“Por que larguei o meu escritório de advocacia para empreender criando praças com brinquedos de madeira reflorestada”

Daniela Kolb - 5 mar 2021
Daniela e os filhos em um dos parquinhos da Eba! Playgrounds.
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Esta é uma história de uma empreendedora brasileira. E, portanto, carregada de desafios, tombos, frustrações e esperança. 

Esta é uma história de uma mãe. E, portanto, carregada de culpas, esperança e amor.

Esta é a história de uma mulher. E, portanto, carregada de preconceitos, sobrecarga, esperança e amor.

Vou falar aqui, porque sou pisciana com ascendente em Áries e a esperança e o amor prevalecem sempre dentro mim (por enquanto, ao menos).

O resumo da história é: advogada, mãe de dois meninos (hoje são três), abandona o escritório de advocacia bem sucedido que fundou em troca da ideia de criar pracinhas criativas e inclusivas feitas com madeira reflorestada (hoje, a Eba! Playgrounds).

UM RETIRO ME DEU O ESTALO PARA EMPREENDER A EBA!

A Eba! nasceu em um milésimo de segundo, numa ideia repentina que me veio à mente com clareza só porque eu havia saído de um retiro espiritual no dia anterior.

Não faça besteira com suas loucuras; faça loucura com suas besteiras”, eu havia lido meses antes. Aquilo me encorajou. 

Nesse dia, minha mãe me ligou e perguntou: “Como foi o retiro, filha?” E eu: “Mãe, queimei meu escritório e o desejo de ser advogada”.

E ela assustada: “Mas e agora? O que tu vais fazer?” Nesse milésimo de segundo após a pergunta, surgiu a ideia e eu respondi: “Vou fazer pracinhas que educam crianças!” 

Mas, olhando para trás, a Eba! já tinha nascido há algum tempo dentro de mim. Eu que não estava pronta para enxergá-la desta forma. 

UMA EMPRESA COM “AVÓS”, “AFILHADO” E  “NETOS”

A Eba! tem uma “avó”: minha mãe, aluna da primeira turma de formados em Terapia Ocupacional em Porto Alegre.

Desde que eu era pequena, minha mãe me mandava rasgar revistas, gritar no travesseiro em momentos de raiva… Ela me ensinou que brincar, gritar e pular às vezes é a melhor terapia. Obrigada, mãe!

A Eba! também tem um “avô”, meu pai, que costumava me contar o seguinte: para ele, meu “nascimento” foi numa praça, quando eu tinha 2 anos e meio e pedi para ir no trepa trepa (longa história… Veja no Insta da Eba!, se quiser saber mais!).

A Eba! também tem um “afilhado” — um menino lindo das minhas relações que já teve diagnóstico de espectro autista e que me alertou que às vezes enfiar a mão num pote de arroz para ter uma experiência sensorial pode ser algo que mudará a vida para sempre.

Por fim, a Eba! tem “netos”: meus filhos, que me provaram que telas fazem sim mal às crianças. Que elas, as crianças, não precisam de brinquedos — e sim de brincar. Que não precisam de presentes, e sim de presença. Que a natureza salva. E que só as crianças, são a nossa esperança de um mundo melhor — para nós e para elas.

Então, depois do retiro e com olhar mais atento, percebi que a motivação eu já tinha:

Acredito que brincar em praças bem projetadas e inclusivas muda a vida das crianças, ajuda elas a formar laços e memórias afetivas “impagáveis” e a resgatá-las dos perigos da ansiedade, depressão e obesidade da vida moderna, gerando mais cidadania e inclusão

Meu Deus! Quanto propósito tem a Eba! Vou em frente!

QUANDO AS COISAS PARECEM IMPOSSÍVEIS, PODEM SER MESMO!

Parecia simples: me inspirar nas centenas de praças que já visitei pelo mundo e que me encantaram; pesquisar no Pinterest e em sites referências; contratar um arquiteto que veja essas minhas referências (e leia mentes), e projetar.

Um dos playgrounds construídos pela Eba!

Depois, contratar um engenheiro para revisar segurança e ajudar a projetar; encontrar um bom fornecedor parceiro que trabalhe com madeira natural e que compre minha ideia.

Em seguida, encontrar bons fornecedores parceiros para demais peças, embalar de forma linda e criativa os produtos, fazer um site com fotos e vídeos incríveis, manuais de instalação, investir em marketing digital e offline, calcular o custo, colocar uma margem de lucro justa e compatível com o mercado, vender adoidado os produtos para que as pessoas contratem seus arquitetos e façam o que quiserem com os produtos da Eba!, sem que eu precise me envolver em projetos, pois afinal de contas sou advogada, não arquiteta.

Ufa, incrível como sou planejada! E por que será que tão pouquíssimas pessoas tiveram essa ideia, me perguntava. Santa ingenuidade…

Na minha casa tinha uma frase num quadrinho na cozinha que eu sempre amei, escolhida pelo meu pai: “Não sabendo que era impossível, ela foi lá e fez”. Adoro até hoje, especialmente por ela estar no feminino. Sempre pareceu que tinha sido escrita só para mim.

TODO MUNDO GOSTAVA DA IDEIA… MAS NINGUÉM TOPAVA SEGUIR EM FRENTE

E quando eu me dei conta que fazer a Eba! era impossível, eu achei que era só fazer… Maldito quadro! Ou bendito?

Em todas as etapas eu tive problemas. TO-DAS. Para iniciar, levei meses ouvindo de arquitetos que era coisa de engenheiro de produto, ouvindo de engenheiros de produto que era coisa de designer e ouvindo de designers que era tarefa para arquiteto… Ou seja, ninguém assumia comigo, de forma integral, a parte de desenvolvimento dos produtos

Depois de montar a equipe e fazer os primeiros projetos, mais da metade dos produtos se revelaram inviáveis — ou porque não eram pagáveis ou porque não existiam fornecedores que atendessem à demanda em pequena escala.

Os fornecedores diziam: “Uau, que ideia legal! Incrível! Segue em frente, não desista que tem mercado! Mas obrigado, não temos interesse.”

Mas eu já tinha chegado até ali, e os projetos estavam incríveis. Fui indo…

QUEM INVESTIRIA EM PRAÇAS NA PANDEMIA?

Não desisti e consegui alguns fornecedores, quase todos com o mesmo perfil sonhador que o meu. Tudo tão lindo e inspirador! Menos o acabamento dos produtos… Meu paaaaaiiii, o que fui inventar???

Uma hora, o dinheiro acabou… Mas cheguei até aqui, já investi tudo que tinha… Desistir agora??? Falta pouco, vai dar.

E aí veio a Covid… Me perguntei: quem vai investir em praças em plena pandemia? Mas, ao mesmo tempo, eu acreditava que meu projeto seria mais importante ainda para as crianças — e os pais — não surtarem presas em apartamentos…

Praças serão valorizadas, tenho certeza. Então, resolvi fazer um empréstimo e seguir adiante.

SONHO VERSUS REALIDADE: COMO LIDAR COM O QUE TEM PARA HOJE

Ah! E as embalagens lindas e criativas? Ficam para 2022. Em 2020 (e provavelmente 2021 também), só bobina de papelão amassada enrolando os produtos e muito durex mesmo. Atualmente não existem fornecedores de caixas que aceitem pequenos volumes de compra como a minha demanda.

Ah! E os clientes? O mesmo cliente que me parabenizava pelo projeto, encantado e emocionado, que parabeniza minha criatividade, coragem etc., me ligava 15 dias depois para me xingar por ‘n’ motivos, legítimos ou não…

O sonho é uma fábrica igual à do Papai Noel: tudo limpo, lindo, organizado, que entregue, no Dia do Natal, produtos criativos, bem acabados e que deixem as crianças felizes… A realidade é uma marcenaria com excesso de pó de madeira e crianças aprendendo a lidar com a frustração porque a transportadora atrasou e o presente não vai chegar a tempo

Tudo é aprendizado na vida, penso eu. 

MESMO COM AS DIFICULDADES, CONTINUO A CELEBRAR CADA ENTREGA

E aí eu me pergunto… Eu quero fazer pracinhas para estimular a convivência entre pais e filhos — mas a Eba! é o maior motivo de eu ter menos tempo com os meus próprios filhos.

Realidade cruel. Nessas horas, a vontade de desistir vem como um furacão… Terapia: tem na veia?

Me concentro no meu sankalpa na yoga: harmonia familiar, equilíbrio e sucesso pessoal e profissional. É o que estou buscando. Eterna busca.

Uma coisa é certa: mesmo com as dificuldades enfrentadas até aqui, a Eba! é um projeto lindo, que tem fãs por diferentes cantos do Brasil e do mundo

A Eba! é de uma mulher, mãe, empreendedora, pisciana com ascendente em Áries que não sabe o que é desistir

Vai enfrentar as adversidades que surgirem sempre, celebrar cada brinquedo pronto, cada praça instalada, mirando em um futuro próximo, onde todas as crianças tenham acesso a pracinhas incríveis, desafiadoras — e inclusivas de verdade.

 

Daniela Kolb é gaúcha de Porto Alegre. Advogada, decidiu mudar radicalmente de vida em 2018 e se mudou para a Praia do Rosa, em Santa Catarina. Em 2020, fundou a Eba! Playgrounds, movida pela percepção dos impactos positivos que a liberdade e o contato com a natureza trazem para a evolução das crianças.

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