A Chico Rei começou na casa do fundador. Hoje, fatura milhões vendendo camisetas e destina uma porcentagem a projetos sociais

Matheus Andrade - 22 jan 2020
Bruno Imbrizi, fundador da Chico Rei: única marca do país autorizada a produzir camisetas com a estampa de Frida Kahlo.
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Em 2005, Bruno Imbrizi deixou Além Paraíba, na Zona da Mata, em Minas Gerais, para estudar na Universidade Federal de Juiz Fora (UFJF). Enquanto cursava Artes, teve a ideia que mudaria sua vida. 

Bruno, 32, é o fundador da Chico Rei, marca de camisetas com estampas criativas comercializadas pela internet. Com mais de 2 mil modelos disponíveis, a empresa mineira vendeu 300 mil peças pela internet em 2019. O faturamento total ficou em 12 milhões de reais — e deve chegar a 15 milhões em 2020. 

Sabe aqueles produtos piratas com estampas alusivas a Frida Kahlo que você cansa de ver em qualquer lojinha ou brechó? Na Chico Rei a coisa é legítima (são 15 modelos relacionados à pintora mexicana):

“Hoje somos a única marca de camisetas oficializada pela Frida Kahlo Corporation. Temos liberdade para criar tudo sobre o tema e imagens da Frida. Basicamente nós desenvolvemos as coleções em nosso estúdio, são aprovadas no México e lançadas na sequência”

Milton Nascimento é outro que estampa produtos da empresa, incluindo canecas e capinhas de celular; o contato surgiu depois que o cantor usou uma camiseta da Chico Rei num show. Hoje a marca tem oito temas principais: “brasilidade”, “cinema”, “games”, “geek”, “humor”, “literatura, “música” e “séries”. 

DE JUIZ DE FORA PARA FORTALEZA: APÓS SEIS DIAS, O PRIMEIRO CLIENTE

A história começou para valer em 2008, ainda durante a faculdade. Bruno já trabalhava como ilustrador e resolveu empreender com Carol Bianque, também estudante de Artes da UFJF e que trazia alguma bagagem na área têxtil. 

O escritório, na época, funcionava em um quarto na casa de Bruno; o investimento inicial, uns 5 mil reais, foram financiados pelo pai dele. E assim, com produção terceirizada, a dupla Bruno e Carol botou o site no ar oferecendo 20 estampas (detalhe: nenhum dos dois tinha muita noção de e-commerce).

Nos cinco primeiros dias, o número de vendas foi igual a zero. Até que, no sexto, uma transação para Fortaleza acendeu a esperança do empreendedor. 

“Ali eu pensei: isso funciona. Porque se um cara lá de Fortaleza acredita e vai colocar a grana dele no bolso de um mineiro de quem ele nunca ouviu falar, confiando que iríamos enviar a camiseta para ele, isso vai funcionar”

Carol acabou deixando a sociedade pouco mais de um ano depois, para tocar outros projetos. Bruno passou os três primeiros anos sem tirar uma remuneração do negócio, se virando com trabalhos paralelos para pagar as contas do dia a dia e restituir o empréstimo paterno.

HOJE, O MODELO DE PRODUÇÃO É SOB DEMANDA, COM “DESPERDÍCIO ZERO”

Do quarto de Bruno, a Chico Rei foi migrando de sede em sede, nenhuma delas muito ampla. O custo também não ajudava: todas ficavam próximas à região central de Juiz de Fora, encarecendo o aluguel.  

Até que, em 2015, a empresa se estabeleceu em seu endereço atual, um prédio de quatro andares erguido praticamente do zero no bairro Santos Dumont, na periferia da cidade. O espaço abriga toda a operação, desde a confecção a um estúdio fotográfico usado para cliques de modelos com cada estampa nova. 

Desde 2016, a Chico Rei adota um modelo de produção mais consciente, sob demanda: 

“Saímos para uma produção totalmente sob demanda. Antes gerávamos estoque. Hoje, não mais: nosso desperdício beira a zero. Tudo que é feito da nossa malharia é reutilizado por cooperativas. A água utilizada no processo de pintura é entregue ao meio ambiente tratada”

As peças são compostas com 100% de fibra natural de algodão, e têm certificado vegano, emitido pela PETA, que atesta a não exploração animal no processo. 

ATÉ 10% DO VALOR ARRECADADO É REVERTIDO PARA PROJETOS SOCIAIS

Na sede funciona a única loja física, na verdade um bazar que vende peças com algum defeito a preços com desconto. A mudança de endereço para um bairro distante do centro de Juiz de Fora impactou o empreendedor e de seus colaboradores. 

Ao frequentar o entorno, surgiu uma preocupação com a escola local, que leva o nome do bairro e se encontrava meio detonada. Os funcionários se reuniram e realizaram um mutirão, reformando o colégio por conta própria, com recursos idem. Bruno lembra:

“Assim como nós, seres humanos, temos um motivo de existência de estar na Terra, acho que a empresa tem um momento de se questionar o porquê de ela existir. E acho que esse despertar começou ali [naquele momento]”

Surgiu assim o selo “Camisetas Mudam o Mundo”. Hoje, entre 5% e 10% do valor arrecadado com todas as peças vendidas pela Chico Rei são revertidos para algum projeto ou grupo de apoio social.

Entre as instituições beneficiadas estão a escola municipal Santos Dumont e a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Paulo (que no fim de 2019 mudou seu nome para Instituto Jô Clemente).

UMA CAMISETA COM O ROSTO DE PAULO FREIRE GEROU POLÊMICA NAS REDES

Bruno diz que a Chico Rei não se posiciona politicamente, mas vê temas caros à marca, como a educação. Em tempos de polarização e “cancelamento”, corre-se sempre o risco de que alguma camiseta desagrade metade do público, com os memes e comentários se alastrando pelas redes sociais.

Houve “conflitos”, diz o empreendedor, por causa de uma estampa com o rosto e uma frase de Paulo Freire: 

“Essa luta eu quero ter, entro e tenho meus argumentos. Temos posicionamento social muito claro. Estou disposto a receber crítica por uma luta que seja minha” 

Nem sempre os comentários inflamados têm viés político-partidário. Anos atrás, uma camiseta da linha infantil (hoje extinta) estampava um bacon autoafirmativo: “I’m tasty and I know it” [Sou delicioso e sei disso]. 

Diante das respostas negativas de pais e mães preocupados com a alimentação saudável dos filhos, o produto foi retirado do catálogo. O empreendedor diz ver esse tipo de situação com naturalidade: 

“Estamos atentos para que o resultado do nosso trabalho esteja em sintonia com o nosso tempo. Para quem trabalha com criação, não há nada pior do que estar ultrapassado, anacrônico.” 

CAMPANHA COM DRAG QUEEN E CAMISETAS PRODUZIDAS POR PRESIDIÁRIOS

Um dos acertos de que Bruno mais se orgulha (e que mostra que a “apresentação pode ser tão importante quanto o conteúdo”) foi uma campanha em 2017, nas redes da marca, com camisetas lisas, sem estampa. Com o slogan “Básica para sujeitos compostos”, a ação era estrelada por uma drag queen. 

Atualmente, as peças dessa “linha básica” estão entre as mais vendidas, mesmo com preço (R$ 59,90) semelhante ao das camisetas estampadas.

O processo de seleção dos funcionários (hoje, são 85) leva em conta o alinhamento com a marca, o repertório cultural e a capacidade dos novos colaboradores de “agregar” criativamente na invenção das estampas: 

“Quando contratamos, a parte técnica é importante, mas a cultural é muito mais. Temos discussões sobre finais de séries, música, brasilidade, o tempo todo. Isso a gente consegue falar com verdade”

Em breve, esse time deve ganhar um reforço. Bruno costurou um acerto com o governo mineiro e a direção da Penitenciária Professor Ariosvaldo Campos Pires, em Juiz de Fora, para incentivar o trabalho em troca da regressão de pena. A ideia é que até 40 presidiários estejam produzindo camisetas da Chico Rei até o fim do ano.

O CUIDADO COM O PÚBLICO AJUDA A CRIAR NOVAS FORMAS DE CATIVAR O CLIENTE

Iniciativas como essa (assim como estampas “polêmicas”) sempre têm potencial de gerar algum tipo de acirramento nas redes. Bruno diz que hoje em dia se mantém pessoalmente distante da internet, mas faz questão de preservar a proximidade com o público.

Em 2017, por um atraso na entrega, a Chico Rei enviou duas mil cartas pedindo desculpa aos clientes, explicando mudanças de logística e assumindo: “Pisamos na bola”. Enviadas pelos Correios, as cartas traziam um cupom com 50% de desconto. Na época, a reação foi elogiada em um blog da revista Exame.

Outro episódio interessante aconteceu no fim de 2019, quando uma cliente entrou em contato dizendo que seu pai havia falecido, e que “foi velado com uma camisa da Chico Rei”. Assim, surgiu o apelo da fã: “Queríamos todos ir vestindo a camisa na Missa de Sétimo Dia”. 

O prazo era apertado. Mesmo assim, a equipe se desdobrou e enviou, no dia seguinte, uma carta e 15 camisetas para Belo Horizonte. A estampa pinkfloydiana fazia referência a dois álbuns da banda britânica de rock progressivo: Dark Side of the Moon (1973) e Wish You Were Here (1975), traduzido para o mineirês “Queria ‘Ocê’ Aqui”.

Uma mensagem singela de despedida para um fã da marca.

 

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  • Projeto: Chico Rei
  • O que faz: Venda online de camisetas estampadas, com porcentagem destinada a projetos sociais.
  • Sócio(s): Bruno Imbrizi
  • Funcionários: 85
  • Sede: Juiz de Fora (MG)
  • Início das atividades: 2008
  • Investimento inicial: R$ 5 mil
  • Faturamento: R$ 15 milhões (previsão para 2020)
  • Contato: [email protected]
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