Startup oferece plataforma ESG que permite aos clientes de 3 países monitorar e reportar indicadores de sustentabilidade no campo

Marco Britto - 27 jul 2022
(Foto: Divulgação)
Marco Britto - 27 jul 2022
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A trajetória de ascensão da Agrosmart, startup brasileira que é hoje uma referência na América Latina em tecnologia para o agro, chegou recentemente à maturação de uma meta idealizada por seus fundadores há oito anos, quando entraram em atividade: fazer a gestão da produção e distribuição caber na palma da mão dos produtores. Com um background voltado para a internet das coisas, as soluções da empresa hoje permitem que o cliente possa sozinho tomar decisões melhores, baseado em dados captados em tempo real nas propriedades, seja na fazenda ou na fábrica.

Adicionando essa capacidade de monitoramento aos desafios impostos pela mudança climática, a empresa, que atende cerca de 100 mil produtores rurais em uma área de 48 milhões de hectares distribuída principalmente entre Brasil, Argentina e Paraguai, se coloca como uma solução para a adaptação e resiliência para manter o agronegócio funcionando, dando lucro, consumindo menos recursos e cumprindo seu papel de alimentar as populações.

Trata-se basicamente de adotar a atitude de que “o futuro é agora”. A crise do clima já é uma realidade no campo e os produtores precisam de soluções para continuar trabalhando. O trabalho, contudo, passa por transformações que afetam toda a cadeia, desde o cultivo ao fornecimento e distribuição. O cenário que se coloca adiante é de culturas em movimento, mudando conforme o vento, literalmente. Se hoje as condições permitem plantar feijão, é possível que no ano que vem a opção seja semear mirtilos. Mariana Vasconcelos, CEO e fundadora da Agrosmart, explica:

“Isso já vem acontecendo há alguns anos. É comum ouvirmos que ‘sempre plantei isso e agora não funciona mais’. O desafio do produtor é se adaptar, e as cadeias precisam se reorganizar para saber de onde vem a comida para a distribuição.”

Pensando em soluções para esta nova realidade, a startup partiu da concepção de monitorar de forma customizada cada propriedade, com sensores para medir umidade no solo, pluviômetros e estações meteorológicas instaladas para dar ao cliente uma previsão adaptada àquela realidade. Se hoje isso funciona de forma eficiente e simplificada, no começo houve percalços.

“Logo percebemos que os dados não bastavam. Mesmo com todas as medições de temperatura de umidade, o dado cru era difícil para os clientes lerem”, conta Vasconcelos. Era preciso uma interface, e assim a Agrosmart desenvolveu suas plataformas, partindo do conceito de climate smart solutions, para coletar, organizar e entregar ao produtor do campo uma leitura em tempo real de diversos aspectos que possam afetar a produtividade.

A Plataforma de Inteligência Climática faz esse papel, entregando imagens de satélite, previsão do tempo personalizada, roteiros para irrigação eficiente – tudo baseado numa telemetria precisa das condições no local, o que permite eficiência no uso da água, da energia, e resulta em produtividade e qualidade do produto.

PLATAFORMA ESG PARA O PEQUENO PRODUTOR

Segundo a CEO, para ela uma das belezas de trabalhar com o agro é que “dá para resolver tudo junto, com dados, com governança, com qualidade de vida, automação de processos”. A vantagem do agro, para ela, é que ele atinge os ODS direta e indiretamente.

“Se você usa bem a água, é bom para a empresa, para a população, assim como a gestão dos riscos ambientais, da mão de obra, da documentação, da posse de terra, é um todo. Mesmo se você olhar uma fazenda apenas, ela tem essas dores todas, de compliance, de contratos, de segurança, de educação ambiental. Você consegue ver essa questão complexa em cada produtor.”

O passo seguinte foi pensar na cadeia produtiva, que envolve a distribuição dos bens produzidos no campo. Após consolidar a solução que colhe dados e os organiza, uma segunda interface, voltada para empresas, foi agregada ao portfólio da Agrosmart. A ESG Platform, apresentada como uma solução de monitoração, reporte e verificação, entrega aos clientes um acompanhamento para aprimorar os indicadores de sustentabilidade dos negócios ligados ao agro.

Além das questões de eficiência no manejo, a plataforma empresarial inclui dados relacionados aos trabalhadores, à pegada de carbono da operação e ao processo de obtenção de certificações, por exemplo. 

“Na parte de ESG, a gente reúne dados de tudo que vem da plataforma de clima com o caderno de campo, que a corporação utiliza para que seus agrônomos e auditores coletem informações, fazendo um checklist de dados, e cruzamos isso com dados públicos, geramos relatórios gerenciais de governança de operações, uso de defensivos”, conta Vasconcelos. “É uma plataforma de diagnóstico – se a cadeia tem muita emissão, muito consumo, trabalho escravo.”

CRESCIMENTO DE 170% EM 2021

Com este portfólio a Agrosmart vem dando saltos de crescimento, impulsionados também pela aquisição em 2021 da startup argentina BoosterAgro, criadora da plataforma de mesmo nome, o que aumentou muito a presença da empresa brasileira no mercado latino. Com um ecossistema de soluções que capta dados, reúne impressões dos produtores, e gera relatórios que permitem um amplo diagnóstico do mercado, a startup brasileira cresceu seus negócios em 90% em 2020 e 170% em 2021.

Nos planos da empresa, que tem matriz em Campinas e filiais em São Paulo, Manaus, Buenos Aires, Assunção e Salinas, nos Estados Unidos, está a meta de aumentar a presença em outros continentes, especificamente África e Ásia. A CEO explica a estratégia:

“A agricultura tropical é muito mais complicada do que o trabalho em zonas temperadas. A produção de alimentos está muito mais concentrada em países em desenvolvimento. Mesmo os Estados Unidos, que são grandes produtores, estão com dificuldades climáticas e buscam diversificar a cadeia indo para países da América Latina”, afirma.

Antes disso, porém, um novo braço da Agrosmart está em pleno processo de formulação. Em sua terceira rodada de investimentos, a empresa agora prepara uma solução de cunho financeiro para os produtores do agro. A ideia, segundo a fundadora explica, é oferecer uma plataforma para que os clientes possam buscar financiamento para investir na adaptação climática, bem como na produtividade e na busca por metas de sustentabilidade. O anúncio dos resultados será feito até o fim do ano.

A JORNADA DE UMA CEO

Vasconcelos, que brinca sobre falar em ritmo acelerado, é mesmo uma figura de agilidade. Citada com frequência entre empreendedores influentes com menos de 30 anos, é uma face moderna do potencial da indústria brasileira – uma mulher, no agro, que aposta no valor agregado do serviço usando tecnologia. Ela vem de uma família ligada ao agronegócio, assim como seus sócios, porém antes de fundar a Agrosmart, trabalhou para a Bosch, na Alemanha. 

Mesmo tendo seu nome em listas de revistas com Forbes e Bloomberg, e um currículo que passa por cursos em Harvard e na London School of Economics, a executiva afirma que não faz gestão da sua carreira. Na verdade, ela nem sequer pensa em carreira nestes termos. 

“Eu sou empreendedora. Eu sei o que quero construir e busco o máximo de ajuda possível, sejam stakeholders, da indústria ou fora da indústria, uma tecnologia. Eu não penso na minha carreira, penso na minha jornada do conhecimento. Eu não gerencio minha carreira, gerencio minha jornada.”

O trabalho da CEO fez com que a Agrosmart fosse também uma referência em equidade de gênero no agronegócio, com a participação de Vasconcelos em workshops e cursos voltados para o fortalecimento da presença feminina no setor. 

“A gente vê muita mudança. Antes eu era a única mulher na reunião, na liderança, na feira, e hoje as próprias marcas de agro têm seus programas, seus incentivos. Mas ainda falta poder. Há mais mulheres, mas muitas vezes não são elas que tomam as decisões, seja na fazenda, seja na empresa.”

A Agrosmart cresceu 60% em presença feminina entre seus 67 funcionários no último ano, mas ainda não alcançou a equidade entre gêneros nos seus quadros. “Estamos lutando para isso”, comenta. “Não quero colocar mulher só em RH e marketing, quero botar mulheres no campo, na TI. Temos agrônomas, gerentes de produto. Isso abre espaço, e as meninas no time também fomentam isso, elas acabam sendo referência em suas áreas”.

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