“Estamos vivendo a melhor época da humanidade para a realização de grandes avanços sociais”

James Marins - 29 nov 2019
James Marins, cofundador do Instituto Legado e otimista por natureza.
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por James Marins

Em minha jornada pessoal, seja no universo corporativo, jurídico ou como escritor e professor e, mais recentemente, na experiência vivida enquanto cofundador, cocriador, mentor e também investidor de diversas iniciativas de impacto, encontrei centenas de empreendedores sociais que redefiniram a maneira pela qual podemos resolver os complexos problemas da nossa sociedade.

Aprendi que há milhares de fundadores que definem seu sucesso não apenas pelo lucro que geram, mas principalmente pelo impacto socioambiental que perseguem. Empreendedores que não querem ser os maiores do mundo, mas os melhores para o mundo. Isso me motivou a escrever o livro A Era de Impacto, lançado há cerca de um mês pela Editora Voo.

Na publicação, eu explico por que acredito que o mundo está cada vez melhor. Sim, para muitos pode parecer loucura, mas quem ler entenderá minha defesa de “Movimento Transformador Massivo” e de como a humanidade vive o momento mais propício para realização de grandes avanços sociais. A seguir conto um pouco do que me inspirou a escrever essa obra.

Quem se importa?

É uma fria manhã de inverno curitibano. A luminosidade do sol, mais vibrante nessa época do ano, pinta o céu de intensas variações de azul. Mas, diante de mim, se descortina um mundo distópico, descolorido, retratado em uma sucessão de imagens aterradoras, conflitos insanos, bombas explodindo em nuvens sujas. Ouço o ruído dos tiros disparados a esmo. Vejo pessoas feridas e moralmente desvalidas, desconstituídas.

Desastres ambientais ferem minha retina e minha consciência. Chaminés vomitam fumaça tóxica. Um avião branco despeja toneladas de agrotóxicos. Favelas brotam em meio ao lixo urbano. Desesperança. Semblantes estranhos me encaram. Crianças, jovens e idosos são deixados para trás. Não adianta fechar os olhos. Faces apáticas figuram o sentimento de abandono de nossa própria espécie.

Subitamente, uma voz feminina emerge e me diz: “Uma das coisas que sempre me pegou foi a frase ‘quem se importa?’, que ouvimos com tanta frequência. O sentimento de indiferença é algo muito triste. E a apatia e a ignorância são, na minha opinião, nossos piores inimigos”. Tudo se desenrola em ritmo vertiginoso. Crianças brincam no esgoto, mulheres em fila carregam água em suas cabeças e caminham penosamente. Milhares ou milhões de seres humanos se movimentam aceleradamente em monocromáticos vagões de trens ou metrôs. Estão correndo de algo, para algo ou para nada?

Surge, agora, uma vocalização masculina em tom indefinível: “A maioria das pessoas passa a vida apenas tentando sobreviver. E o resto delas se perde em distrações, bombardeadas por informações desconectadas de sentido”. Em seguida, reconheço a figura comovente de Gandhi, com as mãos unidas. Logo vejo a feição vigorosa de Martin Luther King.

A voz retorna e me pergunta se ainda somos capazes de nos importar. Indaga se é preciso ser algum tipo especial de pessoa para provocar uma grande mudança. Eu não tinha a resposta. A mesma voz anuncia: “Todo mundo pode mudar o mundo”. E me conta a história de empreendedores sociais – sonhadores, ousados, obstinados e práticos.

A descrição acima é de um trecho de Quem se importa, documentário brasileiro dirigido pela cineasta Mara Mourão. Foi exibido em universidades norte-americanas, como Harvard e Columbia. Conquistou prêmios no Brasil e em diversas partes do mundo, dos Estados Unidos à Indonésia, recebendo recomendação até mesmo da UNESCO. Antes de assistir a esse filme, eu não reconhecia o conceito de “empreendedor social” – peça-chave do documentário e do meu livro. Assim como a maioria das pessoas, pensava, equivocadamente, que empreendedorismo somente poderia servir para fazer dinheiro.

Foram dois geniais empreendedores sociais, Liziane Silva e Rodrigo Brito, que me apresentaram ao filme e ao conceito. Graças a eles e à sua incrível colaboração, minha esposa Gláucia e eu iniciamos, em 2012, o Projeto Legado, um programa de expansão de impacto para empreendedores sociais de onde nasceu o Instituto Legado de Empreendedorismo Social (organização sem fins lucrativos que acredita no Empreendedorismo Social como um caminho evolucionário capaz de transformar o mundo).

Nesta jornada de sete anos, me vi diante de um universo novo, um mundo no qual pessoas usam seu propósito de vida, sua capacidade inovadora, sua ousadia e obstinação para mudar o mundo para melhor, para impactar positivamente nosso planeta.

Vivenciei o empreendedorismo social, a filantropia empreendedora, os negócios sociais, as finanças sociais, as startups de impacto – novos designs de filantropia e de negócios que estão, sistemicamente, transformando as estruturas econômicas.

Descobri que existem, sim, centenas de milhões de pessoas que se importam

Percebi também que estamos vivendo a melhor época da humanidade, nossa melhor oportunidade enquanto espécie, para realização de grandes avanços sociais. E esse é um dos temas do meu livro.

Quando afirmo que podemos agir, não estou simplesmente formulando um enunciado moral, mas me propondo a compartilhar a experiência vivida nos últimos oito anos de imersão em um universo novo: o da ética do impacto socioambiental que muda o mundo

E nesse novo universo residem a constatação e a proposta. Nos últimos anos, tive a oportunidade de acompanhar de perto iniciativas de impacto social em todas as escalas. Não paro de me surpreender com a capacidade dos empreendedores sociais, com seu extraordinário senso de propósito, com o quanto são sonhadores, ousados, obstinados e práticos.

Conversei com um inspirador banqueiro bengalês que desafiou princípios financeiros conservadores e edificou o maior banco para pessoas pobres do mundo, impactando milhões de seres humanos. Também estive com um brilhante financista espanhol que criou um paradoxal banco ético e liderou um movimento mundial que trata do dinheiro com consciência.

Participei diretamente da evolução de uma startup formada por pessoas que decidiram mudar suas vidas para mudar o mundo e, utilizando de nanotecnologia, construíram, no Brasil, a maior fábrica do planeta na produção de películas orgânicas fotovoltaicas, sustentáveis e recicláveis, capazes de gerar energia limpa e renovável em escala inimaginável (OPV, na sigla em inglês).

Inscrevi-me em um aplicativo que utiliza chamadas de vídeo para ajudar cegos em suas tarefas diárias e acompanhei, com surpresa, como em dois anos esse app permitiu que quase 3 milhões de voluntários pudessem auxiliar cerca de 150 mil deficientes visuais.

Mas não são apenas as grandes iniciativas que contam hoje – e aí mora a diferença:

Assisti ao nascimento e desenvolvimento de ideias transformadoras, iniciativas de todos os tamanhos, para todas as escalas de ação, capazes de descentralizar soluções

Sem precisar sair de minha cidade, convivi com jovens idealistas e estudiosos de mecatrônica que utilizam uma combinação brilhante de tecnologias como mecânica, eletrônica, agronomia e internet das coisas para distribuir e revolucionar a produção de alimentos do mundo.

Participei da iniciativa de um pós-doutor, especialista em escorpiões, que criou um aplicativo baseado em localização satelital para conectar pessoas com algum tipo de deficiência a estudantes dispostos a ajudar. Uma ideia simples, transformadora, empática, inclusiva e inédita.

Vi meninos de 13 anos, hackers do bem, saídos da periferia de Curitiba, produzirem soluções tecnológicas para ajudar a NASA a combater incêndios florestais nos Estados Unidos. Eles nos contaram, com naturalidade, como criaram inovações que nenhum engenheiro aeroespacial havia sequer cogitado.

Acompanhei o esforço de uma jovem designer, desempregada, que partiu literalmente do zero e criou um negócio social inovador, combinando capacitação, geração de renda, empoderamento feminino e reciclagem de descartes da indústria têxtil. Em três anos, essa genial empreendedora social, praticamente sem recursos, ajudou mais de 600 famílias.

Me comovi com a história de uma mãe esmerada do interior do Paraná que transformou a dor de sua pequena filha em um inovador projeto de filantropia empreendedora que, por meio de impressoras 3D construídas por seu irmão, produz próteses de pequenas mãozinhas altamente funcionais e envia para crianças de todo o mundo que sofrem de agenesia de membros. Conheci um pai que, do indizível sofrimento pela perda de sua filha para uma doença hospitalar, retirou energia transformadora para criar um robô para unidades de terapia intensiva que hoje já salva dez vidas por dia.

Se não precisei ir longe para encontrar tantos exemplos de transformação, podemos realmente afirmar que somos destinados a ser rudes, como sugeriu Zygmunt Bauman?

Enquanto alguns preferem enxergar um mundo de grosseiros nacionalistas, negociantes utilitaristas, xenófobos, tribalistas, líderes etnocêntricos, terroristas fundamentalistas e ditadores que se divertem enriquecendo urânio, vejo um universo de seres humanos empáticos, empreendedores conscientes, líderes integrais e cidadãos colaborativos atuando em rede e sistemicamente desfrutando possibilidades inéditas

Os do primeiro grupo são prisioneiros do passado, da retrotopia. Os do segundo são os designers do futuro. Novamente, a escolha da sintonia cabe exclusivamente a nós. Mas então como se relacionam histórias tão distintas e aparentemente distantes? Qual a conexão entre o sofrimento criador de uma mãe que vive em uma pequena cidade do interior do Brasil e a inquietação de um economista que nasceu em Bangladesh e ganhou o Prêmio Nobel da Paz? Há uma quantidade imensurável de fios invisíveis que entrelaçam todas essas histórias. É só prestar atenção para enxergar!

 

James Marins, 53 anosé pós-doutor pela Universitat de Barcelona, na Espanha, doutor em Direito do Estado pela PUC-SP, autor de diversos livros e de mais de uma centena de artigos científicos. É cofundador do Instituto Legado de Empreendedorismo Social, investidor social, investidor-anjo e mentor de diversas iniciativas de impacto. 

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