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Bruno Rondani tem um desafio: mudar a maneira como empreendemos e inovamos no país

Filipe Callil - 2 jun 2015 Bruno Rondani é um engenheiro, empreendedor e investidor: sempre com foco em Open Innovation.
A carreira de Bruno Rondani, engenheiro, empreendedor e investidor, sempre foi pautada em Open Innovation.
Filipe Callil - 2 jun 2015
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Antes mesmo de pôr os pés pela primeira vez na faculdade, o paulistano Bruno Rondani, 35, já tinha certeza do que gostaria de ser: empreendedor. Hoje, possui um currículo recheado com muito mais do que alguns diplomas acadêmicos e cases profissionais de sucesso. Preocupado com a evolução do ecossistema inteiro de empreendedorismo no Brasil, o executivo se dedica, há mais de 11 anos, ao desafio de desenvolver metodologias práticas que qualquer aventureiro – como ele – possa utilizar para inovar.

Assim que ingressou no curso de Engenharia Elétrica da Unicamp, não demorou muito para colocar os seus planos de carreira em prática. Primeiramente, se disponibilizou para participar da empresa júnior (aquele formato de instituição vinculado às universidades na qual os próprios alunos fazem a gestão de projetos). Em menos de três meses, o trabalho na entidade deu lugar ao primeiro negócio. “Juntamente com outros colegas de turma, abri um CNPJ para prestar serviços de engenharia dentro dos laboratórios da Unicamp. Não tínhamos nenhuma ideia em especial, apenas a vontade de testar nossas habilidades na construção de novos produtos”, conta.

Na metade da graduação, o empreendedorismo precisou ser deixado, temporariamente, de lado. Mas por um bom motivo: ele ganhou uma bolsa de estudos na Michigan State University, nos EUA, e partiu. A oportunidade abriu ainda mais fronteiras e, depois de um ano, o intercambista foi parar na França para estagiar em um dos departamentos de P&D (pesquisa e desenvolvimento) da Thales Group, uma das principais companhias do mundo em desenvolvimento de tecnologias aeroespaciais.

A experiência fora do país, somada ao bom networking que construíra por lá, aproximaram Bruno do empresário Luiz Henriques, fundador da Omnisys – até então, uma pequena empresa brasileira buscando excelência no desenvolvimento e fabricação de radares de tráfego aéreo. “O Luiz Henriques estava na França visitando os laboratórios de P&D da Thales e negociando a parceria que, anos depois, faria a empresa decolar. O fato de sermos brasileiros ajudou na conversa e ele me pediu para procurá-lo quando retornasse ao Brasil. Foi o que fiz”, lembra Bruno. Ao conhecer os projetos ambiciosos da Omnisys e o desafio de empreendê-los no Brasil, não teve dúvida de que era o lugar certo para trabalhar.

ELE NÃO TINHA PLANOS, MAS TINHA VONTADE

De volta ao Brasil e prestes a se formar engenheiro, ele tornou-se, em pouquíssimo tempo, membro da equipe-chave da Omnisys. “Apesar de ter sido contratado para participar do desenvolvimento técnico do produto, os desafios naquela época eram muito maiores e envolviam outras áreas da empresa. Acabei assumindo diversas demandas”, conta. Entre elas, a costura de parcerias industriais, a capacitação de equipes e a busca por investimentos em infraestrutura laboratorial. A polivalência adquirida abriria horizontes. Ou, mais especificamente, abriria a primeira empresa de Bruno, a Allagi Open Innovation Services.

Bruno Rondani e o sócio na Alligi, Rafael Levy.

Bruno Rondani e o sócio na Allagi, Rafael Levy.

Antes de falar a respeito da Allagi, o primeiro grande empreendimento fundado por Bruno, vale explicar o termo Inovação Aberta (Open Innovation, em inglês), no qual ele se fundamentou para criar a empresa. O conceito foi criado pelo estudioso norte-americano Henry Chesbrough e traduz alguns moldes de desenvolvimento de processos que possam aperfeiçoar um serviço ou produto com o uso de estratégias “abertas”, ou seja, envolvendo até mesmo os clientes.

Baseada nesses princípios, a Allagi nasceu, em 2004, dentro da incubadora da Unicamp. A startup surgiu no mercado como uma consultoria empresarial cujo objetivo principal era desenvolver tecnologias e metodologias para a construção de projetos colaborativos de inovação. “Eu e o meu sócio, Rafael Levy, conseguimos criar uma solução estratégica que atendia startups, multinacionais e até mesmo centros acadêmicos de pesquisa”, conta Bruno. Ele conta como, na prática, é preciso superar alguns medos para que as pessoas consigam trabalhar juntas para algo que seja maior do que as individualidades (um dos fundamentos do crowdsourcing).

“Somos induzidos a ter medo de dividir conhecimento, mas a verdade é que compartilhando informações, e até mesmo tecnologias, podemos aperfeiçoar todos os negócios. A inovação aberta propõe uma aceleração coletiva de desenvolvimento e captação de recursos”

Entre os principais serviços prestados pela Allagi destacavam-se a formação de consórcios e parcerias em P&D e a conexão com políticas públicas. “Curiosamente, nosso primeiro trabalho foi com a Omnisys, que nos contratou para desenhar processos no desenvolvimento dos radares meteorológicos e de trajetografia”, lembra ele. Ainda nos primeiros meses de atuação, outros grandes clientes surgiram como Telefonica, Vivo e Bradesco.

Daí para frente, a Allagi teve uma história de sucesso, tornando-se, inclusive, referência em Open Innovation no país. Só para se ter uma ideia, em 2008, a empresa contava como uma equipe de 30 consultores em inovação e uma capacidade de geração de caixa na casa dos milhões de reais. No entanto, havia ainda um descontentamento profissional. Bruno conta: “Acabamos nos especializando muito em consultorias e, nessa história, os esforços para desenvolver tecnologia ficaram de lado. Como o nosso DNA era de engenharia, nos sentíamos um pouco frustrados”.

Talvez fosse hora de mudar. Bruno acabou deixando a operação do negócio (ainda manteve-se como sócio) para se dedicar ao doutorado em Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo (FGV-SP). “Fui estudar justamente com o intuito de recomeçar o desenvolvimento de metodologias de trabalho na Allagi”, conta.

UMA TESE SE TRANSFORMA NUM PROPÓSITO, UM EMPREENDEDOR VIRA INVESTIDOR

Outra estratégia adotada por Bruno foi a de selar um acordo contratual com o próprio professor Chesbrough (pai das teses utilizadas) para que atuassem em conjunto. O resultado da parceria deu origem ao projeto Wenovate, uma organização sem fins lucrativos (e totalmente pautada no Open Innovation, claro) para fomentar o empreendedorismo no Brasil. Dentre os projetos já realizados está o prêmio Desafio Brasil da FGV, que se tornou um dos principais concursos de startup do país, e o Grand Prix Senai de Inovação.

Ele enxerga o cenário de novos negócios brasileiro de um ponto de vista privilegiado. No seu entender, o empreendedorismo tem crescido no país, mas ainda de forma isolada:

“Cada um cuida do seu próprio negócio e, em geral, não compartilha experiências e networking. Isso faz com que muitas ideias não se desenvolvam como poderiam. Precisamos criar um ecossistema que funcione como uma teia colaborativa, em que todos consigam encontrar sinergia com outras empresas e profissionais”

Na Wenovate, Bruno ministra um curso de Inovação em Rede. É quando os executivos que trabalham com inovação podem saber em detalhes como é aplicar os conceitos de Open Innovation a projetos realizados por grandes empresas — e que aprendizados se tira disso. Experiências como o concept car Fiat Mio, o Natura Campus e o Desafio Intel são cases usados em aula por Bruno.

Fiat Mio, o carro conceito criado com a participação de milhares de pessoas, é um dos cases de Open Innovation estudados por Bruno.

Fiat Mio, o carro conceito criado com a participação de milhares de pessoas, é um dos cases de Open Innovation estudados por Bruno.

É praticamente uma regra: muitos empreendedores bem-sucedidos acabam tornando-se também investidores. Com Bruno e Rafael não foi diferente. Além de participarem da criação do IVP, uma holding de investimentos coletivos que conta com a participação de vários empresários, eles começaram a buscar novas oportunidades de negócios com a Allagi. “Em 2009, criamos um fundo próprio com 5 milhões de reais e passamos a investir em startups relacionadas aos conceitos de Open Innovation. De lá para cá, foram 10 investimentos e alguns bons retornos financeiros”, afirma Bruno.

No começo deste ano, a Allagi decidiu se afastar dos trabalhos de consultoria para focar na gestão do portfólio de investimentos feitos pelos dois engenheiros. Enquanto isso, o Wenovate tem se dedicado aos programas 100 Open Startups, que todo ano conecta as 100 ideias mais promissoras do mercado, e à Open Innovation Week – que une pessoas, instituições e boas ideias para criar inovações em conjunto.

Bruno acredita que os modelos tradicionais de inovação estão ultrapassados e que o futuro depende desses novos formatos colaborativos. “Com os novos focos da Allagi e Wenovate pretendemos, finalmente, usar os 11 anos de experiência no desenvolvimento de metodologias abertas para a construção de um novo modelo de criação e investimento em startups. Ou melhor, Open Startups”.

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