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Eu cresci no quintal de casa, num pedacinho de Mata Atlântica que resiste no interior da Grande Florianópolis, em Santa Catarina. Desde pequena, eu corria atrás de passarinhos que batiam na janela, resgatava beija-flores desnorteados, improvisava ambulatórios dentro de casa.
Quando um deles morria nas minhas mãos, eu sentia uma culpa enorme. Eu tinha a sensação de que falhava numa missão que era minha.
Até os 12 anos, eu entendia que para salvar animais, eu precisava ser veterinária. Não existia outro caminho possível na minha cabeça de criança. Eu queria consertar o mundo começando pelos bichos
Eu e meus irmãos sempre estudamos em escola pública. Quando chegou a hora do ensino médio, escolhi estudar no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC).
Passei para o curso técnico integrado em Refrigeração e Climatização, uma área que tinha mais a ver com engenharia do que com qualquer coisa que voasse. Fui pela qualidade do ensino, não pelo amor à área.
Nessa fase, também trabalhei como menor aprendiz numa rede de supermercados. Lá, ganhava cerca de 200 reais.
Eu me sentia orgulhosa por receber um salário e comprar o meu material escolar. Mas ao mesmo tempo havia uma Ariane que se perguntava “essa é a minha história?”
No IFSC eu tentei de tudo: fui backing vocal de banda e descobri que não levo jeito para cantar, fiz dança-teatro para aprender a me comunicar, participei de feiras de ciência. Eu e minha equipe ganhamos um prêmio recriando uma picoleteira gigante que gelava picolés em cinco minutos.
Eu adorava ciências térmicas, química, história, projetos de todos os tipos… Mas, ironicamente, a biologia nunca tinha me “tocado”. Tive só um ano da disciplina no ensino médio. E eu ainda não sabia, mas isso, mais tarde, iria pesar.
Com toda a influência que eu tive no ensino médio, prestei vestibular para engenharia mecânica. Não passei. No ano seguinte, passei para engenharia florestal, mas teria que sair da cidade e, no fundo, eu sabia que ainda não era aquilo.
Eu já tinha contatos na engenharia, inclusive trabalhei na área depois de formada no técnico. Mas quando fechava os olhos e imaginava meu futuro, eu não me via projetando coisas
Foi no cursinho pré-vestibular que algo virou a chave. A biologia apareceu de forma lúdica e eu me apaixonei por aquilo. Entrei na graduação de Biologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015.
Os dois primeiros semestres foram um choque de realidade. Eu chegava às 7h e saía às 22h da universidade. Me sentia atrasada e insuficiente.
Me perguntava: “Por que eu preciso estudar biofísica e biologia celular se quero trabalhar com bicho?”. Eu ainda era imatura. Achava que poderia escolher só o que me encantava
No segundo semestre, desenvolvi um pavor de falar em público. Eu estudava, preparava o trabalho, mas na hora de apresentar, travava. Olhava para os professores e esquecia tudo.
Queria desistir, pois achava que a universidade não era para mim. Eu me sentia impostora, como se nunca fosse boa o suficiente para estar ali.
No primeiro período de férias da graduação, fui para um trabalho voluntário na serra catarinense. Lá, Marcela, Andrei e Raphael me entregaram um guia de aves e me ensinaram a identificar as espécies. Parece simples, mas foi um divisor de águas.
De repente, todas as aves deixaram de ser “passarinhos” e viraram sabiás, joões-tenenéns, cambacicas… cada uma com um comportamento e um papel no ambiente. E eu nunca mais olhei para elas da mesma forma
Comecei a entender que as disciplinas da biologia que eu resistia eram justamente as que me dariam ferramentas para tomar decisões sobre conservação.
Mais tarde, comecei a trabalhar com o Centro de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (CEMAVE), que faz parte do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Ali, encontrei mulheres que ocupavam espaços que eu nem sabia que podia ocupar. Uma delas, Camile Lugarini, foi essencial e virou minha mentora e amiga
Ela me mostrou que uma mulher pode ser firme, técnica, sensível e líder ao mesmo tempo. E a inspiração começou ali.
Me formei em 2021, em plena pandemia. Procurei emprego, mas as vagas exigiam mestrado e doutorado, que eu não tinha.
Tentei o mestrado em outra cidade, passei, mas como não consegui bolsa, tive que pedir o desligamento.
Voltei para casa com a sensação de fracasso. Fiz trabalhos de campos voluntários para não enlouquecer e não perder o vínculo com aquilo que me movia
Em 2022, recebi o convite para trabalhar em Curaçá, no interior da Bahia, em um projeto de reintrodução da ararinha-azul (uma espécie extinta na natureza).
Eu nunca tinha pisado na Caatinga. Aceitei com coragem, mas fui com medo: medo de não dar conta, de não me adaptar, de não ser respeitada.
Passei oito meses vivendo com uma mala de um lado para o outro. Eu era responsável por coordenar monitores locais, construir relação com a comunidade, entender um território completamente novo. Foi duro, mas eu aprendi!
Em 2023, fui contratada como consultora. Em 2024, me mudei de vez para o local de reintrodução. Me afastei da família e dos amigos, perdi aniversários, formaturas, nascimentos, enterros, momentos que não voltam. Vi o projeto enfraquecer por razões que iam além da minha vontade.
Pela primeira vez, o amor pelas aves não estava sendo suficiente para sustentar minha saúde mental. Eu acordava cansada antes mesmo de levantar. O “saquinho mágico” da esperança parecia estar no fim.
Demorei meses para aceitar o “luto”. Até que decidi olhar para frente e partir.
Em 2025, eu decidi levantar voo. Continuei na Caatinga, mas agora no Ceará, na Serra das Almas, atuando pela Associação Caatinga. Hoje trabalho com o desafio de repovoar, junto com parceiros, espécies aves que foram dizimadas no estado.
Atualmente, apoio o projeto de reintrodução do Periquito-cara-suja, fruto de uma parceria entre a Associação Caatinga, a Aquasis e o Parque Arvorar (Beach Park). Em breve, repovoaremos o Ceará com outros psitacídeos, começando pelas araras extintas no estado.
Eu já não sou mais a menina que acha que vai salvar todos os animais. Mas sei que conservação não é feita só de resultados. Ela é feita de planejamento, de recursos, de insistência — e, principalmente, de trabalho coletivo
Outro dia, conversando com um colega, percebi que sempre fui inspirada por mulheres fortes na minha trajetória profissional. Mas cheguei na Associação Caatinga por inspirações masculinas que me abriram as portas.
Parafraseando o meu colega Otávio: “Quem sabe agora não seja a hora de eu ser referência para meninas que vivem aqui no sertão, e que ainda não sabem que podem trabalhar com ciência?”.
Por isso, o meu sonho é deixar um legado para as aves da Caatinga e para as meninas que crescem achando que ciência não é lugar para elas. Se um dia alguma delas olhar para mim e pensar “se ela conseguiu, talvez eu também consiga”, então todas as travessias terão valido a pena.
Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Catarina, Ariane Ferreira, 30, tem experiência em conservação e reintrodução de espécies ameaçadas, atuando com conservação de aves na Caatinga há quatro anos. Seu trabalho inclui a participação no projeto de reintrodução da ararinha-azul, em colaboração com GEF Terrestre/FUNBIO, ICMBio e BlueSky. Atualmente, aplica sua expertise na Associação Caatinga, onde se dedica a estratégias eficazes para a conservação e o repovoamento de espécies ameaçadas desse bioma. É uma das 13 pesquisadoras que venceram o prêmio da UNESCO, MAB Young Scientists Award, destinado a jovens cientistas que receberam bolsas para projetos realizados em reservas da biosfera em todo o mundo.
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Elaine Asato trabalhava em uma multinacional, até que um dia começou a enfrentar problemas de visão. Ela conta como transformou esse desafio em superação e construiu uma nova carreira na área de desenvolvimento humano.
