“Com a pandemia, as máscaras caíram, os discursos têm que ser transparentes. O que é dito ‘da boca para fora’ não cola mais”

Dani Rosolen - 21 Maio 2020
Greta Paz, sócia da Eyxo e um dos nomes na lista "Forbes Under 30", publicada no começo deste ano.
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Quando tinha 21 anos, a jornalista Greta Paz já empreendia em comunicação. Seu primeiro negócio foi a MPQuatro, com foco no YouTube. Cinco anos depois, em 2018, ela montou a Eyxo, empresa de conteúdo digital fundada com seu pai, Cesar Paz, e mais três sócios, Andrei Nowa, Luis Fernando Martins e PC Dias.

Sediada em Porto Alegre, onde mora, e com escritório em São Paulo, a Eyxo tem foco em audiovisual e já atendeu clientes como 99, Unilever, ESPN e Grupo O Boticário. No ano passado, o faturamento foi de 4 milhões de reais.

Como o próprio site explica: “Eixo é uma linha reta  —  real ou imaginária  —  que divide em duas partes simétricas os corpos ou superfícies. Torna um em dois, multiplica”. O Y acrescentado ao nome é uma referência à inovação e aos millennials, ou Geração Y, da qual Greta faz parte.

Aos 28, ela já figurava na lista “Forbes Under 30 Brasil 2019” (de pessoas mais promissoras com menos de 30 anos), promovida na edição de número 74 da publicação, a primeira deste ano, publicada agora em maio. Um pouco antes, no final do ano passado, somou outro “título” ao currículo: a Eyxo recebeu a certificação de Empresa B.

Aos 29, Greta segue com energia de sobra para encarar novos desafios, no cenário trazido pelo coronavírus. Agora em esquema de trabalho remoto, sua empresa acaba de produzir um documentário sobre o cancelamento, devido à pandemia, da edição deste ano do festival South by Southwest.

A seguir, entre outros temas, Greta fala sobre os impactos da crise na sua empresa e no mercado de comunicação, e a quantas anda a produção de seu canal no YouTube para incentivar outras mulheres a empreender.

 

Como surgiu a ideia de fundar a Eyxo?
Eu já empreendia na área de comunicação com uma empresa focada em YouTube. Mas entendi que não fazia sentido construir um negócio em cima apenas de uma plataforma, via oportunidades de expandir o serviço e aí montei a Eyxo para falar sobre experiência de conteúdo para marcas.

Qual foi o projeto mais desafiador da empresa até agora?
Um dos projetos mais representativos foi a plataforma #Juntas Arrasamos que desenvolvemos com o U-Studio, da Unilever, para falar de empreendedorismo feminino na periferia do Brasil.

Nessa plataforma tinha um quiz que era respondido por meninas e, a partir dessas respostas, criamos conteúdos em vídeo. Entrevistamos desde artistas plásticas a bailarinas, com o objetivo de ajudar jovens de 13 a 17 anos a pensar na possibilidade de empreender

Foi um projeto muito desafiador porque ele junta muitas das coisas em que a gente acredita: feminismo, empreendedorismo e grandes marcas sendo um canhão para impactar as pessoas.

Você fundou seu primeiro negócio aos 21 anos e vem de uma família de empreendedores. Como se deu essa influência familiar?
Para mim é um grande privilegio porque desde pequena eu ouvia meus pais falando do mundo dos negócios. E tenho certeza que muitas das coisas que eu faço “na intuição” é porque tive a chance de escutá-los. Meu pai e minha mãe são empreendedores e acabam sendo também grandes mentores para mim. O grande desafio é criar agora o próprio caminho.

E como é trabalhar em família, tendo o pai como sócio?
Às vezes, fica difícil separar o momento em que estou falando com meu pai e o momento em que estou falando com meu sócio. Tento tomar cuidado com isso, se não os momentos em família acabam virando trabalho. Eu até falo num vídeo do meu canal que chamo ele de duas formas. Em casa, é pai. No trabalho, Cesar.

Como foi o processo para conquistar a certificação de Empresa B? E qual o impacto para o trabalho da Eyxo?
Eu conheci o Sistema B por meio de um livro há bastante tempo e comecei a pesquisar. Quando a gente montou a Eyxo, quis batalhar pelo certificado. Foi um processo longo que eu fiz questão de fazer eu mesma, com milhares de perguntas, super auditado.

Passei 11 meses envolvida com o questionário e entendendo melhorias que precisávamos perseguir para estar mais alinhados com o Sistema B. Conseguimos a certificação no fim do ano passado. Teve um significado muito grande para a nossa empresa que atua com publicidade, um setor em que é difícil receber esse reconhecimento

São vários critério para receber a certificação. Você pode ganhar pontos por algumas coisas e perder por outras. A Eyxo, por exemplo, atende empresas que não têm uma responsabilidade social tão grande. Mas estamos sempre tentando “plantar” isso nos nossos clientes, falando da necessidade de um olhar mais inclusivo. Temos, dentro da empresa, dois projetos de impacto social.

Quais são esses projetos?
Nossa equipe entendeu que, primeiro, precisa impactar quem está perto: a vizinhança, o nosso bairro e a nossa cidade. Por isso, criamos o Manda Real a partir de uma parceria com a escola da nossa rua. A ideia era realizar oficinas e entender o que eles queriam ser e que pessoas tinham como referência para seguir seus sonhos.

Alguns alunos diziam que queriam ser médicos, mas não conheciam alguém em quem se inspirar. Aí, percebemos que eles não viam que dentro da própria comunidade havia bons exemplos.

Então, criamos uma oficina em que eles buscavam e escreviam sobre essas histórias, valendo nota para a matéria de Português. Depois, filtravam essas narrativas e transformavam as melhores em vídeos, participando do processo de captação e edição. No fim, criávamos um filme exibido no cinema para boa parte dos alunos. E assim, aquelas histórias que estavam esquecidas na comunidade ganhavam força

No ano passado, fizemos uma gravação de uma menina que era imigrante e estava indo mal no colégio. A partir da criação desse vídeo, os alunos entenderam o que estava acontecendo. Ela estava longe da família, que ficou em Angola, e eles perceberam que precisavam dar uma força para ajudá-la a ser aprovada no colégio. Agora, estamos adaptando esse projeto para o digital porque a diretora nos ligou e falou: “Esses jovens já perderam tanta coisa neste ano que não podem perder o projeto”.

O outro projeto surgiu durante a pandemia, quando tentávamos entender como contribuir neste momento tão delicado. Descobrimos que duas comunidades aqui em Porto Alegre estavam passando por dificuldades, a de catadores de recicláveis e as pessoas em situação de rua. Fizemos uma doação, mas queríamos fazer mais.

Nossos funcionários decidiram cozinhar refeições para as pessoas em situação de rua. Começamos também a desenhar ou escrever poemas e recados nas tampas das marmitas e, por conta das redes sociais, [do apoio] de empresas que trabalham perto da gente e de clientes, o projeto tomou uma proporção muito grande

Hoje já são 90 pessoas cozinhando. Servimos mais de 3 mil refeições em um mês. A ação começou em Porto Alegre e já inspirou movimentos em São Paulo e Teresina. Virou um projeto da Ecosys [ecossistema formado pela Eyxo e mais seis empresas que atuam em rede e dividem o mesmo espaço de trabalho]. Hoje, a gente entrega, de domingo a domingo, uma média de 80 refeições por dia para a ONG Misturaí, responsável por fazer a distribuição.

Como surgiu a ideia de filmar um documentário sobre o cancelamento do South by Southwest e quais foram os aprendizados com a produção de SXSW – O futuro que não aconteceu?
Estávamos com um projeto grande fechado com um cliente em Austin [capital do Texas, onde o festival é realizado]. Tinham quatro pessoas do nosso time indo para cobrir o evento, incluindo o Nando [Luis Fernando Martins], nosso sócio, que é filmmaker. Na época, foi superpolêmico o cancelamento, mas hoje dá para ver que fazia total sentido.

Mesmo assim, junto com a White Rabbit, achamos que havia algo incrível para registrar, um momento histórico: na SXSW, onde todo mundo prevê o futuro, ninguém conseguiu prever o que iria acontecer

Resolvemos mandar só o Nando para fazer esse documentário, no sentido de ter um registro histórico. Tudo foi feito em muito pouco tempo. Produzimos em três dias e captamos em quatro.

Foi um aprendizado enorme tanto, pelas histórias colhidas quanto pela questão de encontrar arte em tudo, porque ficou um documentário extremamente plástico e bonito. Acabou sendo o nosso olhar artístico de um momento tão delicado — e também um olhar de como o empreendedor consegue se reinventar.

De que forma o coronavírus afetou os planos da Eyxo? Uma das metas era crescer 40% este ano: essa previsão permanece?
Dentro de um cenário geral, a Eyxo acaba sendo uma empresa menos impactada, porque a gente já trabalha com o digital e tem um modelo de negócios com contrato de longo prazo. Ainda estamos numa posição um pouco mais tranquila e confortável.

Porém, teve, sim, projetos que já estavam fechados e “caíram” ou foram adiados por causa da pandemia, até por conta das captações. Mas temos o maior orgulho de dizer que não precisamos demitir ninguém, nem houve redução de jornada.

Sobre a previsão de faturamento, revisamos os meses de abril, maio e junho e há uma perda [projetada] para esses três meses, mas não sabemos como será a retomada. É difícil prever um cenário tão a longo prazo.

Uma das coisas que tenho falado muito é que precisamos ser responsáveis em termos econômicos. Com a pandemia, começou um “corta, fecha, negocia, não paga”.  E esse não é o jeito que a Eyxo acredita de fazer as coisas

Vocês dividiam um galpão de trabalho de quase mil metros quadrados com mais seis empresas (Alright Media, BrazilJS, DEx01, Zeeng, Do It e ON2). Como é estar agora em home office?
É uma mudança muito grande. Hoje, minha rotina de reunião online está muito maluca. Eu praticamente saio de uma e entro em outra. Mas muitas coisas acabam sendo mais produtivas. A reunião passa a ser mais efetiva, não tem conversa paralela, as pessoas tomam decisões de uma forma mais acelerada.

A gente até brinca que antes seria impossível reunir todos os nossos sócios e gestores. Ficava um preso no trânsito, outro tinha um problema. Agora não, é só se conectar online

Começamos até a questionar [a necessidade de ocupar] o galpão. Com certeza, quando voltarmos, não será para o modelo anterior, de cada um ter sua estação de trabalho, precisar estar presente todo dia lá, bater o ponto de tal hora a tal hora.

Você acha que a pandemia está transformando a maneira de fazer comunicação?
Com certeza. A gente estava vendo antes as marcas falando sobre o porquê delas existirem e o sentido do que fazem. Com a pandemia, as máscaras caíram e os discursos começam a ter que ser mais transparentes. Aquilo que é dito “da boca para fora” não cola mais.

Isso vai ter uma repercussão muito grande na forma de fazer comunicação por muito tempo. A gente já vê questões sociais, de manifesto, de transparência mais presentes. Marcas que já tinham um posicionamento nessa linha e que têm uma tomada de decisão mais rápida na comunicação acabaram saindo na frente. Quem demorou mais para se posicionar está sofrendo.

Quais foram os frutos colhidos por aparecer na lista “Under 30” da Forbes?
Acaba sendo um reconhecimento que impacta os clientes e o mercado, o que influenciou no primeiro quarter [trimestre] incrível que tivemos esse ano.

Agora tenho 29, mas quando apareci na lista estava com 28, e sempre é um desafio para as marcas me entregarem grandes projetos e budgets. É uma questão que vivo por ser mulher e jovem

O selo Forbes acaba tendo um significado enorme de dizer que estamos no caminho certo. E me deu mais vontade de produzir conteúdos sobre empreendedorismo feminino para o meu canal no YouTube.

Gosto de dizer que não foi algo que caiu por sorte no meu colo. Trabalhei duro para estar na revista, mas também articulei muitas coisas para esse reconhecimento chegar, falei com pessoas que conhecia, ativei contatos, me inscrevi, paguei uma taxa. Me movimentei para estar lá.

O que te motivou a criar o canal Faz de Propósito, no YouTube? E como você faz a curadoria dos temas e entrevistados no canal?
O canal surgiu da sensação de que faltava algo no que estava sendo produzido de conteúdo sobre empreendedorismo no YT. Vemos muitos homens falando sobre empreendedorismo no viés de ganhar dinheiro e muitas mulheres falando sobre empreendedorismo num viés mais autônomo. Achei que tinha um espaço enorme para abordar isso de outra maneira.

Tenho bastante dificuldade como empreendedora de buscar pessoas para me inspirar. Não é que não existam empreendedores fazendo coisas incríveis. Mas é muito difícil para alguém conseguir estar à frente do seu negócio e ao mesmo tempo produzir conteúdos interessantes. Foi aí que decidi montar o canal.

Toco os vídeos totalmente em paralelo [ao trabalho da Eyxo]. Mas é muito legal porque tenho muito retorno, as mulheres que assistem se engajam, mandam recados e feedbacks. Eu sinto que o canal cumpre aquilo que eu gostaria, por isso continuo motivada.

Os temas selecionados têm um cruzamento entre coisas que eu tenho vontade de falar e que eu não encontro por aí — por exemplo, como montar o orçamento de uma empresa de serviço ou como demitir um funcionário, o vídeo mais visto nos últimos dois meses. É um tema super delicado e sempre vejo vídeos seguindo uma abordagem que não gosto. Os convidados nesse momento são pessoas próximas a mim, que trazem aprendizados para o meu negócio e que podem agregar na vida de outros empreendedores.

Além do canal, que estratégias você busca para espalhar a mensagem do empreendedorismo feminino e incentivar outras mulheres?
Hoje, tocando um negócio e estando na operação, o que me consome muito, busco fazer isso por meio palestras, participações em eventos e em grupos de empreendedores e instituições da área.

Tenho projetos mais ambiciosos em relação a isso, sinto que é minha missão. Mas entendendo que a empresa precisa estar mais sólida antes que eu possa dar esse passo. Uma das coisas contra a qual eu luto é o empreendedorismo de palco. Então, quero primeiro fazer algo pela minha empresa — para depois contar.

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