EUpreendedorismo: conheça o conceito da Rede Ubuntu, que te ajuda a descobrir e desenvolver seus propósitos

Luisa Migueres - 5 Maio 2015 Eduardo Seidenthal, da Rede Ubuntu
Eduardo Seidenthal criou a Rede Ubuntu a partir de uma noção de interdependência e autoconhecimento
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Ubuntu é uma palavra africana que resume o seguinte ditado: “Eu sou porque você é, você é porque nós somos”. Foi a partir dessa filosofia que Eduardo Seidenthal resolveu plantar a semente de sua empresa, que desenvolve programas de aprendizagem. A semeadura, aliás, virou não só o logotipo da Rede Ubuntu, como a principal analogia de seus projetos mais importantes.

Vindo de 15 anos de mercado em grandes companhias — como Unilever, Philip Morris e Whirlpool —, Eduardo não queria apenas ter o seu próprio negócio: ele queria ajudar outras pessoas a atingirem o mesmo objetivo. Mas os anos de executivo no mundo corporativo o faziam imaginar como seria a perspectiva, amedrontadora, de simplesmente não ter um salário garantido no fim do mês. “Eu tinha o sonho de abrir um negócio algum dia, fiz até um mestrado em Empreendedorismo nos EUA, mas saí de lá convicto de que nunca seria um empreendedor. Achava que tinha de surgir uma ideia brilhante, do nada, para investir”, conta ele, rindo da própria desesperança na época.

Para ele, a renda variável valia só a partir do bônus. Se fosse negativa, então, era um pesadelo a ser evitado. De volta ao Brasil, Eduardo assumiu o cargo de diretor de Marketing da América Latina na Johnson & Johnson. Apesar do sucesso aparente, ele sentia que seu destino não condizia com o que a multinacional podia oferecer. Quando estava nessa fase, de desencontro entre o que se tem e o que se quer, ele experimentou algo que costuma ser o primeiro obstáculo de muitos empreendedores: como encontrar um propósito que definisse não apenas a sua carreira, mas a sua vida?

“Eu lia muitas coisas a respeito. Uma delas foi uma reportagem com a foto de um cara trabalhando na praia com um notebook no colo. A primeira dica para ter esse tipo de trabalho era não ter medo de arriscar. Bom, aí já fechei a revista!”, conta. A questão, na verdade, era mais profunda do que isso. O medo é natural e antecede qualquer início de jornada, o problema era deixar com que ele vencesse a determinação. Por isso mesmo, Eduardo procurou formas de autoconhecimento, de coaching a astrologia.

ELE TINHA UMA IDEIA. MAS MORRIA DE MEDO

A resposta não surgiu magicamente na cabeça do empresário, mas a reflexão aconteceu da seguinte maneira: Eduardo conhecia seu gosto por atingir resultados ao quebrar a cabeça pensando em modelos de negócios; também era fascinado por ver como o coletivo desenvolve as pessoas individualmente; e por fim sabia que a educação é um agente transformador, e que ela deveria estar uma das bases de sua ideia. Pronto, estavam assim definidos os três pilares sobre os quais ele construiria seu projeto.

No meio do caminho, arriscou um contato com Oscar Motomura, fundador e principal executivo da Amana-Key, organização especializada em gestão, estratégia e liderança. A primeira conversa foi durante um café da manhã, a convite de Eduardo, que buscava inspiração para seguir seu caminho às margens do mundo corporativo. O papo saiu melhor do que a encomenda e ele foi convidado a trabalhar com Oscar, prestando serviços de consultoria. Na época, o salário menor e o contrato como Pessoa Jurídica o asustavam, mas ele estava determinado a descobrir seus próximos passos. “Eu nem sabia o que era PJ na época”, diz ele. “O contador me perguntou o nome da minha empresa e eu falei Ubuntu, pois tinha assistido ao filme Em Minha Terra e me apaixonei pelo que ela representa, que é uma consciência de interdependência.”

O diferencial dos serviços prestados pela Ubuntu está nas diretrizes que vão da descoberta à realização de um propósito.

O diferencial dos serviços prestados pela Ubuntu está nas diretrizes que vão da descoberta à realização de um propósito.

Assim, de forma meio intuitiva, no dia 8 de junho de 2009 nascia oficialmente a Rede Ubuntu. No início, não faltaram investidores interessados na proposta, porém não a ponto de assinarem algum cheque, o que causou uma enorme frustração em Eduardo. No entanto, isso não o impediu de começar sozinho (com a ajuda de um designer e programador de sites) fazendo investimentos pontuais que não ultrapassaram 3 000 reais. Ele relembra o processo:

“Descobri que, na verdade, antes de empreender qualquer coisa na vida, tem de acontecer um processo anterior, que é olhar pra dentro de si. Descobrir o seu propósito, mapear possibilidades e desenvolver competências”

Só assim, segundo ele, é possível fazer com que a força vença o medo de empreender. Apesar de ter consciência dos conhecimentos que queria difundir, a Rede Ubuntu tinha dificuldades de se apresentar ao mercado. Uma consultoria? Não, mais do que isso. Um órgão de apoio a novos empresários? Também não. “Uns três meses depois da fundação da rede, me veio uma visão muito forte do que ela seria. Mas as pessoas nos confundiam com o Sebrae na época, então lançamos o conceito de EUpreendedorismo”, afirma Eduardo, que define a Ubuntu como uma mistura de educação, consultoria, coaching e mentoring. Como negócio, a Rede Ubuntu presta serviços tanto para pessoas físicas como para empresas (neste caso, oferece serviços como os de coaching, treinamento comercial, gestão de mudança e construção de equipes).

O conceito de EUpreendedorismo, inventado pela Rede Ubuntu, é um processo que permeia todos os serviços e consiste em três etapas básicas:

1) Reflexão de propósito: estimula o autoconhecimento e guia a busca por aquilo que merece ter um papel transformardor na vida das pessoas;
2) Mapeamento de possibilidades: levanta tudo o que pode ser feito para que o propósito seja alcançado;
3) Desenvolvimento de competências: revela quais pontos precisam de atenção.

Apesar de ser o “pai” da criança, Eduardo não quer a guarda total da Ubuntu — muito pelo contrário. Ele acredita tanto na colaboração e na sharing economy que está abrindo mão da propriedade na empresa. O funcionamento em rede da Ubuntu, sua transformação diária e o constante envolvimento de colaboradores é motivo de orgulho. É por essa razão que a RUA (Rede Ubuntu de Aprendizagem) também não usa um só endereço físico e hoje se manifesta em diversos locais, incluindo Florianópolis, Belo Horizonte, Curitiba e Belém, além de São Paulo.

Um primeiro escritório da Ubuntu chegou a ser montado na Vila Madalena, em São Paulo, mas o conceito de ter uma sede desagradava o fundador, que não esconde seu fascínio pela poder da interdependência:

“Já não sou mais o dono da Ubuntu. Essas pessoas que estão se aproximando e hoje fazem parte da rede têm seus propósitos e interesses, que se conectam com o EUpreendedorismo”

Atualmente, o conceito é aplicado a diversos contextos e projetos, que vão gestão de equipes a oficinas de palhaços. O maior programa desenvolvido é o Semear, criado há cinco anos para a Natura, cujo objetivo é desenvolver jovens e adolescentes entre 14 e 18 anos de idade para que se tornem protagonistas de suas carreiras. “O maior desafio é lidar com jovens que estão vindo com ‘chip’ diferente, por isso o papel deles também muda dentro da empresa”, afirma Eduardo. “Então, nós os ajudamos a ter consciência sobre quem eles são, quais são seus talentos, objetivos, e damos ferramentas e desenvolvimento de competências para que possam a trilhar esses caminhos.”

O Projeto Semear, desenvolvido para a Natura, é um dos mais antigos da Ubuntu e visa ajudar jovens a aplicarem o EUpreendendorismo no dia a dia.

O Projeto Semear, desenvolvido pela Ubuntu para a Natura, é um dos mais antigos da Rede e visa ajudar jovens a aplicarem o EUpreendendorismo no dia a dia.

A variedade de ações desenvolvidas depende diretamente dos interesses pessoais de cada colaborador. Tem gente apaixonada por trabalhar com jovens, outros mirando aposentadoria e há, até, um programa voltado para o EUpreendendorismo na maternidade.

Outro grande trabalho da rede, atualmente, é o projeto Ser Eletivo, de desenvolvimento humano, que foge do modelo de processo seletivo tradicional ainda usado pela maioria das empresas, mas obsoleto. “Esse modelo de inscrição, provas, dinâmicas e entrevistas foi útil por muitos anos, mas queremos ajudar o indivíduo a se eleger, porque hoje vemos as pessoas ganhando autonomia para decidir se querem ou não trabalhar naquela empresa. Essa relação tem se transformado, então temos de acompanhar isso”, diz Eduardo.

Para alcançar seu maior objetivo, de democratizar o autoconhecimento e aplicá-lo ao dia a dia, com metodologias e abordagens diferentes, é essencial que a Rede Ubuntu mantenha seu espírito inovador, o mesmo que inspirou o fundador a vencer o medo do incerto.

“O processo de empreender é eterno, então apesar de termos conquistado muito, tem uma coisa de olhar para a frente e enxergar as oportunidades que ainda existem”

Neste último ano, ele diz ter tido sinais claros de que o negócio está indo na direção certa. “Olhando para trás, vejo como as coisas aconteceram organicamente. Quando você tem um objetivo como esse, pessoas começam a te ajudar”, diz. Em seis anos, o propósito de um virou o de muitos. E nada mais ubuntu do que isso.

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Rebe Ubuntu
  • O que faz: Desenvolve projetos de desenvolvimento humano
  • Sócio(s): Eduardo Seidenthal (fundador) e 20 membros da rede
  • Funcionários: não há
  • Sede: não há sede, mas a Ubuntu atua em São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Florianópolis
  • Início das atividades: junho de 2009
  • Investimento inicial: aproximadamente R$ 3.000
  • Faturamento: R$ 1,5 milhão
  • Contato: [email protected]
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