FORAM FUNDAMENTAIS NA JORNADA

A “Olhares” é uma coleção de biquínis e maiôs absorventes.

Paralelamente, continuavam participando de editais para obter mentoria — participaram do AGIR por quase dois anos. “Foi importante contar com editais para os processos como registro de marca, patente, e mais uma infinidade de situações nas quais é bom estar bem amparada”, diz Raíssa.

Um dos processos dos quais participaram foi para serem incubadas na Hestia, incubadora tecnológica da escola de engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde estudavam.

“Algo que me marcou foi apresentar o produto para uma banca de homens e escutar que a menstruação era um problema já resolvido, e ter que sensibilizá-los, porque o mercado ainda é muito masculino”

A Herself foi aprovada justamente quando saiu o financiamento coletivo, e recebeu uma mentoria de quase um  ano, entre julho de 2017 e junho 2018, para estruturar a empresa e um e-commerce.

A CONCORRÊNCIA FEZ RAÍSSA VER QUE A DECISÃO DE INVESTIR FOI ACERTADA

Neste meio tempo, fim de 2017, Nicole saiu do projeto para seguir a carreira acadêmica. Entrou em cena uma amiga de Raíssa, Camila Kist (as duas estudaram juntas no colégio; o sobrenome idêntico é pura coincidência), que veio para ajudá-la a organizar as áreas da empresa.

Para dar conta da demanda de produzir cerca de mil calcinhas pós-crowdfunding, a estratégia foi apostar em um estoque mínimo: com poucos modelos, uma única cor (o preto era a única opção até 2019), mas todos os tamanhos — do 30 ao 60.

Somado a isso, começaram a surgir no Brasil outras marcas de calcinhas absorventes, como a Pantys (que coincidentemente entrou no mercado no mesmo mês que a Herself), que já vendeu mais de 60 mil peças e hoje tem parceria com marcas como a fabricante de absorventes Sempre Livre, da Johnson&Johnson.

“Isso me fez vez que a decisão de investir na Herself foi acertada”, diz Raíssa.

MAIS DO QUE AS VENDAS, A HERSELF QUER AUMENTAR SEU IMPACTO SOCIAL

Raíssa e as costureiras: o modelo mais básico das calcinhas absorventes, feitas em uma fábrica parceira na região metropolitana de Porto Alegre, custa R$ 75.

De 2018 para 2019, a missão foi estruturar a empresa para crescer. Contrataram oito mulheres para trabalhar nas áreas de logística, design, comunicação e saúde, e buscaram a parceria de uma fábrica na região metropolitana de Porto Alegre que produz com exclusividade para a Herself.

Além do e-commerce, começaram a vender em lojas parceiras. Hoje, a marca entrega para todo o Brasil e está presente no Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro (confira os endereços aqui).

Já 2019 foi o ano de escalar. Mas isso não significa necessariamente faturar mais ou fazer a empresa crescer, embora tenham acrescentado novas cores e expandido os modelos respondendo ao feedback de clientes, que pediram peças mais larguinhas e opções de moda praia.

“Escalar é aumentar o impacto social. A calcinha tangibiliza diálogo e autoconhecimento ao voltar o olhar das mulheres para elas mesmas e para a relação com seus próprios corpos”

Além de produzirem conteúdo para um blog próprio, Raíssa e Camila começaram a realizar cursos e ações com mulheres em situações vulneráveis.

Em penitenciárias, por exemplo, foram quatro ações que engajaram cerca de 50 mulheres nas penitenciárias femininas de Porto Alegre e de Guaíba (na região metropolitana da capital); elas aprenderam a fabricar seus próprios bioabsorventes e foram estimuladas a desenvolver um novo olhar em relação a seus corpos — leia aqui como foi um desses encontros.

A META É FATURAR R$ 1 MILHÃO — MAS A MAIOR SATISFAÇÃO NÃO É FINANCEIRA

Em dezembro de 2019, saiu o anúncio de que a Herself foi uma das selecionadas para o programa Aceleração Itaú Mulher Empreendedora. Segundo a plataforma (que é cliente do Draft e tem seu canal de conteúdo publicado aqui), foram apenas seis negócios escolhidos de 284 inscritos na chamada. A aceleração ficará a cargo da Yunus Corporate e do FGVcenn, parceiros do programa.

Para 2020, mais do que vender mais calcinhas, o objetivo da Herself é atingir ao menos mil mulheres nas ações presenciais e tornar os produtos mais acessíveis — elas criaram kits com três absorventes laváveis, vendidos a 65 reais, enquanto a calcinha mais básica sai por 75 reais.

A previsão de faturamento neste ano é de 1 milhão de reais. Raíssa, porém, diz que sua maior satisfação não é financeira: é sentir que pode fazer a diferença na vida de outras mulheres.

“Quero que as próximas gerações tenham experiências melhores com a menstruação do que as nossas como adolescentes”

De preferência, com soluções criadas no século 21.

 

DRAFT CARD

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  • Projeto: Herself
  • O que faz: Calcinhas absorventes
  • Sócio(s): Raíssa Kist
  • Funcionários: 8
  • Sede: Porto Alegre
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: R$ 113 mil em financiamento coletivo
  • Faturamento: R$ 1 milhão (previsão para 2020)
  • Contato: [email protected]
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