Verbete Draft: o que é Pensamento Sistêmico

Gisela Blanco - 6 maio 2015 A ideia de que tudo está interligado é fácil de compreender: difícil é aplicar isso à uma empresa.
A ideia de que tudo está interligado é fácil de compreender: difícil é aplicar isso à uma empresa.
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Gisela Blanco, que assina este texto, é jornalista mestre em Business Innovation pela University of London.

Continuamos a série que explica as principais palavras do vocabulário dos empreendedores da nova economia. São termos e expressões que você precisa saber: seja para conhecer as novas ferramentas que vão impulsionar seus negócios ou para te ajudar a falar a mesma língua de mentores e investidores. O verbete de hoje é…

 

PENSAMENTO SISTÊMICO

O que acham que é: Algo relacionado a sistemas.

O que realmente é: É a ideia de que todas as coisas que fazem parte de um sistema estão relacionadas e influenciam umas às outras. Lembra daquela história de que o bater das asas de uma borboleta aqui no Brasil pode causar um tornado na Ásia? Essa visão de que tudo está interligado também é aplicada a organizações – empresas, ONGs, governos, escolas etc. Se um departamento de uma empresa não vai bem, pode afetar todos os outros.

Quem inventou: “Foi no Massachusetts Institute of Technology (MIT), na década de 1950, que a ideia começou a ganhar força e ser aplicada a várias áreas – dos estudos demográficos à administração de empresas”, diz Wilson Nobre, professor e membro do Fórum de Inovação da FGV. Pequisadores do MIT perceberam que poderiam levar a outras áreas uma ideia que vem da engenharia industrial: a de que quando se estabelece um sistema, ocorrem interrelações entre as partes que tornam o conjunto mais complexo do que se considerarmos as partes separadas”, afirma. Os pesquisadores viram, ainda, que poderiam desenvolver modelagens matemáticas para lidar melhor com esses sistemas. Mas vale lembrar que essa ideia não é nada nova. Mesmo antes dos cientistas começarem a aprofundar essa percepção no século 20, muitas religiões e filosofias já adotavam a visão sistêmica das coisas, exemplo do budismo e do holismo. Aristóteles, escreveu em Metafísica cerca em 360 A.C: “O todo é maior do que a simples soma de suas partes”.

Quando foi inventado: No final dos anos 1960, o Clube de Roma — formado por renomados empresários, cientistas, intelectuais, diplomatas e políticos —, preocupado então com o futuro do mundo, encomendou a pesquisadores do MIT um estudo sobre os limites e os efeitos do crescimento populacional na Terra. Liderado por Donella Meadows, o grupo de pesquisa usou o pensamento sistêmico para construir o relatório que deu origem ao livro The Limits to Growth, de 1972. “Foi quando começamos a entender que a Terra é um grande sistema e tudo está interligado. Todas as decisões políticas, o cuidado com recursos naturais, a pobreza, a quantidade de pessoas tendo filhos… Nada disso são fenômenos isolados. Cada um vai gerar um efeito no sistema inteiro”, afirma Wilson Nobre. A partir daí, ficaram claras também as ideias de consequências ambientais que foram base para a popularização da ecologia e da ideia de sustentabilidade. Deste grupo de pesquisadores do MIT também sairia outro grande marco: o livro A Quinta Disciplina, de Peter Senge, publicado em 1990, um daqueles clássicos de administração que hoje todo estudante precisa ler. Senge é importante porque aplicou o pensamento sistêmico às organizações (empresas, governos, escolas…). É também criador da Society for Organizational Learning (SoL), e se tornou um dos maiores especialistas em mudanças e aprimoramento em organizações.

Para que serve: Para compreender qualquer sistema complexo – do corpo humano ao governo de um país. E aprender a cuidar do sistema como um todo. “Costumamos dividir problemas para entendê-los melhor. Estudamos cada órgão separado, mas sabemos que o corpo humano, para estar saudável, precisa de todos eles funcionando juntos, em harmonia. Da mesma forma, uma empresa não pode investir só em tecnologia e esquecer o departamento comercial ou o de recursos humanos, por exemplo”, diz Nobre. Na mesma linha, não adianta fazer caixinha de sugestões e pedir críticas para os clientes se a empresa não tem formas de dar feedback. “É preciso converter ideias em prática, interligar as duas partes. Se uma ponta não funciona, isso afeta todo sistema”, afirma. Com essa visão sistêmica, fica mais fácil também encontrar pontos estratégicos em que uma intervenção pode ser mais eficaz. São os chamados “pontos de acupuntura”. Em Curitiba, o arquiteto Jaime Lerner usou essa estratégia na urbanização, por exemplo. Colocar uma biblioteca ou centro cultural em um local estratégico da cidade traz muito mais benefícios do que se ela fosse colocada em um lugar aleatório. Da mesma forma, cuidar de áreas estratégicas dentro de uma empresa pode influenciar positivamente todas as outras. O pensamento sistêmico é igualmente importante em momentos de mudanças dentro das empresas, o chamado change management. Peter Senger, autor de A Quinta Disciplina, afirma em seu livro que, para crescer e se manter cada vez mais eficiente, toda organização precisam incorporar cinco características: desenvolver sempre o domínio pessoal; criar modelos mentais que ajudem a enxergar onde se quer chegar; construir uma visão compartilhada, que una o grupo; aprender em equipe, com todos se ajudando; e finalmente desenvolver o pensamento sistêmico, que engloba todas as outras quatro características.

Quem usa: Quanto maior a empresa, mais atenta ela precisa ficar a todas as pontas do sistema. Este artigo mostra por exemplo como a Ford incorporou a cultura do pensamento sistêmico. No Brasil, a Natura também a adotou. “Dá para perceber o pensamento sistêmico inclusive no lema da companhia, o ‘Bem estar bem’, que é algo circular, que se conecta”, afirma Wilson Nobre. Para o professor, outro exemplo importante de bom uso de pensamento sistêmico pode ser visto nas startups — mesmo que muitas delas não saibam disso. “Em empresas pequenas, a necessidade faz com que todos os funcionários precisem estar com os pensamentos alinhados, que todos saibam e façam um pouco de tudo”, diz. O que, ainda segundo o professor, levou autores importantes a afirmarem que é melhor mesmo permanecer pequeno. É o que o economista britânico E. F. Schumacher afirma em seu livro Small is Beautifull: A Study of Economics as if People Mattered.

Efeitos colaterais: Na prática, muitas vezes não é fácil olhar para o sistema como um todo. “É difícil abandonar a fragmentação. Há uma tendência natural das empresas em separar os problemas e cuidar deles em partes. Isso pode ser mais fácil, dar mais segurança sobre o resultado que se vai obter”, afirma Nobre. Mas o pode parecer uma estratégia mais simples, mostra-se um tiro no pé. “No caso da crise hídrica que estamos vendo agora, o que aconteceu foi isso: várias pessoas cuidando de suas partes, usando a água como achavam que deveriam, sem se importar com o todo. Mas consequências um dia aparecem e são ruins para todos”, diz.

Quem é contra: Alguns críticos acusam o pensamento sistêmico de ser muito duro, de tratar pessoas e organizações como máquinas previsíveis. O professor Jay W. Forrester, um dos pesquisadores que faziam parte do grupo de pensamento sistêmico do MIT nos anos 1960 e que o aplicou em organizações durante décadas, escreveu um artigo em 2010 com críticas importantes à teoria. Segundo Forrester, o pensamento sistêmico virou um assunto importante, mas não pode ser aplicado a tudo, de qualquer forma. Ou corre o risco de virar mais um método superficial, inefetivo e com a tendência de chegar a conclusões contraprodutivas.

Para saber mais:
1) Leia A Quinta Disciplina, de Peter Senge e Thinking in Systems: a Primer, de Donella Meadows.
2) Faça este curso de introdução ao Pensamento Sistêmico na Open University.
3) Assista a esta animação, que explica o pensamento sistêmico.
4) Veja também esta palestra do consultor Marcelo Jabur.
5) Reveja, com outros olhos, longas como Avatar, de James Cameron e Jurassic Park, de Steven Spielberg. Eles mostram como tudo está conectado e como uma pequena alteração no sistema causa um grande estrago.

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