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“Até o último suspiro, estejamos vivos, atentos, fortes e prontos para abrigar em nosso peito todos os afetos que se apresentem”

Igor Verde - 24 abr 2026 O roteirista, diretor e escritor Igor Verde.
O roteirista, diretor e escritor Igor Verde.
Igor Verde - 24 abr 2026
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Querido leitor, espero que você termine esta leitura mais potente do que quando a iniciou.

A vida é sofrimento. Essa frase me acompanha por muito tempo. Não é minha, é de Sidarta Gautama, o Buda. Mas o sofrimento é uma maneira tosca de traduzir uma verdade muito mais profunda: a vida é uma relação complexa de afetos passageiros, um fenômeno breve, não mais do que um instante.

E nós, humanos, nos entregamos à ilusão de que poderemos manter para sempre as nossas vidas, nossas conquistas, as relações com os humanos que amamos, até mesmo com aqueles que odiamos. Mas não, não podemos. E, por isso, sofremos.

A vida é sofrimento. Apesar de carregar em mim a sentença, eu nunca a incorporei como vivência.

A palavra tem dessas, ela se aloja como frase na mente, mas só desce ao coração quando se torna ação inominável. E foi um dia antes da morte de minha mãe que a frase “a vida é sofrimento” tombou em um estrondo, tal corpo em queda livre, no fundo do meu peito

Outubro, dia 28, ao som incessante de tiros eu tentava fazer minha mãe mover a perna. Ela reclamava de dor, tinha problemas crônicos de joelho, o fígado já não funcionava, resultado de décadas de excesso de álcool, mas ria e reclamava enquanto eu a encorajava a se levantar da cama mais uma vez.

Risos em meio aos tiros: este poderia ser o título de uma biografia de Maria Lúcia Maurício, minha mãe.

Mulher preta, sentiu como poucos o sofrimento que a vida é, mas não se furtava de rir, mesmo que para isso tivesse de expulsar a dentadura da boca de maneira involuntária, fazendo-a cair alguns metros de distância. Ocasião em que, mesmo desdentada, ela dobrava o riso, acumulando o fato primeiro da alegria com este segundo que lhe deixava com o sorriso banguela.

***

Terminada a disposição para os exercícios de Lucinha, ficaram apenas os tiros. Por duas horas, de maneira incessante, o som da guerra era presente. Quando tudo estava terminado restavam os corpos nas ruas. Mais de uma centena.

Minha mãe sempre teve medo que eu fosse um deles. Por vezes, me levava para ver um “presunto” que morrera a tiros por algum motivo qualquer.

Era a sua maneira de me educar, mostrar o futuro de quem se volta para o mundo do crime. “Mas esse não seria o futuro de todos?”, eu me perguntava

E, ao ver aqueles corpos que um dia foram pessoas que ela conheceu, crianças que ela alimentou na creche da comunidade, onde trabalhava como cozinheira, Maria Lúcia foi até um armário velho e caído da sala de onde sacou a minha primeira carteira nacional de habilitação.

Na foto, um eu que já não existe, vinte anos mais jovem, cabelo descolorido, um cria. Lembro do sorriso da velha para esse ser distante que nem sei onde habita mais aqui em mim. Havia orgulho no seu olhar e então ela repetiu uma mesma frase duas vezes: “Já era bonito, ainda bem que viveu para ficar mais lindo”.

Na televisão, uma multidão se aglomerava ao redor de dezenas de corpos irreconhecíveis graças ao grau de violência como foram assassinados. Poderia ser o filho de Lúcia. Não era.

Havia orgulho no seu olhar, não só de mim, ou de seus outros dois filhos. Mas orgulho próprio, orgulho de, apesar de todo sofrimento que a vida é, ainda tornar possível a existência de uma vida potente

Ela me entregou com pompa de ritual a carteira, segurando com duas mãos em formato de concha um pedaço de papel tão pequeno. Como reflexo que sou, recebi com a mesma pompa, até mesmo reclinei a cabeça um tanto para acolher a CNH vencida.

Como humanos que somos, criamos Deus em tudo, até em cédulas velhas. Criamos vida em tudo. Meu documento velho era tratado como uma criança recém-nascida, uma vida nova que veio ao mundo. Um novo ser que cria deuses. Naquele momento, todo o meu sistema terminou a tarefa de anos: incorporar, em meu ser, que a vida é sofrimento. Em meio a todo aquele sofrimento, eu vi a vida acontecer. Eu vi o parto de um novo eu.

Minha mãe deitou-se na cama, cansada. Não era para menos, dar vida às coisas a partir do sofrimento cansa mesmo. Eu a deixei um pouco distante de mim. Guardei a velha carteira, a observei pela última vez e sai à rua. Havia sangue pelo asfalto, cápsulas de bala e aumento da aprovação do Governador da época. Houve samba no dia seguinte, houve poesia, houve lamento, houve debate, houve até mesmo o Sol nascendo.

Mas Lúcia, minha mãe Lúcia, não houve mais.

***

Tal qual o personagem de Camus, não chorei no velório de minha mãe. Eu não sentia tristeza, nem revolta.

Ainda estava completamente maravilhado pela sua última lição, pela certeza que sofrer-viver-morrer são, ao fim e ao cabo, partes indissociáveis ou, melhor, são diferentes palavras para um único processo. E que isso era belo, isso me dava o poder de desfrutar a vida sem a ânsia de que ela seja sempre a mesma, sempre segura. Sem o nervoso de pensar no futuro, em como virá a ser, o que ocorrerá comigo, como será o fim.

O próprio fim deixou de existir; diante de mim só havia vida pulando de um momento para outro da existência

Esse era o motivo de eu não chorar, eu sabia, veja bem, não é que eu acreditava, eu sabia e ainda sei que ali não estava o fenômeno humano que fora minha mãe. Aquele fenômeno complexo havia se transformado, havia experienciado a vida, o sofrimento, a morte e, passado isso, deu origem a outros fenômenos como este, que sou eu, que é este texto que te atravessa. Que é esta descrição que te faço. Pela primeira vez eu olhava dentro de mim e não existia medo algum, de nada, só existia. Só e nada.

Renascido assim me encontrei no mundo tal qual o narrador do conto de Dostoiévski, “O sonho de um homem ridículo”. Tenho pra mim que o homem que ali narra a noite em que desistira do suicídio após adormecer de frente para o revólver com o qual se mataria seja, ele mesmo, o próprio Dostoiévski.

Como relatado, a revelação da verdade no sonho, fruto do sono que teve na noite em que seu destino estava selado, é de alguma forma a revelação que tive diante da minha CNH nas mãos de minha mãe. A mesma revelação teve Giambattista Marino, como personagem de Borges, no conto “Uma Rosa Amarela”.

Poderia dar muitos exemplos aqui, mas o que quero, meu caro leitor, é que note que esta não é uma revelação inédita e ainda menos rara. Pelo contrário.

A todo momento o mundo clama por revelar a verdade última da vida para nós que a vivemos. Mas a estas revelações fechamos nossos sentidos

Tal qual o homem ridículo do mestre russo, eu também busquei falar de tal experiência, inclusive, ele também a publicou. O próprio conto teve grande circulação no jornal do qual Dostoiévski era dono. E cheguei à mesma conclusão do narrador. Ao falar dessas coisas, somos dados como seres ridículos, deslocados, perturbadores do status quo social. Afinal, quem gosta de ouvir que a vida é sofrimento?

Mas ainda assim deve-se insistir em relatar, em narrar, em colocar no mundo a possibilidade de que, caso você esteja atento à vida, ao próprio sofrimento que ela é, aos afetos que ela lhe causa, caso a sugue por completo, até a última gota, em sua inteireza, sem nenhum julgamento se o sabor é bom ou mau, inevitavelmente a vida se tornará êxtase. Pois, com certeza, encontrará em algum lugar outros ridículos.

Mais do que isso, saberá que todos são ridículos em potencial, todos são como Giambattista Marino em seu leito de morte, prontos a verem na estante uma rosa amarela como Adán pudo verla en el paraíso y sintió que ella estaba en su eternidad y no en sus palabras, y que podemos mencionar o aludir, pero no expresar. Felizes o que realizam estas palavras do poeta argentino antes do último sopro sair de seus pulmões.

Então, leitor, talvez eu tenha te soado ridículo até aqui. É um risco que corro e sei bem disso.

Mas, ao mesmo tempo, talvez esse texto te provoque para desfrutar a vida, talvez ele lhe traga alguma reflexão ou, numa hipótese que muito me agrada, lhe faça perceber que a vida é breve, incerta, cheia de afetos e que, só por isso, vale a pena ser vivida

E que, sendo assim, dada tamanha incerteza, o que nos resta na nossa pequeneza humana é compreender que podemos até mencionar ou aludir sobre o que é vida. Mas nunca poderemos expressar a vida, apenas viver.

Até o último suspiro, estejamos vivos, atentos, fortes e prontos para abrigar em nosso peito todos os afetos que se apresentem.

 

 

Igor Verde é roteirista, diretor e escritor, nascido e criado no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Iniciou sua trajetória no audiovisual após ingressar em Comunicação Social pela PUC-RJ, como bolsista do Prouni, e participar de iniciativas como o Pontos de Cultura. Começou a carreira na TV Globo como assistente de direção, trabalhando em produções como “Cordel Encantado”, “Avenida Brasil”, “Malhação”, “Subúrbia” e “O Brado Retumbante”.

Ao longo dos anos, assinou direção e roteiro em projetos como “Zorra”, “Filhos da Pátria” e “Lazinho com Você”, além do documentário “Falas Negras”. No streaming, participou de produções como “Os Quatro da Candelária” (Netflix), “O Negociador” (Amazon Prime Video), “Cidade de Deus: A Luta Não Para” (Max), “Capoeiras” (Disney) e “Fúria” (Netflix). No cinema, é roteirista de “Ó Paí, Ó 2”, “Continente” e “Bicho Monstro”.

Também desenvolveu trabalhos autorais, como a série “Reencarne”, apresentada no Festival de Berlim. Em 2025, dirigiu a novela “Mania de Você” e atualmente integra a equipe de direção de “A Nobreza do Amor”. Além do audiovisual, é autor do livro “Viralizou”, finalista do Prêmio Jabuti 2023.

 

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