Guia prático para encerrar (bem) uma sociedade

Galileo Giglio - 4 ago 2015Galileo Giglio, do Estúdio MOL: "Hoje você tem um sócio, amanhã é bem possível que vocês não estejam mais juntos. Só que isso não precisa ser ruim".
Galileo Giglio, do Estúdio MOL: "Hoje você tem um sócio, amanhã é bem possível que vocês não estejam mais juntos. Só que isso não precisa ser ruim". (Foto: Dani Toviansky)
Galileo Giglio - 4 ago 2015
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por Galileo Giglio

 

Não é porque você e aquele cara com quem você dividiu tantos sonhos não querem mais trabalhar juntos que vocês precisam terminar com a sociedade detestando um ao outro.

Recentemente, dois amigos com empresas pequenas passaram por uma separação com seus respectivos sócios e vieram conversar comigo. No começo, não vi como ajudar. Com pouco tempo de conversa, me dei conta de que talvez pudesse dizer duas ou três coisas sobre o assunto.

Já entrei e saí de seis empresas – seis sociedades diferentes. Algumas eram pequenas variações de negócios existentes, outras eram empreitadas totalmente novas. Algumas foram muito bem, outras não deram certo. Em doze anos empresariando, já passei por vários contratos, CNPJs, razões sociais e nomes fantasia.

Em 2003, com 23 anos, no terceiro ano da faculdade de Arquitetura da USP, fundei o Estúdio MOL com um amigo e um terceiro sócio, que também virou amigo. Hoje eles não são mais meus sócios, mas ainda são meus amigos.

Em 2006, em nosso terceiro ano de operação, criamos uma versão da empresa só para animações 3D, com um quarto sócio. A empreitada durou nove meses. Fizemos projetos legais, mas a sinergia não rolou. Em seguida percebemos que podíamos fazer animação de todos os tipos (e também vídeos) dentro do próprio Estúdio MOL, sem novos sócios naquele momento.

Fomos aprendendo e empreendendo. Continuamos criando novas frentes. Em 2007 fundamos a Editora MOL. Com ela, percebemos que os três sócios tinham afinidades distintas e visões de futuro diferentes – às vezes é dando um passo adiante é que você vê que a perna ficou curta.

Criamos uma holding em 2008 para abarcar as duas empresas, Estúdio MOL e Editora MOL, que passaram a ter administrações separadas: fiquei com o sócio amigo (mais antigo) no Estúdio MOL e meu outro sócio (que virou amigo) trouxe uma nova sócia para tocar com ele a Editora MOL.

Em 2009 desfizemos a holding e separamos por completo o Estúdio MOL e a Editora MOL. O único elo remanescente entre as empresas, além da história e dos laços de amizade, era o nome MOL.

Logo depois, o sócio que tinha ficado comigo no Estúdio MOL quis sair e começar um novo negócio. Essa talvez tenha sido minha separação mais delicada. Ela ocorreu junto com um momento de pouco trabalho e de desorganização da empresa – vivíamos a ressaca imediata da crise mundial financeira de 2008. Na paralela, meu primeiro filho tinha acabado de nascer.

Foram tempos conturbados. Tive que lidar, ao mesmo tempo, com a separação da sociedade, a reestruturação dos negócios e trocas de fralda de madrugada. Conseguimos separar de modo equilibrado os bens da empresa e as responsabilidades legais, operacionais e financeiras pelo que ainda ficara pendente da época em que estávamos juntos.

Recomecei o Estúdio MOL… só que não. Sobrevivi – porque em empresa que já existe você não recomeça: você segue ou desliga. Houve ativos que sobreviveram à separação, como a reputação da empresa, como o relacionamento com clientes, como a integridade dos colaboradores, que são itens essenciais – e que muitas vezes morrem, ou sofrem muito, numa dissolução de sociedade.

Com tudo normalizado, e com o novo posicionamento do Estúdio MOL estabelecido – viramos uma produtora de vídeo e animação –, novos anseios surgiram.

Em 2010, conheci dois novos amigos que trabalhavam no mercado financeiro. Em 2011 nos unimos para criar uma startup de cursos online e vídeos sobre finanças. Durou pouco. Cada um de nós ainda tinha a sua empresa “principal”, e não demos conta de alavancar essa nova iniciativa em paralelo.

Continuei focando no MOL e em 2013 tomei um passo importante ao me mudar para um lugar maior e em reinvestir em todas as áreas do negócio, desde infraestrutura tecnológica até novos talentos para a equipe. Está dando certo.

Dessas experiências todas de, desde muito jovem, começar e terminar casamentos empresariais, diria que as chaves para encerrar bem uma sociedade são:

1. Bom senso
2. Intuição
3. Paciência
4. Equilíbrio
5. Força de vontade

Empresas nascem e morrem. Às vezes continuam sem os sócios fundadores. Às vezes alguns sócios saem, outros ficam, outros entram. Empresas são vendidas, se fundem com outras. Às vezes são divididas em duas ou três outras empresas.

O importante, independente do tamanho das empresas envolvidas, é tentar passar por tudo isso da forma mais tranquila possível. Sem sofrer (muito). Sem provocar (muito) sofrimento. Nem sempre é possível. E nunca é fácil. Mas fazer amigos – e manter amigos – é sempre legal. Brigar e desfazer relações é sempre ruim. É assim fora do mundo dos negócios. E é assim dentro dele também.

Em grandes empresas, há uma série de anteparos que podem proteger os sócios das intempéries nesse processo de se tornarem ex-sócios. Em empresas de pequeno porte, no mundo das startups, não há muita mediação. Os sócios têm que conversar e se entender. Têm que procurar transformar os desentendimentos em acordos o mais justos e equilibrados possíveis. Porque o mundo é pequeno e gira. E amigos que um dia viraram sócios precisam tentar deixar de ser sócios e se manter amigos. Ou, ao menos, não se tornar desafetos.

Nada é pior do que riscar um cara que você quer bem do mapa só que porque vocês decidiram não trabalhar mais juntos. Infelizmente, isso é a coisa mais comum de se ver por aí.

A seguir, compartilho com muita humildade algumas coisas que aprendi ao longo do caminho – ganhando e perdendo amigos, abrindo e fechando empresas, fazendo e me desfazendo de sócios.

1. Volte no tempo
Veja o contrato social e o acordo que você assinou quando estava tudo bem. É a partir daí que você guiará as discussões e negociações de saída de um sócio. É o jeito mais sensato de abordar o assunto – o que vocês combinaram lá atrás?

2. Olhe para o futuro
Entenda aonde você quer chegar, e aonde seus sócios querem chegar. Isso ajuda a deixar claras as intenções de cada um. A divisão de patrimônio e de responsabilidades fica mais fácil. Exemplo: se o seu sócio quer morar na Austrália, é provável que ele não seja capaz de arcar com os compromissos criados antes da saída dele. Ele não vai conseguir fazer tudo que é de responsabilidade dele e isso vai sobrar pra você. A divisão da sociedade (que inclui o que é bom e o que é ruim), já precisa ser reequilibrada de outra forma. Renegociem a divisão dos bens, ou se você precisar colocar uma pessoa no lugar dele para finalizar o que ele estava responsável, desconte esse valor da distribuição de bens que vocês terão de fazer.

3. Quebre o problema
Separar os bens patrimoniais é uma coisa, comprar as ações de um sócio é outra, lavar a roupa suja é uma terceira coisa – e assim por diante. Quebre o problemão da saída de um sócio em problemas menores. Identifique os pontos de atrito e separe eles do resto, como, por exemplo, quem vai ficar com aquele capacete do Darth Vader que vocês compraram para o escritório.

4. Respeite a sua intuição e lute por você
É natural você se questionar sobre a sua própria capacidade de continuar tocando a empresa ou se o seu posicionamento de marca está correto. E opiniões de fora podem ajudar a que você se questione ainda mais. Então é preciso saber a hora de fechar o olho, respirar fundo e seguir a sua própria intuição. Abra espaço para ela em sua vida. Se você estiver se sentido prejudicado, provavelmente tem coisa aí. Não guarde dentro de você aquilo que você sente que deve resolver hoje. Lute por você e pelo que é seu (e aceite que seu sócio faça o mesmo por ele).

5. Não tome atitudes impulsivas
Lembre-se de que uma separação é um momento delicado e turbulento, e com isso evite atitudes intempestivas, das quais pode se receber depois. Se impulsividade fizer parte da sua personalidade, ao menos evite a tendência autodestrutiva de jogar tudo para o alto só porque você está de saco cheio. Se você ainda estiver negociando a saída de um sócio, é provável que esteja cansado, de cabeça quente, com raiva, triste – ou até incrivelmente aliviado. Tomar uma decisão impulsiva nesse momento não será o mesmo que fazer isso enquanto você está bem, com tudo no lugar certo em sua vida. Então respire, pense duas vezes.

6. Definições prévias ajudam a separar melhor
Qual é o contexto da dissolução da sociedade? Quem está saindo e por quê? Quem fica? Há dinheiro a pagar ou a receber? Há possibilidade de vocês colaborarem em projetos futuros? O sócio que teve suas ações compradas precisará fazer um acordo de que não abrirá uma empresa no mesmo ramo por algum tempo – a famosa cláusula de não-competição? Definições como essas ajudam a separação a se basear no bom senso, e a decidir melhor quem ficará com o maldito capacete do Darth Vader!

7. Coloque a pessoa jurídica na mesa – não só as pessoas físicas
As discussões na separação podem desenterrar assuntos pessoais, mas os interesses e as responsabilidades da empresa que está sendo comprada ou vendida transcendem essas questões. Ver as coisas pelo prisma da empresa ajuda a colocar uma referência na discussão, sem ficar caindo na armadilha das questões pessoais.

8. Foque no essencial
A saída de um sócio pode ser um momento conturbado, em que a empresa passe por restruturações de equipe, espaço de trabalho, estratégia etc. Não gaste energia em coisas inúteis. Será que eu troco a minha cadeira? Será que eu faço aquela reforma? Tudo tem o seu tempo. Mesmo que essas questões aparentemente menores tenham aspectos simbólicos e emocionais importantes. Deixe para depois. Foque em resolver bem a saída de quem estiver saindo e em manter os compromissos da empresa em dia. Depois pense no resto. A saída de um sócio já é um ponto suficientemente desgastante – é difícil resolver bem isso e pensar em todas as outras coisas ao mesmo tempo.

9. Redescubra seu posicionamento sem afobação
Para quem fica na empresa pode parecer que o mundo inteiro está sabendo das discussões, dos problemas, das rusgas, mas não é verdade. Muitos boatos vão surgir, mas a maioria dos clientes não vai se preocupar com o que rolou até você explicar a eles. A sua imagem não é atualizada do dia para a noite. Boatos sobre a empresa ter sido fechada ou falida correm rápido entre as pessoas do mercado em que você atua, pois nada interessa mais do que o sofrimento alheio. Muitas vezes, no mercado, ninguém vai realmente ligar para a sua separação desde que a empresa continue operacional e eficiente.

10. O show deve continuar
Você é o sócio que vai seguir com a empresa? Parabéns! Mas você ainda não tem certeza se seguir sozinho com a empreitada é o que você quer fazer da vida? Não precisa decidir tudo de uma vez! Se não há nenhum problema grave, aproveite para manter tudo funcionando e depois, com mais calma, opere as mudanças necessárias, ou decida sobre novos caminhos. Os dias e meses após a separação serão como uma montanha russa de emoções e novidades. Um dia você está bem, noutro, chateado… Na semana seguinte pinta um trabalho novo, você fica empolgado. Depois de um mês você entrega o trabalho é elogiado, fica feliz. No outro dia de manhã alguém lhe conta que seu ex-sócio está indo superbem – e que um cliente seu vai lhe deixar em nome de trabalhar com ele. Você fica mal de novo. Volte três linhas acima e exercite variações sobre esse tema. Depois de um tempo você estará bem de novo, e vai ficar feliz ao ver que os sócios de outra empresa estão se separando também. Porque isso é da vida e você percebe que não aconteceu só com você.

11. Resolva bem a vida bancária da empresa
Não se esqueça do banco! Você e seu futuro ex-sócio estão de acordo, mas postergaram a saída de um dos sócios da conta bancária. Talvez parte do que o sócio irá receber fosse calculada sobre o dinheiro em caixa. Em paralelo os pagamentos vão sendo feitos, recebimentos se atrasam e de repente tudo que vocês combinaram vai por água abaixo e alguém sai prejudicado. É uma situação delicada que vai precisar da compreensão de ambos os lados, mas que pode ser evitada. Encarne o contador dentro de você, e dê atenção máxima atenção às coisas de banco.

12. Tranquilidade na transição
Enquanto você está no olho do furacão, tudo pode parecer eterno e a sensação ruim da separação pode lhe corroer. Bem, isso não tem como ser instantâneo. É um processo. Mas também não dura para sempre. Uma hora passa e a vida segue. Claro, não deixe nada para depois, seja ágil. Mas entenda, por outro lado, que existem etapas e conversas que dificilmente se resolverão numa tarde.

13. O mundo dá voltas
Mesmo com tudo resolvido, você ainda ficou com uma sensação ruim, de ter ficado com a parte menor do filé? Para evitar que isso lhe corroa por dentro, é importante ter bom senso, transparência e honestidade de ambos os lados. (Que lindo! Fácil falar, né?) Independente dos termos da separação, é importante que ela espelhe o que cada um fez (e faz) pela empresa. Você sempre colherá o que plantou. Se isso for bem feito, o tempo vai passar e quando você menos esperar, um dia encontrará seu ex-sócio num casamento e terão ainda condição de dar boas risadas. Essa paz de espírito não tem preço. E mesmo que tenha algum preço, se não for caro demais, vale a pena pagar.

14. Contrate um advogado
Não gostou desse artigo? Essas dicas não serviram para nada? Se você estiver com uma pulga (ou um elefante) atrás da orelha, não hesite em falar com um advogado. Tem coisas que só um advogado faz por você. Fale também com seu parceiro ou parceira, com seus pais, amigos, com um mentor, se tiver um. A vida de empreendedor não precisa ser solitária sempre. Separe-se da melhor forma possível e siga em frente!

 

Galileo Giglio, 35, é sócio-diretor do Estúdio MOL.

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