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Depois das urnas, ainda somos capazes de olhar para o outro?

Alex Cardoso de Melo - 9 out 2026 Alex Cardoso de Melo, fundador da ONG “Meu sonho não tem fim”.
Alex Cardoso de Melo, fundador da ONG “Meu sonho não tem fim”.
Alex Cardoso de Melo - 9 out 2026
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O resultado das eleições deste ano me fez pensar em uma senhora sentada num caixote.

Pode parecer estranho relacionar a nova composição da Câmara e do Senado e as votações expressivas de algumas lideranças políticas a uma mulher que encontrei numa rua de São Paulo há quarenta anos. Mas foi exatamente o que aconteceu comigo. Não pretendo fazer uma análise política. Diante de um país tão dividido, voltei a pensar no que venho observando há quatro décadas: o que acontece conosco quando deixamos de enxergar o outro como pessoa.

Tudo começou em agosto de 1986. Eu tinha 16 anos e descia a Rua Direita, no centro de São Paulo, quando vi uma senhora sentada num caixote. Devia ter uns oitenta anos, era muito frágil e segurava uma pequena tigela de alumínio enquanto pedia esmolas.

O que me impressionou não foi apenas a pobreza daquela mulher, mas o que acontecia ao redor. A rua estava cheia. Um mar de gente passava por ali e quase ninguém parecia enxergá-la. Aquela mulher estava no meio de todos nós e, ao mesmo tempo, parecia não pertencer àquele lugar 

Eu tinha 16 anos e não sabia o que fazer. Mas aquela cena ficou dentro de mim. Comecei a pensar que talvez fosse possível fazer alguma coisa. Passei a guardar entre 20% e 30% do meu salário numa poupança. Não sabia ainda qual seria o projeto. Sabia apenas que, algum dia, gostaria de criar algo que ajudasse outras pessoas.

Dez anos depois, em 1996, nasceu o projeto que viria a se chamar Meu sonho não tem fim. Hoje, olhando para trás, penso que ele nasceu muito antes. Talvez naquela manhã, quando um garoto decidiu que não queria passar pela vida sem enxergar.

CONTRA O MEDO, UM INSTANTE DE ENCONTRO E EMPATIA

Em 2003, durante uma exposição do projeto “Exposições um sonho que não tem fim”, conheci um menino de 6 anos. A iniciativa levava a crianças e adolescentes as histórias dos “grandes sonhadores” e de pessoas que haviam deixado um legado importante para a humanidade.

Entre 2003 e 2004, as exposições alcançaram mais de 140 mil crianças e adolescentes em comunidades carentes, escolas públicas, CEUs e unidades da Fundação Casa (antiga FEBEM).

Foi na porta de um CEU, na zona sul de São Paulo, que o menino apareceu com a irmã. Ele não queria entrar.

— Ah, tio, ele tem medo da polícia — disseram alguns meninos.

Perto da entrada havia uma viatura da Guarda Civil Metropolitana. Fui até ele, disse que não precisava ter medo, peguei-o no colo e caminhei em direção à exposição. Quando passamos ao lado da viatura, ele urinou. Não sei o que aquele menino havia vivido ou ouvido. Sei apenas que, aos 6 anos, já tinha aprendido a ter medo de uma farda 

Deixei-o brincando e fui conversar com os guardas. Contei o que havia acontecido e sugeri que, na hora de irmos embora, eles conversassem com ele. Mais tarde, parei ao lado da viatura com o menino. Os guardas foram atenciosos, conversaram com ele, mostraram o giroflex e ligaram a sirene. Não houve discurso. Houve um encontro.

O menino, que horas antes tinha urinado de medo, foi embora um pouco mais tranquilo. Não sei o que aconteceu depois. Talvez tenha esquecido aquela tarde. Mas, naquele momento, alguém lhe ofereceu uma experiência diferente. Às vezes, a empatia não muda uma vida inteira. Às vezes, muda apenas alguns minutos.

ACHEI QUE MINHAS PALAVRAS NÃO HAVIAM ALCANÇADO NINGUÉM, MAS DESCOBRI QUE ESTAVA ERRADO

Em 2003, comecei outro projeto, intitulado Passageiros da Esperança. A ideia era aproveitar o tempo que passava no transporte público para deixar alguma mensagem para quem viesse depois de mim. Preparei folhetos com frases dos “grandes sonhadores” e comecei a deixá-los nos bancos vazios do metrô, dos trens e dos ônibus. Hoje faço algo semelhante com livros, acompanhados de uma dedicatória para um passageiro anônimo.

Em 2007, consegui incluir nos televisores dos trens do metrô de São Paulo frases de pessoas que sempre fizeram parte do meu trabalho: Betinho, Dom Hélder Câmara, Irmã Dulce, Madre Teresa, Mahatma Gandhi, Martin Luther King e outros. Durante três anos, aquelas frases circularam pelos vagões. Foi assim que alguém do Projeto Guri conheceu o trabalho e me convidou para dar uma palestra do projeto “Vinha de Sonhos” aos jovens de uma unidade da Fundação Casa, a Fazenda do Carmo, em Itaquera.

Foi uma tarefa árdua para mim. Eu entrava ali para falar de amor, solidariedade e humanidade com jovens que, em muitos casos, haviam conhecido a sociedade pelo seu lado mais duro: violência, abandono e opressão. Durante a palestra, tive a impressão de que minhas palavras não haviam alcançado ninguém. Depois, descobri que estava errado.

Os jovens pediram aos assistentes sociais que, depois das oficinas de música e arte, fosse contada uma das reflexões do meu primeiro livro, “As reflexões de um sonho que não tem fim”, cujo exemplar deixei para compor o acervo da biblioteca daquela unidade. Queriam, segundo disseram, compreender como poderiam melhorar como seres humanos

Essa frase me acompanhou.

Criei então o livro Um sonho que não tem fim, com mais de 300 parábolas e reflexões. Aquela unidade recebeu o primeiro exemplar, e os jovens organizaram uma feira cultural. Em grupos, escreveram textos sobre alguns dos grandes sonhadores e encenaram uma peça sobre seus legados.

Eu havia entrado ali imaginando que levaria alguma coisa. Saí entendendo que também havia recebido. Talvez seja por isso que, ao olhar para o país que saiu das urnas, eu não consiga pensar apenas em política. Penso em pessoas.

Penso na senhora da Rua Direita, no menino que tinha medo da polícia e nos jovens que queriam descobrir como poderiam ser pessoas melhores.

REAPRENDER A OLHAR PODE SER A CONDIÇÃO FUNDAMENTAL PARA A TRANSFORMAÇÃO DE UM PAÍS

As três histórias aconteceram em épocas e lugares diferentes, mas me ensinaram a mesma coisa: a indiferença começa quando o outro deixa de ser uma pessoa e passa a ser apenas uma coisa  — um mendigo, um policial, um criminoso, um adversário político, alguém que pensa diferente de nós. Quando isso acontece, fica mais fácil ignorá-lo. Fica mais fácil odiá-lo.

As eleições mostram um país dividido, com forças políticas muito distintas mobilizando milhões de pessoas. A nova composição do Congresso também revela mudanças importantes na distribuição dessas forças.

Não sei se estamos mais divididos porque nos tornamos mais radicais ou se nos tornamos mais radicais porque estamos mais divididos. Sei apenas que nenhuma eleição consegue explicar completamente as pessoas que encontrei nesses 40 anos

A senhora da tigela de alumínio não me perguntou em quem eu votava.

O menino diante da viatura não sabia o que era esquerda ou direita.

Os jovens da Fundação Casa não me perguntaram qual era a minha ideologia.

Eles eram apenas pessoas diante de mim. E eu era apenas uma pessoa diante deles. Talvez seja esse o ponto que estamos esquecendo. Não precisamos pensar da mesma maneira para reconhecer a humanidade de quem pensa diferente. Não precisamos concordar para ouvir. Não precisamos gostar para respeitar.

Passei quarenta anos acreditando que meu trabalho era tentar transformar alguma coisa na vida das pessoas. Hoje desconfio que ele tenha feito outra coisa comigo. Ensinou-me a olhar.

A senhora da Rua Direita me ensinou a olhar para quem ninguém estava olhando.

O menino do CEU me ensinou a olhar para o medo antes de julgar aquele que o sente.

Os jovens da Fundação Casa me ensinaram a olhar para além do erro e enxergar a possibilidade de mudança.

Talvez um país comece a se transformar quando aprendemos novamente a fazer isso.

Há quarenta anos, uma senhora sentada num caixote fez um garoto parar.

Ela provavelmente nunca soube disso.

Eu nunca mais passei pela vida da mesma maneira.

 

Alex Cardoso de Melo é fundador da ONG “Meu sonho não tem fim”.

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