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A Athention quer gerar dados analíticos para aprimorar o trabalho dos professores. Como? Monitorando as ondas cerebrais dos alunos

Marília Marasciulo - 4 set 2023
Virginia Chaves, neurocientista e cofundadora da Athention.
Marília Marasciulo - 4 set 2023
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A necessidade de se tomar decisões baseadas em dados já é quase um chavão do mundo corporativo. Do marketing às vendas, nenhuma estratégia é desenvolvida e executada se não for fundamentada em métricas. 

O mesmo, porém, não se aplica às salas de aula: nível de atenção, concentração e ansiedade dos alunos são baseadas somente na intuição dos professores.

Criada em 2021, a startup Athention tem como objetivo incorporar tecnologia de dados na educação. Cofundadora e diretora de ciência e educação da startup, a educadora e neurocientista Virgínia Chaves explica:

“A gente entendeu que o problema do aluno não está nas técnicas para estudar melhor. É anterior a isso. É ansiedade e falta de atenção. Sem isso, não adianta mexer com técnicas para o estudo se o aluno não tem atenção nem para assistir a aulas” 

Com o Neuroinfinity, produto que inclui o uso de eletroencefalogramas portáteis que monitoram as ondas cerebrais dos alunos, a Athention afirma gerar dados analíticos que podem contribuir para o trabalho dos professores. 

Além do monitoramento dos dados cerebrais, feito pelas headbands, o produto envolve uma plataforma de planejamento de aulas, exercícios de foco e atenção para os alunos e um “neurogame” em que os estudantes testam os resultados. 

“Como é uma coisa muito nova, temos um cuidado grande de conversar com as famílias, mostrar que a headband não está imputando nada na cabeça dos alunos”, diz Virgínia. “É só um sensor que coleta essas atividades. E não tem fim diagnóstico clínico nenhum.”

Com a promessa de levar o estado da arte da neurociência para o ensino escolar, a Athention conseguiu um contrato para desenvolver o piloto do Neuroinfinity com o grupo Somos Educação

Atualmente, o projeto é aplicado em três escolas Anglo, uma no Mato Grosso do Sul e duas em São Paulo, para estudantes das séries finais do Ensino Fundamental. Segundo a cofundadora da Athention, a ideia é testar a metodologia e otimizar o produto – e, no futuro, expandir a atuação para o que ela considera um mar azul de oportunidades. 

A seguir, Virgínia fala ao Draft sobre a inovação da Athention, sua visão sobre a educação hoje no Brasil e como a neurociência pode ajudar a pedagogia:

 

Que tipos de dados vocês coletam nas salas de aula com as headbands?
Elas são na verdade eletroencefalogramas portáteis, aquela touca com eletrodos que busca dados elétricos do cérebro. O que recebemos de dados brutos são as ondas cerebrais. 

E como se extrai um dado direcionado disso? Aí entra a expertise da empresa. 

O que a gente faz é refinar esses dados e direcionar para o que a gente quer. É como se eu tivesse ouvindo várias vozes, que são toda a atividade elétrica do cérebro, e agora direciono qual voz aumentar para conseguir entender o que está sendo dito 

Assim, decidimos focar em dados de atenção. Tratamos esses dados para conseguir entender como está a atenção dos alunos e da turma como um todo. Mas esse é só um ponto da solução. 

O que queremos, na verdade, é olhar o ensino e a aprendizagem. Como a gente pode apoiar o aluno com o aprender e o professor com o ensinar. 

E tudo isso vocês conseguem medir somente com a headband?
A gente consegue medir nível de atenção e, em certo ponto, níveis de ansiedade, calma e foco. 

Entendemos que para os alunos faria sentido levar uma solução que os ensinasse a desenvolver habilidades para melhorar o foco, que está baixo, e diminuir a ansiedade, que está alta 

A gente entrega isso com exercícios mentais que os alunos realizam diariamente na escola e testam através de neurogames. 

Todo dia os alunos realizam esses exercícios, e uma vez por semana jogam o neurogame usando a headband. O seu estado cerebral de foco e calma interfere no jogo. 

Como isso funciona no dia a dia?
Criamos um currículo de exercícios mentais para orientar a atenção e a calma. Algo muito similar ao mindfulness. Esses alunos diariamente têm um momento do exercício mental, dez minutinhos em aulas distintas em que a turma faz esses exercícios. Isso quatro vezes por semana. 

Uma vez por semana, nesses dez minutos, em vez de eles fazerem o exercício mental, eles jogam o neurogame. Nesse dia, eles conseguem ter uma ideia de como está a evolução do treinamento que eles fazem nos outros quatro dias 

A ideia é que eles vejam a melhora da performance atencional. E nesse primeiro momento a gente não está entregando nada individualizado. Buscamos não individualizar nenhum tipo de escore por aluno por questões de LGPD. 

O que que tudo isso significa para os professores?
A ideia é desenvolver nos alunos formas de se autorregularem em termos de atenção e ansiedade. E indiretamente isso afeta as aulas. Para os professores, desenvolvemos a plataforma Mestre, uma ferramenta de planejamento de aula e análise de dados. 

Quando o aluno joga o neurogame, em vez de usar a headband só nos dez minutos para fazer o joguinho, ele usa o dia todo, em todas as disciplinas. Estamos chamando isso de “Aula Brain”. Em paralelo, o professor, naquele dia específico, planeja uma aula dentro da plataforma. 

Ele elenca o tema e cria uma linha do tempo com as principais estratégias pedagógicas que vai usar. Por exemplo: eu sou professora de biologia, hoje minha aula é respiração celular; na introdução, vou usar sala de aula invertida, no desenvolvimento ela vai ser expositiva e no fechamento eu vou usar correção de exercícios. 

O professor monta essa aula na plataforma digital e no momento em que entra em sala, o sistema começa a rodar. Ao final, o professor recebe um analytics em que ele vê o nível de atenção da turma em relação às estratégias que ele usou 

Por exemplo, a atenção da turma deu uma caída quando passou de um momento expositivo para um momento de correção de exercícios. E aí ele tenta entender o que ele fez, se é interessante repetir, se não funcionou muito bem. 

A ideia é transformar o professor em um cientista. Ele imputa dados, observa o fenômeno, analisa o que a plataforma devolve para ele em termos de dados, reitera, replaneja, e vai conseguindo conhecer o perfil da turma cada vez mais com base em dados objetivos – e não só em questões de percepção.

Nos últimos anos, o Brasil tem tido muitas discussões sobre educação, principalmente por causa do novo Ensino Médio. Como você enxerga esse debate?
Toda hora vemos uma discussão diferente. Apesar de parecer que há uma agitação e uma impressão de que não sabemos aonde estamos indo, para sabermos nós precisamos de dados primeiro. E só vamos chegar a isso se a gente discutir [o tema]. 

A Base Nacional Comum Curricular popularizou essa discussão. As pessoas se sentiram munidas de informações para opinar em diferentes graus de entendimento sobre o assunto. 

Com a tecnologia e as diferenças geracionais, começou a ficar muito evidente que o modelo atual não está funcionando. A gente está se desconectando cada vez mais dos alunos. A educação básica está indo para um lado, os alunos estão indo para o outro 

Eles não estão vendo mais sentido. E isso agravou com a pandemia, porque aconteceu uma invasão de tecnologia nas escolas por razões de necessidade. Mas agora que a gente está com calma, podemos repensar como a tecnologia está aqui. Vamos repensar se o novo ensino médio, como foi projetado, está funcionando na prática. 

Agora vou dar uma opinião: não deu tempo de ver nada ainda. Criou-se uma proposta, que tem embasamento e fundamentação, mas só iremos saber se vai funcionar ao aplicá-la. Aí vamos olhar o que não está funcionando e tentar otimizar. Não é revogando tudo, voltando para o antigo e começar tudo de novo. Isso não faz sentido.

Interessante que você mencionou que tivemos um boom de tecnologia com a pandemia e que precisamos agora agir com calma. Isso não é contraditório para uma startup que faz uso de tecnologia em salas de aula?
Para quem trabalha com educação e olha essas questões de tecnologia, um mantra é: “tecnologia sem intencionalidade pedagógica é mais uma ferramenta”

Você pode empilhar 50 soluções tecnológicas e digitais e levar isso para dentro da sala. Se aquilo não conversar com uma questão pedagógica que tenha um fim, será apenas um meio. 

E a pandemia gerou uma sensação de que tecnologias são um fim, não um meio. Empilhou-se um monte de coisas, mas o que eu faço com isso agora? A própria inteligência artificial: como se usa o ChatGPT dentro da aula? É mais uma ferramenta 

Então, quando se pensa por esse lado, a gente fundamenta bem a inserção dessas tecnologias. Uma plataforma digital é algo comum, se usa em tudo, até na gestão escolar, não é nenhuma novidade. O uso da headband é realmente disruptivo. A fundamentação disso é que a gente precisa trazer dados para a sala de aula. 

Geramos dados em todas as áreas profissionais, mas a sala de aula é muita teoria e pouco levantamento e análise de dados. 

O Brasil é um país de desigualdades. Enquanto estamos falando em headbands, tem escolas que não têm nem computador. Faz sentido a gente falar de algo tão disruptivo em um contexto tão desigual?
É por isso que a gente não quis criar uma solução que dependesse completamente da headband. Ela chama muito a atenção e acaba virando o foco da solução. Mas ela não é. 

O foco da nossa solução, e da Athention como um todo, é performance e bem-estar mental. E a headband é um meio, não necessariamente um fim. 

A gente pensa muito mais na questão do bem-estar mental como sendo o core do que estamos entregando. Se eventualmente essa solução tiver que existir – e já estamos pensando nisso – sem a headband, existirá 

A ferramenta de planejamento pedagógico já existe sem a headband. Posso não ter os dados de atenção dos alunos, mas no momento em que eu desenvolvo esses alunos para autorregular a atenção, ensinando técnicas para que eles consigam fazer isso, eu mexo com performance também. 

Então, é uma forma de obter dados dentro do escopo de performance em bem-estar mental. Mas não é o foco da solução. 

Hoje enxergamos que os exercícios mentais para desenvolvimento dos alunos e as formas de o professor planejar essa aula de maneira estruturada são as duas coisas que a gente entrega independentemente da headband. E isso pode ser escalável de forma acessível. Inclusive é o nosso plano.

Que reações vocês têm dos alunos e dos professores?
Não tivemos nenhuma reação negativa, porque o onboarding que a gente faz é estruturado e intenso. Primeiro conversamos com as famílias, explicamos o que está por trás e trazemos os detalhes do que é a tecnologia, tirando todas as dúvidas. 

Uma vez que a família entende e aceita, a gente trabalha com os professores, esclarecendo que não é uma forma de avaliação deles ou da aula. É para avaliar a estratégia usada. 

Os alunos acham tudo um barato. Estamos trabalhando, por enquanto, com os anos finais, do sexto ao nono. Então a gente explica o que é a atenção, o que você consegue… E aí, de novo, o foco não é a headband. 

A gente leva muito uma ideia de que eles conseguem desenvolver o cérebro para ficar mais forte, mais poderoso, para ter mais atenção. E essa atenção é boa para os estudos 

Mas imagina você jogar um videogame, estar mais atento no tempo que estiver jogando? E a gente mostra os neurogames, que é possível você ver que o método está funcionando. 

Então, tivemos uma boa aceitação. Os alunos se sentiram mais confortáveis de fazer os exercícios mentais entendendo que depois eles iam ver se aquilo estava funcionando com o neurogame.

Como vocês desenvolveram esses exercícios?
Existe hoje uma área recente chamada neurociência contemplativa. Ela estuda quais são as mudanças cerebrais desencadeadas por meio desses exercícios. 

Na prática, é: “O que acontece com o meu cérebro se eu realizo esses exercícios com constância? Eu consigo gerar modificações?”. E a resposta é sim. A gente usa como base todos os artigos publicados nesse sentido. 

Atualmente, a gente tem visto o termo “neuro” sendo utilizado como um prefixo para várias áreas: neuromarketing, neuropsicologia, tem até neuro yoga. E sabemos que muitas vezes isso é uma estratégia para dar um aspecto de ciência a coisas que são triviais. Como a Athention se distancia disso?
Acredito que pela nossa base de pessoas. Eu e o Billy [Nascimento, CEO da empresa] somos neurocientistas. Temos mestrado e doutorado na área de neurociências. Somos colegas da época de doutorado. 

Não é uma coisa que eu pego três livros, leio, e pronto: tudo meu é neuro. A gente tem formação acadêmica nessa área. Então existe um rigor científico. Tudo o que você me perguntar sobre a fundamentação, eu vou te passar o artigo, o estudo. 

Estamos pensando, inclusive, em criar uma espécie de conselho de ciência para poder validar as soluções que vierem. Porque vai chegar um momento que eu e ele não vamos conseguir dar conta de tudo 

Mas existe essa preocupação de que nada que a gente produza e afirme que está relacionado à neurociência não seja simplesmente um prefixo que a gente colocou porque leu um livro.

Como você enxerga essa ponte entre mercado e academia, entre produto e pesquisa científica?
Para ser pesquisa – e não é o que a gente entrega – é preciso de uma série de coisas. Vou te dar um exemplo prático: na Forebrain [onde Virgínia atuou, primeiro como consultora e depois como diretora de pesquisa e inteligência], eles entregam projetos de pesquisa, que têm que ser aprovados pelo Comitê de Ética, ainda que depois vire um produto. 

Na Athention, não é que a gente não pesquise, mas a gente não entrega projetos de pesquisa. Entregamos uma solução, um produto, que teve como base uma pesquisa. Então essa ponte, que não é comum, é na verdade o caminho. 

A gente sempre viu que existe um gap enorme. A academia pensando e repensando os porquês de tudo que acontece, mas aquilo não é aplicável, não volta para a sociedade 

Não é que não retorne, mas quando retorna vem de uma forma tão indireta… Será que a gente consegue trazer resultados dessas pesquisas para beneficiar quaisquer áreas de maneira mais rápida? 

Essas iniciativas já existem lá fora. E a gente entende que consegue, sim, levar possibilidades diferentes para conseguir alavancar determinadas áreas. No meu caso, a educação.

Como a neurociência pode acabar sendo uma aliada da pedagogia?
O cérebro está por trás de absolutamente tudo relacionado ao ser humano: comportamento, cognição, tudo. Então acaba que as “neurocoisas” estão se espalhando por aí porque se você entende como o cérebro processa diversas questões da vida, você começa a entender como o ser humano se comporta e age. 

Então, quando a gente traz isso para a pedagogia, para a andragogia [ensino para adultos], para o que quer que seja, você entende o cerne de como é que se aprende. E isso te faz perceber por que ninguém pensou isso antes. 

Por que você entra numa faculdade de pedagogia e não tem uma matéria que fale sobre isso? Como eu ensino alguém a aprender se eu não sei como o cérebro aprende? 

É como você se consultar com um médico, um gastroenterologista, que não entende como funciona o estômago… Os professores vivem de ensinar, que é uma atividade que passa pelo cérebro – mas eles não entendem o cérebro 

Se eu sei como o cérebro processa isso, tenho formas de conseguir criar sabendo o que estou fazendo. A coisa vai para um outro nível.

E como a gente pode focar no cérebro sem negligenciar os outros campos envolvidos na aprendizagem?
Porque justamente não é para negligenciar. Se eu olhar do ponto de vista do próprio cérebro, a gente pensa no aprender como sendo uma coisa puramente cognitiva. E não é. 

O aprender passa por uma questão emocional fortíssima, que impacta a questão social, que se retroalimenta de tudo o que está acontecendo. Quando falo em aprendizagem, não estou falando “memorizei, vou reproduzir”. É uma coisa tão maior, passa por tantas questões. 

E isso conversa com tudo que está do lado de fora do aluno, que são as questões sociais, a maneira como ele se relaciona, o comportamento, o ambiente em que ele está — até a hora em que ele vai dormir tem influência [no aprendizado]. É muito mais complexo e absolutamente não-linear 

Quando trazemos um dado específico de atenção, a gente entende perfeitamente que aquilo é uma ponta de todas as variáveis que estão acontecendo. E a ideia de trazer a neurociência para a escola é justamente ir ampliando isso e começando a conjugar as outras variáveis para criar alguma coisa que consiga vestir a escola de um entendimento mais amplo do que é o aprender.

Isso não implicaria em ter que repensar todas as teorias e estruturas pedagógicas que existem há séculos e foram desenvolvidas em outros contextos?
Sim, e essa é a parte maravilhosa. Quando a gente coloca numa mesma sala o neurocientista e o pedagogo, a conversa é fantástica. A neurociência da educação não veio para falar só “pedagogia, adeus”. Pelo contrário. 

Hoje, dentro da neurociência da educação, a gente tem um termo bastante interessante que se chama “neuromito”. Esse termo está relacionado a interpretações equivocadas de dados científicos que foram para a sala de aula de uma forma completamente não-embasada 

Vou te dar um exemplo: os alunos são divididos em estilos de aprendizagem. Então fulano é muito visual, o outro é muito auditivo. Isso é um neuromito. A base disso é científica, mas foi interpretado errado pela pedagogia, porque não tinha muito como fundamentar. E isso virou uma prática pedagógica que gera problemas na sala de aula. 

Então, essa conversa entre as duas áreas é necessária para justamente fundamentar as teorias que já existem – ou modificar e descartar outras. 

Sob esse ponto de vista mais amplo, qual a proposta da Athention pensando no longo prazo?
Sem prender a minha visão à solução que a gente tem hoje, que provavelmente vai ser modificada, otimizada, fico pensando na missão da empresa de abrir o olhar da sociedade de que a educação é uma coisa muito mais ampla do que realmente é. E hoje, no Brasil, ela está muito focada em testes e concursos. Mas é uma coisa tão maior! 

A gente fala de educação integral, em habilidades, competências. Todo mundo sabe definir bonitinho o que que é… [mas] vai fazer isso com o aluno, vai desenvolver uma habilidade. Como é que faz? 

Sem entender o comportamento humano, você não desenvolve nada e ninguém, porque fica uma coisa absolutamente entregue: “toma um pacote, agora fica hábil nisso”. E não é assim que funciona 

Então, para tentar resumir o que a Athention traz, é essa visão do indivíduo enquanto aprendente ser muito mais complexo do que se pensa. 

A questão é muito mais ampla do que a sala de aula. É entender que educação é algo que envolve diversas outras coisas e que a gente consegue facilitar esse processo tanto para quem ensina quanto para quem aprende, por meio do conhecimento do cérebro. 

 

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