TODAS AS CATEGORIAS
Por muito tempo, achei que a minha história começava no físico. No espelho. Nos títulos. Nos aplausos. Era ali que as pessoas me enxergavam e, durante muito tempo, era ali que eu também me enxergava.
Hoje, vendo com mais maturidade e com bem menos necessidade de provar qualquer coisa, percebo que tudo começou muito antes disso. Começou no vazio. Começou num lugar silencioso, desconfortável, que eu nem sabia nomear.
Aos 15 anos, eu não tinha grandes traumas, mas também não tinha direção. Jogava futebol, saía cedo demais, bebia cedo demais, dormia tarde, acordava sem vontade.
Não gostava de estudar, não pensava em futuro e, se alguém me perguntasse onde eu queria estar em cinco anos, eu provavelmente daria risada. Não porque eu estivesse feliz com aquilo, mas porque pensar adiante exigia uma clareza que eu ainda não tinha
Minha vida não era um caos, mas também não tinha estrutura. Era solta. Guiada pelo momento. Eu vivia reagindo ao que acontecia, esperando algo externo mudar minha realidade, sem perceber que nada muda quando a gente só reage.
Faltava rotina. Faltava responsabilidade. Faltava, principalmente, um motivo para acordar todos os dias querendo ser melhor do que no dia anterior.
Foi nesse cenário que sofri uma lesão na perna. Nada heroico. Nada cinematográfico. Apenas uma lesão comum, dessas que acontecem, mas que acabam mudando tudo.
A lesão me afastou do futebol e me levou, quase por obrigação, para a musculação. Eu não escolhi aquele caminho por paixão. Escolhi por necessidade.
A ideia era simples: fortalecer a perna para voltar a jogar. Mas bastou o primeiro treino para algo acontecer. Não foi só físico. Foi mental. Foi interno.
Foi como se, pela primeira vez, eu tivesse encontrado um lugar onde o esforço fazia sentido. Um lugar onde o desconforto não era algo a ser evitado, mas atravessado
Eu saí daquele treino em silêncio. Não porque estivesse cansado, mas porque estava processando algo novo. Um tipo de prazer diferente. Não imediato. Não vazio. Um prazer que vinha do desconforto, da superação, da sensação de ter feito algo difícil e, ainda assim, ter conseguido terminar.
Naquele dia, sem perceber, eu encontrei uma linguagem que o meu corpo e a minha mente finalmente entendiam.
E aí veio o exagero. Veio a obsessão. Parei de sair, parei de beber, parei de viver como meus amigos viviam. Troquei festas por treinos. Madrugadas por leituras.
Um garoto que nunca gostou de estudar passou a ficar horas em fóruns de musculação, comprando livros de anatomia, biomecânica, fisiologia. Eu queria entender tudo. Queria ir fundo. Queria controle.
Não era equilíbrio. Era fuga também. Hoje eu sei disso. Mas, naquele momento, foi ali que nasceu algo fundamental: a disciplina como âncora
Pela primeira vez, eu tinha algo que organizava meus dias, minhas escolhas e até meus pensamentos. A disciplina virou o eixo em torno do qual tudo começou a girar.
Pouca gente fala sobre isso, mas disciplina isola. Enquanto meus amigos estavam vivendo a adolescência “normal”, eu estava contando refeições, planejando treinos e dizendo não o tempo todo.
Eu me sentia diferente e, muitas vezes, sozinho. Existia orgulho, mas também existia dúvida. Será que eu estava indo longe demais? Será que estava abrindo mão de coisas que nunca mais voltariam?
Eu me comparava demais. Queria resultado rápido. Errava muito. Fiz dietas extremas sem necessidade, treinei errado, ignorei sinais do corpo. Achava que sofrer mais significava evoluir mais. Que quanto mais difícil, melhor. E isso nem sempre é verdade
Nem sempre mais dor significa mais crescimento.
Com 16 anos, decidi competir. Me preparei sozinho, sem treinador, errando bastante. Mesmo assim, fiquei em 5º lugar entre 70 atletas e fui vice-campeão paulista.
Aquilo fez bem para mim. Me senti vivo como nunca antes. Mas, ao mesmo tempo, escancarou algo importante: eu tinha resultado, mas não tinha estrutura. Eu estava indo longe, mas sem mapa.
Aos 17 anos, eu já era bicampeão overall da Expo Nutrition. Tinha títulos, patrocínios, visibilidade. Muita gente me via como “promessa”, “fenômeno”, “fora da curva”. Por fora, tudo parecia muito sólido. Por dentro, eu me sentia pequeno. Inseguro. Com medo de não sustentar aquilo.
O esporte cobra caro de quem sobe rápido demais. E eu sentia isso todos os dias. A pressão aumentava. A cobrança interna também. Eu tinha medo de decepcionar. Medo de cair. Medo de perder um lugar que eu mal tinha aprendido a ocupar. Era como estar em cima de algo grande demais, sem saber exatamente como cheguei ali.
Foi nesse momento que tomei uma decisão que poucos entenderam: parar no auge para estudar
Parar não foi bonito. Não foi libertador. Foi doloroso. Foi confuso. Eu senti como se estivesse abandonando uma versão de mim que tinha dado certo. Enquanto muita gente achava que eu estava “jogando tudo fora”, eu estava tentando me salvar de mim mesmo.
Entrei na faculdade, mudei de área, recomecei do zero. Pela primeira vez, eu não era destaque. Não era referência. Não era o cara que todos olhavam. Era só mais um aluno.
E foi ali que algo começou a se organizar de verdade.
Quando comecei a atender, já formado, entendi algo que mudou tudo: as pessoas não chegam pelo mesmo motivo, mas ficam pelo mesmo resultado. Elas vêm pelo corpo. Pela estética. Pelo “projeto verão”. Mas permanecem quando percebem que estão aprendendo a viver melhor.
Vejo isso todos os dias. Pessoas que recuperam autoestima. Que voltam a ter energia. Que se olham no espelho sem vergonha. Que aprendem a dizer não. Que criam rotina. Que passam a se respeitar
E isso não tem nada de glamouroso. Tem recaída. Tem semana ruim. Tem frustração. O processo real não é instagramável, ele é repetitivo, silencioso e exige constância.
Transformar-se cansa. Dói. Dá medo. Exige abrir mão de versões antigas de si mesmo. Exige enfrentar hábitos que serviam como muleta emocional. Muita gente desiste não porque é fraca, mas porque não estava preparada para o desconforto de mudar.
A musculação e a nutrição não me deram só um físico. Me deram estrutura mental. Me ensinaram a fazer o que precisa ser feito mesmo quando não é confortável. Isso transbordou para tudo: trabalho, relações, escolhas, forma de viver
Hoje, tenho uma carreira sólida, agenda cheia, reconhecimento. Mas continuo sentindo medo. Medo de errar. Medo de acomodar. Medo de perder a essência. A diferença é que hoje eu sei conviver com isso. Não tento eliminar o medo, aprendi a caminhar com ele.
Aprendi que disciplina não é rigidez. É compromisso. Que constância vale mais do que intensidade. Que equilíbrio não é relaxamento, é inteligência.
Meu sonho não é mais palco. É impacto. É alcançar mais pessoas. É formar profissionais melhores. É mostrar que estética pode ser porta de entrada, mas nunca o fim.
Se eu puder deixar algo pra quem está lendo isso, é simples: você não precisa saber exatamente onde quer chegar. Mas precisa decidir, hoje, quem você não quer mais ser
O resto se constrói. Um treino. Uma refeição. Um dia de cada vez.
Vinicius Benatti é nutricionista esportivo, empresário e seis vezes campeão de Men’s Physique. Seu propósito é transformar vidas por meio da disciplina, da nutrição e de um estilo de vida saudável.
Elaine Asato trabalhava em uma multinacional, até que um dia começou a enfrentar problemas de visão. Ela conta como transformou esse desafio em superação e construiu uma nova carreira na área de desenvolvimento humano.
Isabela Marques cursou Educação Física e fez mestrado em Engenharia Elétrica antes de se encontrar no empreendedorismo. Ela conta sua história e como cofundou a Reabnet, que combina IA e jogos para tornar a reabilitação física mais acessível.
Claudia Issa só foi se reconhecer como portadora do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade já na idade adulta. Ela conta como transformou sua inquietação constante em um ativo e hoje divide seu tempo entre a cerâmica e a pintura.
