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“Resgatar um animal era como apagar um incêndio com um balde d’água. O problema era muito maior, e eu precisei encarar essa verdade”

Juliana Camargo - 29 ago 2025
Juliana Camargo, fundadora e CEO do Instituto Ampara Animal.
Juliana Camargo - 29 ago 2025
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Se me contassem, há 15 anos, que minha vida mudaria completamente por causa de uma inquietação no peito e de um cachorro em perigo, talvez eu não acreditasse. 

Eu trabalhava com moda, comunicação e já tinha feito de tudo um pouco na televisão. 

Era um universo completamente diferente daquele em que estou hoje, à frente de um dos maiores institutos de proteção animal do Brasil. Mas é justamente esse contraste que dá força à minha história

Uma história que nasceu do amor, mas só se sustentou com estratégia, coragem e muito, muito aprendizado.

AO ESTUDAR GESTÃO NO TERCEIRO SETOR, ENCONTREI UM CENÁRIO QUE ME SURPREENDEU

Sempre amei os animais. Um amor que parecia suficiente para mudar o mundo. 

Eu e minha amiga Marcele Becker começamos a acolher cães e gatos por conta própria. Usávamos nossos recursos, abríamos nossas casas, dávamos nosso tempo. 

Parecia que estávamos fazendo a diferença. Mas, quanto mais nos envolvíamos, mais percebíamos que aquilo não bastava 

Resgatar um animal era como apagar um incêndio com um balde d’água. A cada um que a gente salvava, apareciam dezenas em situação igual ou pior. O problema era muito maior, e eu precisei encarar essa verdade.

Foi então que decidi mergulhar fundo e estudar o que realmente precisava ser feito. Entrei numa pós-graduação em Gestão do Terceiro Setor. E o que encontrei me surpreendeu: a proteção animal, apesar de essencial, era vista por muitos como um “hobby” ou um trabalho voluntário informal. 

Muitas pessoas dedicadas estavam sozinhas, exaustas e invisíveis, sem apoio ou estrutura. Aquilo me doeu – mas também me despertou.

O INSTITUTO NASCEU PARA TRANSFORMAR A PROTEÇÃO AMBIENTAL EM UMA CAUSA PROFISSIONAL

Foi da frustração que nasceu uma nova visão. Eu não queria mais apenas abrigar animais, queria construir uma rede. Uma rede que desse suporte real a quem já trabalhava na linha de frente, com recursos, apoio técnico e capacitação. 

Eu queria transformar a proteção animal em uma causa profissional, séria, reconhecida. E foi assim que, em 2010, nasceu o Instituto Ampara Animal. Uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) sem fins lucrativos que se tornaria uma das maiores referências no Brasil em proteção animal e conservação da biodiversidade. 

Hoje, o Instituto transforma a vida de mais de 1 milhão de animais por ano em todo o país. Desde a sua criação, mais de 24 mil animais domésticos foram encaminhados para adoção, 557 mil receberam tratamento médico e 262 mil foram vacinados 

Na área da fauna silvestre, mais de 700 animais já foram impactados. É um trabalho que vai muito além dos números — é sobre vida, cuidado e respeito.

CONVOQUEI PESSOAS QUE EU ADMIRAVA PARA CONSTRUIR ESSA REDE COMIGO

Para tirar esse sonho do papel, precisei dar um passo ainda maior: sair da minha zona de conforto. 

Eu vinha de uma cidade pequena, Alto Paraná, com 8 mil habitantes. Mudar para São Paulo foi um salto imenso e assustador, até. Tive que aprender a ser corajosa, a acreditar em mim mesma e a arriscar. 

Não foi sorte, não foi milagre. Foi vontade, disposição e a coragem de agarrar as portas que se abriram e seguir em frente, mesmo sem garantia de sucesso

Para construir essa rede, convoquei pessoas que admirava e que tinham habilidades complementares. Cassiana Garcia entrou trazendo a estrutura financeira que precisávamos, e Raquel Facuri apareceu quase por acaso, ou talvez por destino, para se tornar uma parceira essencial. Juntas, quatro mulheres com um propósito maior.

Nada foi fácil. Passamos por desafios enormes: da certificação como OSCIP, obtida em 2013, à missão de convencer empresas a enxergar a proteção animal como uma causa social séria. Passamos por inseguranças, cansaços, crises financeiras. 

Já pensei em desistir. Cometi erros, como confiar demais em que todos queriam o nosso sucesso. Mas cada queda me ensinou a me posicionar melhor, proteger minhas conquistas… E aprendi que a maturidade emocional é tão vital quanto a técnica

Em 2016, demos um passo ousado com a criação da Ampara Silvestre, para proteger a fauna nativa brasileira. 

Sabíamos que não bastava cuidar só de cães e gatos — a floresta também precisava da gente. E precisávamos aprender tudo de novo.

NOSSO SONHO É QUE UM DIA O TRABALHO DO INSTITUTO NÃO SEJA MAIS NECESSÁRIO

O Instituto Ampara Animal é hoje reconhecido nacionalmente como referência no manejo ético de cães e gatos e pela atuação na conservação e projetos de bem-estar das espécies silvestres ameaçadas. 

Entramos para a lista das 100 melhores ONGs do Brasil, com destaque na região Sudeste, e desde 2015 somos a maior organização de defesa animal do país.

Somos parceiras de marcas incríveis que abraçam nossa missão, que nos impulsiona todos os dias: defender os direitos dos animais, promovendo práticas que garantem a saúde única e uma convivência respeitosa entre humanos e fauna.

Olhando para trás, vejo uma trajetória que começou improvisada e cheia de paixão, mas que se sustentou pelo aprendizado, adaptação e profissionalização. O amor foi o ponto de partida, mas a estratégia foi o que nos manteve firmes

E olhando para o futuro? Ainda temos muito a fazer. Nosso sonho é que um dia não sejamos mais necessários, que a causa animal seja valorizada e reconhecida como parte essencial da justiça social. 

Até lá, seguimos aqui, aprendendo, errando, acertando, caindo e levantando sempre com coragem, técnica e, claro, muito amor.

 

Juliana Camargo, 43, é ativista, fundadora e CEO do Instituto Ampara Animal, uma das maiores e mais reconhecidas ONGs de proteção animal do Brasil.

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