Como funciona uma Wikipraça: um projeto que quer reinventar espaços públicos de forma colaborativa

Luana Dalmolin - 9 nov 2015
Bernardo Gutierrez, idealizado da Wikipraça, durante uma intervenção no Largo do Arouche, em São Paulo, este ano.
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Como seria uma praça que funcionasse como a Wikipédia? Como seria lido um espaço urbano no qual qualquer pessoa pudesse adicionar parágrafos e objetos? Como seria a gestão coletiva do seu conteúdo? Quem escreveria as normas? Que processos ativariam a inteligência coletiva?

Essas são algumas das perguntas que formaram o embrião do que viria a ser a Wikipraça, nascida no final de 2012, no largo de São Salvador, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Na ocasião, o jornalista madrilenho naturalizado brasileiro Bernardo Gutiérrez, 39, que é fundador da rede Futura Media, havia sido convidado para falar sobre as wikicidades, ou cidades colaborativas. A vontade de adaptar esse conceito para aquele microcosmo foi o ponto de partida. Assim, surgiu a primogênita, uma Wikipraça carioca, que continua viva até hoje graças a uma comunidade virtual que ganhou corpo ao longo do tempo.

Tá, mas afinal o que é uma Wikipraça? É um projeto aberto que prevê a participação de todos os atores de um território, todos mesmo — da senhora que passeia com seu cachorrinho no fim da tarde ao morador de rua —, com o objetivo de repensar e ressignificar aquele local, a partir não apenas das deficiências, mas também dos desejos e sonhos das pessoas. Nas palavras de seu idealizador:

“A Wikipraça é um espelho de desejos, um megafone para formular propostas”

Não se trata, portanto, de um projeto que tem por finalidade instalar estruturas físicas ou ideias acabadas, mas sim de um “método colaborativo e flexível que usa mecanismos e ferramentas analógicas e digitais para procurar respostas coletivamente”.

Utópico, né? Bem, a história da Wikipraça Arouche – #WikipraçaSP nos mostra o contrário: que sim, é possível. Em seis meses, de agosto de 2014 a fevereiro deste ano, o largo do Arouche em São Paulo experimentou, em caráter piloto, as metodologias propostas pelo projeto, todas devidamente registradas e com códigos abertos. As atividades contemplaram mapeamento do território, aulas públicas, hangouts, oficinas, intervenções artísticas, e muita mão na massa.

Registro de uma das muitas atividades artísticas que o projeto financiou no Arouche.

Registro de uma das muitas atividades artísticas que o projeto financiou no Arouche.

Por aqui, o projeto-piloto contou com o apoio e financiamento da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, da Prefeitura de São Paulo, que investiu 100 mil reais (montante líquido, fora os impostos). Desse total, 70% foi usado para pagar a equipe envolvida no projeto.

Dessa relação surgiram alguns aprendizados importantes, como conta Bernardo. “A nossa grande preocupação foi estabelecer uma relação horizontal. Ou seja, nada de ações pré-definidas, de cima para baixo. O Arouche tem uma presença forte da comunidade LGBT, mas isso não significa que eles são os únicos por ali. É um território bastante complexo e isso tinha que ser respeitado, desde o início.”

Apesar de não estar mais no território oficialmente, afinal a proposta é que a Wikipraça seja itinerante, ao passear hoje pelo Arouche dá para sacar algumas mudanças que foram conquistadas graças à passagem do projeto pelo local. Um exemplo disso é a WikiHorta, um espaço coletivo que nasceu do caldeirão de desejos da Wikipraça e que hoje funciona de forma independente, sem qualquer tipo de apoio do poder público. Júlia Álvarez, 29, moradora da região há cinco anos, é uma das principais entusiastas (e de certa forma uma liderança) da WikiHorta. Foi ela quem esboçou o primeiro projeto da horta, que foi discutido em assembleia no final do ano passado.

De lá até agora, a horta que foi construída basicamente com garimpo de material e doação de insumos e mudas, além de ter recebido um investimento pontual de 500 reais da Wikipraça, passou por altos e baixos e deixou algumas lições importantes, como conta Júlia: “A horta cumpre uma função social, que é a de aproximar as pessoas e promover a troca entre elas. A ideia é levar o seu quintal para fora, e isso causa estranhamento, essa ideia do bem comum. É uma missão que exige tempo e constância”.

A horta urbana, aqui batizada de "wikihorta" é um dos desdobramentos do projeto que permanece ativo, seis meses depois.

A horta urbana, aqui batizada de “wikihorta” é um dos desdobramentos do projeto que permanece ativo, seis meses depois.

Há uns seis meses a horta, que havia se transformado em um dos espaços mais agregadores do Largo, passou por um momento crítico. Para revitalizar o projeto e renovar as energias foi preciso uma nova onda de investidas por ali, a partir da articulação de pessoas e redes através das comunidades virtuais do Wikipraça e do boca a boca. Daí, um novo compromisso foi firmado: encontros semanais, que acontecem todos os sábados pela manhã, seja para a realização de uma oficina ou apenas para a manutenção da horta e limpeza do local.

Criar mecanismos de escuta para os desejos e demandas das pessoas. Este é um dos pilares centrais do projeto, uma espécie de divisor de águas que separa ações bem-sucedidas de iniciativas frustradas. “Escutar é abrir espaço para o que as pessoas daquele ecossistema querem. E nem sempre elas têm clareza sobre isso”, diz Gustavo Seraphim, 35, um dos coordenadores do Wikipraça. Bernardo complementa o pensamento ao afirmar que “não adianta chegar de fora com uma fórmula pronta. É preciso estar no território com os ouvidos atentos”.

DE OUVIDOS E CÓDIGOS ABERTOS SE FAZ UMA WIKIPRAÇA

No caso da experiência no Arouche foram testados alguns métodos híbridos de escuta, que contaram com o apoio de plataformas digitais e presenciais, como é o caso do Escutando o Arouche, uma série de assembleias realizadas às quartas-feiras. Parte das ideias e sugestões discutidas nesses encontros vieram de um documento digital aberto que foi construído coletivamente e deram sequência a conversas online em diferentes canais do projeto, como o perfil WikipraçaSP, grupo do Facebook, Twitter, Instagram, lista de e-mail e grupos de Whatsapp.

Paralelamente, os protagonistas do Arouche foram entrevistados para falar de sua relação com o lugar, o que deu origem à série de vídeos #VocêeoArouche. Neles foram registradas as vontades de gente como o DJ e militante LGBT André Pomba, que lançou a ideia de um coreto, o Roberto Mafra, da Banda do Fuxico, que gostaria de ver um largo cheio de plantas e árvores frutíferas, a comerciante Adriana Arcoíris com a sua demanda por uma iluminação melhor e o Armando, que é proprietário de uma das floriculturas da praça e gostaria que houvesse mais comunicação entre as pessoas.

Alguns desses anseios foram viabilizados, como a WikiHorta e um projeto de mobiliário, a WikiNamoradeira. A namoradeira do Arouche, por exemplo, surgiu da demanda por mais bancos na praça. O projeto, que foi todo feito de material de reuso, é formado por dez módulos de madeira, e foi executado graças ao apoio de parceiros como o Assalto Cultural e a Rematéria, que conduziram as oficinas ReABCdário Urbano para a construção do mobiliário. E a parte mais bacana dessa história é que qualquer pessoa pode fazer a sua própria namoradeira, a seu gosto, já que o projeto possui código aberto e licença livre.

UM NOVO MAPA PARA O AROUCHE

Partindo da concepção de que a representação de um território é mais complexa do que um mapa que segue uma lógica puramente geográfica, e do processo de escuta do território, a Wikipraça propôs um novo caminho cartográfico para o largo. “Uma cartografia afetiva, emocional, para achar espaços comuns para todos os públicos do Arouche.” Um mapa de afetos desenhado pelas memórias, percepções, sensações e significados que cada um dos atores confere ao território.

O mapa da Cartografia Afetiva do Arouche está online e foi construído a partir de contribuições de todos que quisessem apontar algo.

O mapa da Cartografia Afetiva do Arouche está online e foi construído a partir de contribuições de todos que quisessem apontar algo.

O mapa foi desenhado de forma colaborativa a partir de nove núcleos temáticos: Arte e Cultura, História e Memória, Símbolos e Ícones, Sentidos, Natureza, Uso do Espaço, Conflitos, Desejos e Conexões/ Interações/Diálogos. Cada categoria, representada por uma cor diferente, é preenchida com registros e memórias do Arouche e de seus moradores em formato de texto, vídeos e fotos. Gustavo explica que a cartografia afetiva é um processo vivo, em constante mudança: “Partimos de um mapeamento daquele ecossistema, seus movimentos e públicos, sua história e memórias. É um processo de resgate do território, a partir de uma nova perspectiva”.

UM PROJETO MOLDADO PARA SER REPLICADO MUNDO AFORA

A mesma metodologia foi levada pelo Wikipraça para outros territórios além do Arouche. Em Jundiaí, cidade do interior paulista, o projeto foi convidado para realizar duas ações e contribuir com o programa Urbanismo Caminhável. A primeira delas uma oficina de ferramentas digitais para articulação local, e a segunda ação, a Cartografia Colaborativa do centro histórico de Jundiaí e da Praça dos Andradas.

Outros projetos que atuam com protagonismo dos jovens também tiveram contato com as metodologias do Wikipraça, como o Jovens Promotores/as Legais Populares. A oficina de Cartografia Afetiva foi realizada em setembro deste ano no Ponto de Cultura Casa dos Meninos, em M Boi Mirim, na periferia de São Paulo. E a ideia é circular com o projeto garantindo que “o vírus da Wikipraça se espalhe pelo mundo”, como diz Gustavo.

Perder o controle. O que a princípio pode soar estranho passa a fazer todo o sentido quando se pensa numa metodologia que se propõe a ser aberta e coletiva, como é o caso da Wikipraça. A ideia é que qualquer cidade — do mundo — possa não apenas replicar, mas beber da fonte wiki para criar projetos que façam sentido localmente. Por isso mesmo, todos os códigos do projeto são abertos, inclusive o template do site.

A construção das namoradeiras foi uma das realizações coletivas e colaborativas da Wikipraça.

A construção das namoradeiras foi uma das realizações coletivas e colaborativas da Wikipraça.

Além do Rio de Janeiro e de São Paulo, a capital do Rio Grande do Sul também abraçou o projeto como possibilidade de mobilização urbana. Outras cidades fora do Brasil também tiveram contato com os métodos testados por aqui, como é o caso de Quito, no Equador, e Guadalajara, no México, Medellín, na Colômbia, e Milão, na Itália. Todas essas andanças viabilizam a troca de experiências entre ativistas, movimentos, redes, acadêmicos e poder público que permitem um enriquecimento ainda maior ao projeto.

Gustavo, um dos coordenadores do projeto no Arouche conta que tem aprendizados valiosos com as experiências por aqui para compartilhar. A questão do tempo é uma delas:

“Em seis meses de Arouche, podemos dizer que fizemos um mapeamento do território e que conseguimos nos aproximar das pessoas, mas não atingimos o nível de engajamento que gostaríamos”

Ele acredita que seria preciso mais tempo e mais recursos para isso. Outro ponto sensível e que dificultou a execução de algumas atividades, como os hangouts, foi a falta de uma estrutura que fornecesse internet livre de qualidade, a falta de tomadas e também um espaço que pudesse ser usado pra armazenar equipamentos, como um contêiner, por exemplo.

Atualmente, o projeto da Wikipraça SP faz parte das iniciativas do Laboratório da Cidade, que têm como objetivo compartilhar pesquisas e projetos para a capital paulista. Também segue em busca de outras formas de financiamento para expandir a sua atuação, incluindo a possibilidade de parcerias com o setor privado, desde que mantidas a autonomia e a essência do projeto, como conta Bernardo: “Um dos nossos objetivos é ajudar o poder público e as empresas a entenderem a participação cidadã. Queremos o envolvimento desses parceiros, numa relação horizontal e ética. A lógica de financiamento da velha publicidade, aquela que se restringe à aplicação do logo de uma marca, essa não nos interessa”.

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  • Projeto: Wikipraça
  • O que faz: Método de intervenção e mobilização urbana
  • Sócio(s): a rede Futura Media
  • Funcionários: não há
  • Sede: São Paulo (mas o metódo é replicável para qualquer lugar)
  • Início das atividades: 2012
  • Investimento inicial: R$ 100 mil (para o projeto no Largo do Arouche)
  • Faturamento: não há
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