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“A Economia Extrativista da Atenção vai além da monetização. Cria dependência, manipula hábitos e altera a química do cérebro” 

Kim Loeb - 19 dez 2023
Kim Loeb, cofundador do Um Minuto de Sua Atenção.
Kim Loeb - 19 dez 2023
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Há um tempo eu tenho um incômodo com o que eu chamava de “mundo barulhento” e a quantidade exorbitante de distrações e interrupções no nosso dia a dia.

Isso era, a princípio, um incômodo pessoal, mas não custou a perceber que se trata de uma epidemia mundial. A situação fica ainda mais nítida especialmente quando vemos dados sobre ansiedade e aumento de diagnósticos de déficit de atenção

A questão se pauta em torno de um recurso que acredito ser possivelmente o mais importante na nossa humanidade: a atenção

A qualidade de nossa vida é a qualidade de nossa atenção. Nossa atenção é o que determina o uso de nosso tempo e molda nossa realidade.

Para aprender, precisamos prestar atenção; para amar, precisamos ser atenciosos; para nos cuidarmos e sermos saudáveis, precisamos estar atentos.

ATENÇÃO — RECURSO VITAL E COMMODITY VALIOSA

A atenção também é uma “mercadoria” disputada. Publicitários, políticos, professores, líderes religiosos, jornalistas, cineastas, artistas, escritores (eu, aqui, agora)… a lista continua entre aqueles que precisam do seu tempo como influência e, portanto, moeda.

A questão hoje é que o mercado de captura e revenda de atenção está ficando tão evoluído que vivemos apenas o início de consequências que podem acabar sendo catastróficas a nós como indivíduos e sociedade.

“Na verdade, não permitimos o uso do iPad em casa. A gente acredita que é muito perigoso para elas (nossas crianças) de fato.”

“Nós criamos ferramentas que estão rompendo o tecido social de como a sociedade funciona… Estão corroendo as bases fundamentais de como as pessoas se comportam consigo e entre si (…) Você está sendo programado.”

“Através, por exemplo, de ciclos de feedback de validação social estamos explorando uma vulnerabilidade na psicologia humana”

As frases acima foram ditas respectivamente por: Steve Jobs, ex-CEO da Apple; Chamath Palihapitiya, ex-VP de user growth do Facebook; Sean Parker, ex-presidente fundador do Facebook.

A questão começa a ser mais suspeita quando vemos os próprios executivos do Vale do Silício, aqueles que ganham milhões para espalhar seus produtos pelo mundo, proibindo o uso dos mesmos produtos com os próprios filhos

Antes de introduzir o conceito central do problema: a economia extrativista da atenção, eu queria oferecer um momento de respiro e reflexão ao leitor: você sente a sua atenção esfarelada e apressada no dia a dia?

EXTRATIVISMO DE ATENÇÃO

A Economia da Atenção (Attention Economy) se trata grosseiramente do mercado que se sustenta pela influência que exerce através da atenção, frequentemente financiado através de anúncios: mídia, livros, rádios, jornais, revistas, outdoors, canais de televisão, cinema, publicitários e departamento de marketing…

Não argumento aqui que há algo intrinsecamente errado com este mercado, afinal, há muito valor na difusão de ideias e informações e nada mais natural que tentar vender o seu peixe.

No entanto, este mercado está evoluindo a tal ponto que começa a ser chamado de Economia Extrativista da Atenção (Extractive Attention Economy). A questão é o “extrativista”, ou seja, quando os players têm meios e dados necessários para interromper o seu dia ou até manipular certos comportamentos para induzir a atenção de forma mais perniciosa.

Como diz Sandy Parakilas, ex-funcionário do Facebook: “O modelo de negócios é sugar o máximo de seu tempo e vender a anunciantes”. A métrica ideal a ser maximizada de muitas destas plataformas é justamente “tempo de tela”

A partir do momento que há automatização de incontáveis testes A/B, personalização de experiência, anúncios de micro segmentação, machine learning, IA e poderosos algoritmos otimizados para engajamento e retenção, chegamos a um ponto no qual as máquinas operam e trazem “soluções” que nem mesmo os cientistas que as criaram conseguem entender

Neste contexto, estas “soluções” seriam referentes a manter pessoas imersas nas telas pelo máximo de tempo possível ou induzi-las ao consumo.

Nós não estamos competindo pela nossa atenção contra somente um time de engenheiros, programadores, neurocientistas, designers, doutores, MBAs, PhDs… Estamos competindo sozinhos contra todos estes e mais ainda bilhões de dólares investidos em tecnologia avançada e algoritmos poderosos que se otimizam quase que autonomamente.

É neste contexto que vivemos hoje com a Economia Extrativista da Atenção. Uma extração tão desenvolvida que vai além de monetizar a atenção, ela cria dependência, manipula hábitos e até altera a química do cérebro

Além do mais, enquanto a tecnologia avança em ritmo exponencial, nossos cérebros ainda são essencialmente os mesmos desde que saímos das cavernas.

Nossa vulnerabilidade aumenta com o avançar da tecnologia. As redes sociais nem eram possibilidade há poucas décadas, hoje possivelmente elas sabem mais de você do que você mesmo

A discussão é profunda, vai muito além das telas e tecnologia (que, no fim das contas, tratam-se apenas de ferramentas). Uma citação que chega ao cerne da questão é de Justin Rosenstein, ex-engenheiro do Facebook: 

“Vivemos num mundo onde uma árvore vale mais, financeiramente, morta do que viva. Num mundo onde uma baleia vale mais morta do que viva. Nós somos a árvore, nós somos a baleia. Nossa atenção pode ser minada. Nós valemos mais para uma empresa se estamos passando nosso tempo olhando para uma tela, para um anúncio, do que se estivermos vivendo nossa vida de forma rica.”

Se a tecnologia continuar a ser otimizada com objetivos como “maximizar tempo de tela”, quais serão as consequências para nós? 

REBAIXAMENTO HUMANO

Assim como os recursos naturais do planeta vêm sendo extraídos em ritmo insustentável, levando a catástrofes globais chamadas de mudança climática, na Economia Extrativista da Atenção, nossa atenção é o recurso vital da humanidade que vem sendo extraído em ritmo insustentável causando o que chamamos de rebaixamento humano.

O rebaixamento humano contempla uma série de consequências que sofremos em escala individual e global relacionadas à Economia Extrativista da Atenção.

Muito além da atenção esfarelada, estão questões ligadas à queda de índices de desenvolvimento infantil, aumento da ansiedade, depressão, problemas de autoimagem, desinformação, radicalização e polarização

Você pode encontrar uma série de estudos e evidências no site do Um Minuto de Sua Atenção (ou para uma lista mais completa em inglês, recomendamos no site do Center for Humane Technology).

“O que pagamos quando pagamos com nossa atenção? Pagamos com todas as vidas que poderíamos ter vivido, mas não viveremos” — James Williams, filósofo e ex-estrategista de anúncios da Google.

AQUI, AGORA

Nossa vida, mais do que medida em tempo, é medida na qualidade e onde é alocada a nossa atenção.

A consciência sobre como usamos esse recurso é o resgate da vida. A sua alocação, impensada ou manipulada por terceiros, é o seu desperdício. 

O projeto Um Minuto de Sua Atenção, do qual sou cofundador, visa ampliar a discussão sobre a sustentabilidade no mercado da atenção, lutando contra o extrativismo de atenção para frear o rebaixamento humano. Fazemos isso através da produção de conteúdo sobre o tema.

Afinal, o silêncio e a reflexão não se realizarão através de um silêncio próprio. É preciso fazer um ruído que clama por pausa, uma provocação, um convite para reflexão e quem sabe assim o silêncio possa ser cultivado individualmente

A reflexão não se cria a partir de um vácuo — a reflexão precisa ser promovida, provocada, compartilhada.

Espero que este artigo possa ajudar. 

Obrigado por sua atenção.

 

Kim Loeb é cofundador do Um Minuto de Sua Atenção, iniciativa idealizada pela Maun Studio, produtora de conteúdo com projetos premiados na discussão de como a atenção pode ser cultivada de forma positiva. 

 

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