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“Posso não ter pai, mas tenho a casa dos sonhos”: a frase que me fez entender como um espaço pode fortalecer a autoestima de uma criança

Katia Perrone - 2 out 2026 Katia Perrone, cofundadora e CEO da Decor Social.
Katia Perrone, cofundadora e CEO da Decor Social.
Katia Perrone - 2 out 2026
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O ano era 2017. Eu tinha chegado aos 50 com uma carreira consolidada como designer de interiores, à frente de meu próprio escritório em São Paulo. Jamais poderia imaginar que uma frase dita por um menino de 13 anos mudaria o rumo da minha vida.

Alguns dias depois da inauguração de um abrigo* no Brooklin, zona sul da capital paulista, que havíamos reformado por completo, esse menino, que sofria bullying na escola, ao ser ameaçado por um colega, respondeu: “Posso não ter pai, mas tenho a ‘casa dos sonhos’”.

Quando soube, aquela frase me atravessou. Até hoje penso nela quase todos os dias. Foi quando compreendi, de verdade, que um espaço não é apenas cenário; ele pode acolher, fortalecer a autoestima, proporcionar pertencimento e ajudar uma criança a se enxergar de outra maneira

Foi também quando encontrei um novo sentido para tudo o que eu sabia fazer.

ANTES DA DECOR SOCIAL, O VOLUNTARIADO JÁ FAZIA PARTE DA MINHA VIDA

Mas essa história começou bem antes. Uma grande amiga é gestora da Associação Maria Helen Drexel, que mantinha nove casas de acolhimento, onde viviam cerca de 90 crianças e adolescentes afastados do convívio familiar por medida protetiva, por ordem judicial.

Durante mais de treze anos, eu, meu marido e nossos dois filhos fazíamos as compras da ceia de Natal dessas casas. Era o nosso ritual: encher os carrinhos no supermercado e entregar tudo para que cada lar preparasse sua celebração. Para nós, o ano só terminava depois disso.

Com o tempo, algumas casas foram fechando por falta de recursos. Eu acompanhava aquela realidade de perto e uma pergunta começou a me incomodar: “Por que crianças e adolescentes que já haviam sido afastados de suas famílias não podiam viver em um lugar bonito e acolhedor, como os meus filhos ou os filhos dos meus clientes?”.

Em geral, as pessoas doam para esses espaços o sofá manchado, o móvel quebrado, o quadro que ninguém mais quer, e as organizações, pressionadas pelo básico, precisam priorizar comida, equipe e teto. A dignidade estética é quase sempre inexistente

Quando surgiu a oportunidade de reformar um quarto e um banheiro acessíveis, fiz o projeto de interiores e pedi doações aos meus parceiros de escritório. E descobri como era difícil! Uma coisa é buscar apoio para uma mostra de decoração, com visibilidade e prestígio; outra é pedir contribuição para um projeto social, longe dos holofotes.

Consegui viabilizar a reforma dos dois ambientes, mas fiquei com uma pergunta: “Como reformar uma casa inteira?”.

A RESPOSTA FOI MOBILIZAR UMA REDE

Na época, eu participava de um grupo de profissionais de arquitetura e design no Facebook, e foi ali que encontrei colegas que também queriam colocar sua profissão a serviço de uma causa.

Como eu já havia participado de mostras de decoração, propus usar uma lógica parecida: se cada profissional assumisse um ambiente da casa, talvez conseguíssemos mobilizar empresas e transformar o abrigo inteiro em que eu era voluntária.

Dezenove arquitetos, designers e paisagistas disseram “sim”. A associação custeou a mão de obra, e nós buscamos o restante.

Foram meses de projeto, mensagens, pedidos, planilhas e muita obra! Em 28 de setembro de 2017, com o apoio de mais de 80 parceiros e empresas, inauguramos o abrigo —  onde moravam dez crianças e adolescentes — totalmente reformado. Inacreditável!

Sou canceriana, daquelas que choram em novela e, naquele dia, fiquei em choque. Olhava para a casa, para as pessoas que haviam se engajado e para o brilho nos olhos das crianças e adolescentes percorrendo os ambientes, e não podia acreditar no que havia conseguido. Era como se eu assistisse à cena de fora. Eu só conseguia pensar: “Meu Deus, deu certo”.

Ali entendi o poder do design em transformar a vida de alguém. Pensei: “Encontrei o porquê de ter escolhido essa carreira, e é isso que eu quero para a minha vida!”

A Casa dos Sonhos não nasceu de uma pessoa sozinha. Nasceu de uma rede. E essa continua sendo a essência de todos os projetos que a Decor Social realiza.

DESCOBRI QUE RECOMEÇAR TAMBÉM É USAR TUDO O QUE JÁ APRENDEMOS

Minha trajetória nunca foi linear. Sou formada em Ciências Biológicas, fiz mestrado e doutorado em Bioquímica e trabalhei durante nove anos no Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer — eu fazia parte do grupo do laboratório de pesquisas em HPV (Papilomavírus Humano).

Defendi minha tese de doutorado grávida de 8 meses da minha filha, e com 3 meses do nascimento dela, no início de 1996, fui morar na Venezuela porque meu marido havia sido transferido para lá.

Quando voltei ao Brasil, dois anos depois, fiquei grávida do meu filho. Depois que ele nasceu, não quis retornar para o laboratório, porque a carreira de pesquisadora iria exigir muito e eu queria ficar mais próxima das crianças. Foi assim que me tornei designer de interiores autodidata

Como eu gostava muito de decoração, arrumar casas e fazer arranjos — minha mãe era decoradora e eu sempre a acompanhava nos projetos —, me ofereci para ajudar uma amiga que estava com um projeto para o Grande Hotel de Campos de Jordão (SP). Fiquei responsável por toda a parte dos buffets e decoração dos restaurantes. Depois disso peguei outros trabalhos com ela e fui, de forma natural, mudando de carreira.

Construí uma trajetória de quase três décadas à frente do meu escritório. Mas não abandonei minhas vivências anteriores — levo todas comigo.

A ciência me ensinou a investigar e buscar evidências. O design, a escutar e transformar necessidades em espaços reais. A experiência com obras me deu método, gestão e uma rede de fornecedores. Aos 50, não comecei do zero; comecei com repertório e um propósito novo

Depois daquela primeira entrega, seguimos para mais dois abrigos da mesma organização. Foi quando Lucy Amicón, também designer de interiores e com uma trajetória consolidada, juntou-se a nós para fundar, com outros dois colegas – Vicente Parmigiani e Andrea Bonventi –, em 25 de maio de 2018, a ONG Decor Social.

CRIAR UMA ONG É MUITO DIFERENTE DE REALIZAR UMA BOA AÇÃO

No começo, eu conhecia projetos, obras e decoração. Não conhecia nada sobre o terceiro setor. Precisei aprender sobre governança, prestação de contas, captação, indicadores e gestão de voluntários. E entender que entusiasmo mobiliza uma primeira entrega, mas não sustenta a estrutura de uma organização a longo prazo.

O desafio diário é captar recursos não só para as reformas, mas para a estrutura que as torna possíveis. Antes e depois da obra há diagnóstico técnico, escuta qualificada das crianças, adolescentes e equipes, desenvolvimento de projeto, orçamento, gestão e avaliação de impacto. Tudo isso exige profissionais, processos e sustentabilidade.

Fui me qualificando e me cercando de quem sabia mais do que eu. Transformamos aquela experiência intuitiva em uma tecnologia social estruturada, replicável e de baixo custo.

As crianças e os adolescentes são ouvidos como clientes do projeto — não como receptores passivos de uma doação. Eles compartilham seus sonhos, suas referências, dizem do que gostam, do que sentem falta e como gostariam de viver. Essa escuta pauta o projeto e resulta na transformação da relação deles com o espaço, gerando pertencimento

Nossa rede segue sendo o principal ativo da Decor Social. A cada projeto, reunimos arquitetos, designers de interiores e paisagistas, todos voluntários, empresas, organizações sociais, equipes técnicas – doadores de recursos, de tempo, de expertise.

As parcerias de produtos e serviços potencializam em até três vezes os recursos financeiros recebidos. É assim que o coletivo transforma um orçamento limitado em uma entrega completa e de alto impacto.

EM OITO ANOS, A CASA FICOU MAIOR

Hoje, já são 38 projetos entregues, mais de 20 mil metros quadrados transformados e mais de 5 mil crianças e adolescentes impactados diretamente.

Começamos nos serviços de acolhimento – os antigos orfanatos – e ampliamos a atuação para Repúblicas de Jovens, apartamentos de locação social para jovens que saem da institucionalização, centros de contraturno escolar, hospitais e casas de apoio. Sempre buscando a humanização dos espaços, tendo o design como ferramenta de cuidado e impacto.

Os números dimensionam a escala. Mas o que me move são mudanças que não cabem em uma planilha: a criança que convida um amigo para conhecer onde mora; o adolescente que escolhe a cor do quarto; a equipe que percebe menos conflitos; o jovem que sente que foi ouvido e que alguém projetou algo pensando nele

Aprendemos que beleza, segurança e funcionalidade não são luxo quando ajudam a construir autoestima, rotina e pertencimento. Dignidade estética não é decoração, é parte do cuidado.

DA CASA DOS SONHOS À PRIMEIRA CASA

Ao longo dessa caminhada, outra pergunta passou a me perseguir: o que acontece quando um jovem completa 18 anos e precisa deixar o acolhimento sem renda suficiente, sem rede de apoio e sem ter para onde ir? Reformar o lugar onde ele vive durante a infância é fundamental. Mas e depois?

Foi desse incômodo que nasceu o Programa Primeira CASA, em parceria com o Fundo FICA. A proposta é oferecer apartamentos de locação social prontos para morar, bem localizados e com uma rede de apoio próxima, para que jovens do pós-acolhimento construam autonomia com segurança. Não queremos entregar apenas uma chave, mas condições para que cada jovem possa chamar um lugar de seu e seguir a própria vida.

Quando olho para o futuro da Decor Social, quero ampliar essa tecnologia, chegar a mais territórios e contribuir para políticas públicas que garantam espaços de acolhimento mais humanos e moradia digna para quem deixa esses serviços

Também quero que cada vez mais empresas percebam que podem construir conosco projetos de impacto real e valor compartilhado. É algo que já vivenciamos na prática com as mais de oito obras que conduzimos neste ano, onde o apoio de parceiros engajados, como Eucatex, Tintas Coral, WAT Plast, Fundação FEAC, Instituto Coral, Mescla Seguros, entre outros, tem garantido os recursos e os materiais necessários para requalificar esses espaços.

E quero, por fim, provar que arquitetura e design podem ocupar um lugar estratégico na proteção social.

Talvez a maior disrupção da minha trajetória tenha sido perceber que eu não precisava trocar de profissão para mudar de vida. Precisei mudar a finalidade do meu trabalho. O design, que durante tantos anos usei para realizar os sonhos de clientes, tornou-se uma ferramenta para garantir dignidade a quem quase nunca teve o direito de escolher como gostaria de morar

A frase daquele menino deu nome ao primeiro abrigo que reformamos — e uma direção à minha vida.

Hoje, meu sonho é que nenhuma criança precise se defender dizendo que tem uma Casa dos Sonhos – mas que todas possam crescer e se desenvolver com a garantia de uma casa digna, direitos fundamentais, possibilidade de escolhas e futuro.

 

* O termo “abrigo”, utilizado no texto, refere-se ao Sistema de Acolhimento Institucional da Criança e do Adolescente (SAICA).

 

Katia Perrone é doutora em Bioquímica, designer de interiores e possui MBA em Arquitetura Hoteleira. Há mais de 26 anos atua à frente de seu escritório de arquitetura e design, com projetos no Brasil e no exterior e algumas participações em CASACOR. Após 18 anos de atuação voluntária em serviços de acolhimento, transformou sua inquietação com a precariedade desses espaços em ação. Em 2018, idealizou a Decor Social, organização da qual é cofundadora e CEO. Como empreendedora social, une design, gestão e impacto para transformar espaços em ferramentas de cuidado, dignidade e desenvolvimento para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

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