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Ela criou, ainda na faculdade, um aplicativo de comunicação alternativa para pessoas com dificuldade de se expressar de forma oral

Dani Rosolen - 26 maio 2026 Joyce Querubino, fundadora da LoriConecta.
Joyce Querubino, fundadora da LoriConecta.
Dani Rosolen - 26 maio 2026
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Depois de entregue, o trabalho de conclusão de curso da graduação, o famoso TCC, costuma ser engavetado e não se transforma em nada além de uma avaliação do período universitário.

Joyce Querubino, no entanto, buscou um caminho diferente quando estava cursando Ciências da Computação. 

“Não queria gastar anos da minha vida fazendo uma solução que não vingasse”

Por isso, ela passou um tempo buscando uma dor real e encontrou insumos em necessidades de sua própria família para desenvolver o LoriComunica, aplicativo de comunicação alternativa para pessoas que não conseguem se comunicar de forma oral e que hoje integra a sua startup, a LoriConecta.

O app foi desenvolvido desde a época em que era um projeto estudantil junto com a cofundadora Geisse Costa. Atualmente, a solução atende mais de 15 diagnósticos — sendo o principal o autismo –, tem cerca de 5 mil downloads e o trabalho de Joyce vem sendo reconhecido e premiado. 

A IDEIA DO LORICOMUNICA SURGIU AO ACOMPANHAR AS DIFICULDADES ENFRENTADAS PELA MÃE COMO TERAPEUTA OCUPACIONAL

No auge da pandemia, Joyce, hoje com 27 anos, conta que sua mãe, terapeuta ocupacional no Hospital Regional de São José dos Campos, cidade onde a empreendedora vive, compartilhou com a filha um desafio:

“Ela contou que estava difícil conseguir se comunicar com alguns pacientes com traqueostomia ou que haviam sido extubados e não conseguiam falar porque a garganta estava machucada”

Os profissionais de hospitais geralmente têm à disposição uma prancha de comunicação impressa e plastificada. Eles mostram cartão por cartão (desenho por desenho) para entender as necessidades dos pacientes, que podem responder o que desejam ou estão sentindo apontando ou com um gatilho, apertando a mão do profissional ou fechando os olhos, por exemplo. 

Mas há alguns poréns, segundo Joyce: dependência de um profissional, baixa escala de uso e dificuldade de aplicar o recurso em rotinas intensas do hospital, onde enfermeiros e demais profissionais podem dedicar pouco tempo a cada paciente.

Desses empecilhos surgiu a ideia de transformar a metodologia da prancha impressa em um aplicativo que pudesse ser usado também pelos familiares. E, no fim, esse se tornou o objetivo do TCC de Joyce.

A PERDA DA CAPACIDADE DE SE COMUNICAR DA AVÓ IMPULSIONOU O PROPÓSITO DO LORICOMUNICA

Joyce entregou o projeto da graduação em 2021 e manteve o aplicativo fechado, mas sendo usado por hospitais e usuários beta. 

“Demorei muito tempo para achar que o meu produto estava pronto o suficiente para o mercado. Hoje, sei que isso foi um erro e entendi que o MVP é justamente a versão mínima para funcionar”

Em 2022, ela resolveu postar um vídeo no LinkedIn apresentando a sua solução, então ainda muito focada no ambiente hospitalar e especificamente em pacientes pós-Covid.

Alguns colegas viram a publicação e comentaram que deveria me inscrever no Campus Mobile, uma competição da Poli-USP, em parceria com a Claro, para estudantes e recém-formados.” A premiação consistia em 10 mil reais e uma viagem para o Vale do Silício. “Vi uma oportunidade de transformar minha solução em algo comercial.”

Joyce com a avó, Anette Carvalho, que impulsionou a dedicação da neta ao aplicativo.

Na mesma época em que Joyce se inscreveu, sua avó, Anette Carvalho, sofreu um AVC e ficou impossibilitada de se comunicar. 

“Percebi que o meu app poderia ser usado por outras pessoas e em outros ambientes. Pesquisei mais sobre o assunto e descobri que existem mais de 18 diagnósticos no mundo, como autismo, câncer de garganta e paralisia cerebral, que poderiam se beneficiar da solução”

Dentro do Campus Mobile, ela começou a adaptar e melhorar seu app, que foi o ganhador do evento. Depois dessa experiência, Joyce inscreveu o projeto em outras competições e mentorias, até ser incubado no Parque Tecnológico de São José dos Campos, onde passou a desenvolver a solução como produto e conquistar clientes pagantes, a partir de 2025.

COMO FUNCIONA O LORICOMUNICA (E COMO O APP FOI INCREMENTADO A PARTIR DAS DEMANDAS DOS USUÁRIOS)

O aplicativo se baseia no conceito de Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA), que usa símbolos, gestos ou outros recursos não verbais para apoiar pessoas que não conseguem se comunicar pela fala. 

O app funciona com cartões visuais e leitura em voz pelo próprio sistema, além de oferecer personalização com fotos reais da rotina do paciente, criação de pranchas por temáticas (por exemplo: ambiente hospitalar, escola ou casa) e navegação por movimentos do rosto, como o ato de piscar. Esse último recurso foi pensado para pessoas com limitações motoras mais severas e foi ampliado a partir da demanda dos usuários.

Um caso emblemático é o de uma menina, Lavínia, que tem paralisia cerebral. Joyce conta: “Quando fui testar o recurso de seleção de cartão a partir do movimento de piscar com essa paciente, ela não fechava os olhos de jeito nenhum, porque queria ver o que estava acontecendo no aplicativo”. E complementa:

“Percebi, no entanto, que quando a mãe dela perguntava algo e a resposta era positiva, a Lavínia dava um sorrisinho. Em testes com outros pacientes infantis, aconteceu a mesma reação, então implementamos o movimento do sorriso”

Segundo Joyce, o LoriComunica se diferencia de concorrentes por não exigir hardwares caros ou tablets específicos (o app roda em celulares e dispositivos Android e iOS).

Outros pontos importantes são as funcionalidades premium, que tornam possível subir como cartão imagens diversas, inclusive fotos que mais se relacionam com o cotidiano do paciente, e permitem o compartilhamento do perfil — fazendo com que não só a família, mas a equipe médica e a escola acessem as pranchas do paciente, sem a necessidade de adquirir uma nova licença. 

Hoje, o LoriComunica aposta em um modelo de assinatura com versões gratuita e pagas (com planos a partir de R$ 19,90/mês), voltadas tanto para famílias quanto para clínicas. O app conta com cerca de 1 700 usuários ativos diários, além de ser utilizado em cinco clínicas de pequeno porte. 

UM RECONHECIMENTO AJUDOU A ACELERAR A EMPRESA

Em 2025, Joyce foi a finalista da Bayer Foundation Women Entrepreneurs Award, premiação realizada pela Fundação Bayer com foco em empreendedoras com soluções sociais inovadoras. 

“Esse prêmio foi um divisor de águas para a empresa, porque até então tínhamos poucos clientes e, portanto, pouco impacto. E isso mudou”

Além de 25 mil euros de aporte, a iniciativa disponibilizou seis meses de mentoria com o Impact Hub São Paulo, parceiro da fundação nessa jornada, o que, segundo a fundadora do LoriComunica, ajudou especialmente na estruturação comercial e na organização da empresa.

No começo de 2026, faleceu Anette, a avó de Joyce que serviu de inspiração para o seu trabalho. Apesar da tristeza, a empreendedora segue comprometida com a missão de ampliar o acesso à comunicação para quem mais precisa. Ela aprimorou a tecnologia do app e, agora, planeja escalar e internacionalizar a solução (por enquanto sem recorrer a investimentos externos):

“Recebemos, com frequência, mensagens de pessoas perguntando quando vamos lançar uma versão do aplicativo em inglês e espanhol”, diz Joyce. “Por isso, estamos trabalhando nessa frente, inclusive, participamos recentemente de uma mentoria da APEX com esse foco.”

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