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Ela criou uma marca de bonecas de pano que celebra a identidade e a cultura da Amazônia

Dani Rosolen - 21 set 2026 Vanda Amaral, fundadora da Bonecaria da Amazônia.
Vanda Amaral, fundadora da Bonecaria da Amazônia.
Dani Rosolen - 21 set 2026
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Quando você pensa em uma boneca, qual imagem te vem à cabeça? A manauara Vanda Amaral, 49, viveu sua infância nos 1980 e o que lembra dos brinquedos dessa época não refletem em nada a criança que ela foi:

“As bonecas eram todas branquinhas, com cabelo loiro e olhos verdes. Não tinham nada a ver comigo, uma mulher amazônida, de pele morena, cabelo liso e nariz redondinho”

Vanda transformou essa experiência em uma boneca de pano. Ou melhor, em diferentes coleções com a marca Bonecaria da Amazônia, que exalta a identidade e a cultura da região.

As criações autorais viraram referência para crianças de novas gerações e mulheres que, como ela, não se enxergavam nas bonecas de sua infância – e trouxeram ao negócio reconhecimento.

Os mais recentes foram a seleção da empresa como finalista regional do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios 2026 e no Prêmio Sebrae Top 100 de Artesanato 2026, como uma de dez representantes amazonenses que compõem a lista. Vanda também já foi finalista do Prêmio Impulso Cultural, promovido pela Atrela, e do edital “Mulheres do Nosso Bairro”, promovido pela ENGIE Brasil.

TUDO COMEÇOU COM O PEDIDO DE UMA SOBRINHA

Professora da educação infantil da rede pública, Vanda sempre gostou de colocar arte nas atividades que passa aos alunos. Por isso, sua sobrinha supôs que ela poderia criar com facilidade uma boneca de pano para a sua filha, no caso, a sobrinha-neta de Vanda. O ano era 2013.

“Eu não sabia nem colocar uma linha na agulha, não tinha máquina, mas me empenhei para fazer aquela boneca e atender ao pedido”

Vanda tinha poucos meses para concluir a missão, pois a sobrinha retornaria a Minas Gerais – tinha vindo ao seu estado de origem, Amazonas, apenas para o nascimento da criança.

Ela pesquisou em revistas o passo a passo da confecção, mas mesmo assim o processo foi desafiador. “Errei mil vezes, saía tudo torto. Quando finalmente consegui acertar a bonequinha, já tinha estragado uns dez metros de pano e furado muito meu dedo”, lembra.

Apesar dos obstáculos, Vanda se encantou com esse mundo da bonecaria, mas acabou seguindo apenas em suas atividades na área da educação. Em 2017, a perda do marido, vítima de um acidente de moto, acabou guiando a professora para outra direção. Além do luto, ela sofreu com o baque na renda doméstica.

“Minha vida virou de pernas para o ar e a bonecaria me salvou naquele momento. Comecei a vender bastante. Não sei se as pessoas compravam porque sentiam pena ou gostavam, só sei que foram as bonecas que sustentaram meu filho e eu.”

A BONECA QUE DEU INÍCIO AO NEGÓCIO NASCEU NA UNIVERSIDADE

Nos anos seguintes, Vanda continuou dando aula e fazendo bonecas. Em 2021, outra reviravolta mudou sua história: o adoecimento da mãe, diagnosticada com uma doença pulmonar em estágio terminal.

“Queria muito poder ficar mais perto da minha mãe naquele momento, então acabei deixando uma das três cadeiras efetivas que ocupava na escola. E comecei a entender que precisava trilhar outro caminho”

Entre alguns cursos que buscou como alternativa, ela se inscreveu em uma especialização em Negócios da Floresta na Universidade do Estado do Amazonas. A formação exigia, como TCC, a criação de um produto genuinamente amazônico. Na época, ela não tinha nem ideia do que isso poderia ser. 

Por conta do sofrimento com o estado de saúde da mãe, Vanda recebeu um diagnóstico de ansiedade depressiva. “Eu não estava raciocinando direito, pensava uma coisa, mas não conseguia verbalizar.”

Mesmo assim, ela não quis desistir dos estudos. “Precisava terminar a especialização, pois sabia que ia me ajudar a sair do caos em que estava”. Nesse momento, entendeu que seu produto de TCC poderia ser justamente algo que ela já fazia bem: uma boneca. Mas não qualquer uma

Vanda resgatou suas memórias de infância, com a falta de representatividade nos brinquedos, fez pesquisas e criou, em 2023, uma boneca com uma estética genuinamente amazônica, que batizou de Flor de Tucumã.  

Uma das versões da Flor de Tucumã. (Foto: Divulgação/Sebrae-AM).

“Dentre os 120 TCCs entregues, o meu virou case de sucesso. Naquele ano, 25 cientistas de Harvard vieram conhecer projetos de sustentabilidade em três estados brasileiros, entre eles o Amazonas, onde foram apresentados, por meio da minha universidade, à Flor de Tucumã.”

A partir daí, a jornada de empreendedorismo de Vanda engatou, com a criação da Bonecaria da Amazônia.

A ARTESÃ DESENVOLVEU COLEÇÕES A PARTIR DE SUA CRIAÇÃO ORIGINAL

Vanda afirma que a boneca rapidamente encontrou seu público.

“Geralmente, as mulheres que compram têm a mesma narrativa de identidade de, assim como eu, terem sentido o desprazer de não se verem nos seus brinquedos. Quem é daqui do Amazonas percorre os lugares e não se vê muito representado. É como se a nossa existência incomodasse”

A criação da boneca, diz Vanda, a ajudou a entender sua própria identidade: “Demorei para me descobrir como mulher amazônida, porque só agora estão começando a dar espaço para a narrativa da mulher genuinamente do Norte”.

Ela ressalta que a boneca é amazônica e não indígena. “Os meus traços físicos falam por si, porém em documentos oficiais, não tenho etnia. Mas criei uma versão da Flor de Tucumã com uma faixa vermelha na área dos olhos, como uma homenagem à minha ancestralidade.”

OS ENCANTADOS TAMBÉM GANHARAM LUGAR NA BONECARIA

Além da Flor de Tucumã, que se desdobra em outras personagens, como a Cunhã Poranga, Vanda criou uma coleção em homenagem aos Encantados, personagens que fazem parte do imaginário e da cultura amazônica.

“Sentia falta de ver as histórias que conheci na minha infância, por intermédio da minha mãe, como a do Boitatá, do Curupira…” 

Em 2025, Vanda lançou os primeiros cinco bonecos: o Boto, o Curupira, a Iara, o Mapinguari e o Boitatá. Agora, em agosto de 2026, completou a coleção com a Vitória-Régia, a Jaci (Mãe da Lua), a Caipora, o Saci e a Mula Sem Cabeça. 

Curupira, um dos bonecos da coleção Encantados.

“A Mula não é um encantado, é uma criação dos europeus, mas que fazia parte do univeso de histórias que eu ouvia quando criança, então quis trazer para essa coleção também.”

O FLUXO DE TRABALHO EVOLUIU JUNTO COM A DEMANDA

Hoje, duas pessoas ajudam Vanda na produção. Porém, ela diz que ainda se encarrega pessoalmente de mais da metade do processo.

Até 2022, ela conta que só começava a produzir as bonecas quando recebia uma encomenda. Conforme a demanda cresceu e a Bonecaria ganhou visibilidade, o modelo de trabalho mudou com a adoção de uma linha de pré-produção, por etapas (corte, costura, roupas, montagem, pintura).

 “Hoje não existe mais fazer uma boneca do zero. Tenho várias caixas de plástico e, em cada uma delas, armazeno as peças que compõem a boneca. Já fica tudo ali costurado e pronto para ir montando”

Os preços variam conforme o tamanho e os personagens. A Flor de Tucumã (45 cm, articulada), por exemplo, custa 275 reais. As entregas costumam ocorrer sete dias após o pedido, recebido via WhatsApp ou Instagram.

A capacidade média de produção, diz Vanda, é de 40 bonecas por mês. Mas ela afirma já ter produzido muito mais em algumas ocasiões. Em junho de 2025, Vanda conta que chegou a costurar mais de 600 itens para uma encomenda relacionada à Festa de Parintins.

PARA DIVULGAR A CULTURA AMAZÔNICA, ELA ENSINA OUTRAS MULHERES A CRIAR SUAS BONECAS

Vanda começou como autodidata. Passou a acompanhar perfis nas redes sociais de bonequeiras e consumir conteúdos sobre o tema, antes de correr atrás de cursos para se aperfeiçoar e, por fim, desenvolver sua própria metodologia.

Hoje, ela oferece aulas gravadas para que outras mulheres espalhem a identidade amazônica por meio da bonecaria, com módulos para aprender a fazer a Flor de Tucumã, a Iara, a Cunhã Poranga e até roupinhas para bonecas.  

“É maravilhoso poder ajudar com o meu conhecimento mulheres de todo o Brasil das quais eu nunca vi o rosto, nem sei se vou conhecer algum dia”

Vanda não se importa que as alunas vendam os produtos que idealizou, até porque um dos intuitos do curso é ajudá-las a gerar renda. Mas destaca que acha importante que as divulgações deixem claro que a modelagem é da Bonecaria da Amazônia.

“Me sinto uma mulher realizada por poder ensinar o que faço, vender meus produtos, inspirar outras mulheres – e principalmente mostrar que dá para enaltecer nossa identidade e cultura e ao mesmo tempo gerar renda”, diz. E complementa:

“A Amazônia é muito rica, muito grande e maravilhosa. E poder levar isso para a arte da bonecaria é incrível”

Sobre os planos para o futuro, Vanda revela: “Estou trabalhando em uma nova coleção inspirada na nossa fauna, criando bonecos de preguiças, tamanduás e muitos outros animais da Amazônia”.

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