Até as igrejas precisam se digitalizar. Como dois fiéis criaram a inChurch, solução tecnológica para organizações religiosas

Dani Rosolen - 28 jul 2021
Pedro (à esq.) e Sydney, fundadores da inChurch.
Dani Rosolen - 28 jul 2021
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Se hoje tudo se resume ao mundo digital, por que com as igrejas seria diferente? Sim, as organizações religiosas também precisam se adaptar aos novos contextos para continuar a cativar e manter a proximidade com os fiéis.

Foi observando o dia a dia da igreja evangélica que frequentam, a Sara Nossa Terra, no Rio de Janeiro, que Pedro Franco, 36, e Sydney de Menezes, 41, tiveram a ideia de criar a inChurch, uma solução tecnológica de comunicação, engajamento e gestão de organizações religiosas cristãs.

A Covid-19, diz Pedro, vem acelerando a transformação digital do setor:

“As igrejas, principalmente na pandemia, reforçaram muito sua atuação nas redes sociais. Isso é ótimo e importante. No entanto, a gente brinca que não vale construir sua casa em ‘terreno alugado’ — ou seja, se relacionar apenas pelas redes sociais sem ter um canal proprietário”

A inChurch oferece às igrejas esse “canal proprietário”: aplicativos personalizados para cada comunidade acompanhar notícias, assistir a vídeos, consultar a agenda de programações, se inscrever em eventos, baixar apostilas e materiais educativos, solicitar orações e acessar a Bíblia em formato digital. 

Dependendo do contrato, os clientes ainda têm acesso a websites customizados e totens de autoatendimento que auxiliam na realização de inscrições para eventos, doações e demais funcionalidades.

A startup se intitula a maior do segmento religioso. Conta hoje com 700 mil usuários cadastrados e mais de 870 denominações cristãs como clientes, que somam 30 mil igrejas (a maioria evangélica) no Brasil e em mais 16 países, entre eles Alemanha, Angola, Canadá, Estados Unidos, Irlanda e Japão.

MEMBROS DA MESMA IGREJA, ELES VIRARAM SÓCIOS NUMA AGÊNCIA DE PUBLICIDADE

Pedro e Sydney são publicitários de formação, mas sempre exibiram espírito empreendedor. O primeiro teve uma empresa de suplementos nutricionais; Sydney participou ativamente do Instituto Gênesis, centro de inovação e empreendedorismo da PUC-Rio. 

De conhecidos na igreja, eles viraram amigos e sócios em uma agência fundada por Sydney. Mas a dupla foi percebendo que o mercado de publicidade estava mudando drasticamente, com a desvalorização do processo criativo.

Resolveram investir em uma iniciativa diferente — que cuidasse da comunicação dos clientes trabalhando com success fee e a oportunidade de desenvolver novos negócios. Assim nasceu a YBank Business, em 2012. Sydney afirma:

“Era uma espécie de banco de oportunidade de negócios. Basicamente, a gente montou uma aceleradora sem saber o que era isso. Chamávamos de potencializadora de negócios”

Quando deram início a essa nova empresa, começaram a se envolver cada vez mais com ideias de negócios próprios. A primeira startup que desenvolveram foi a EasyControl, tecnologia de controle de acesso a eventos através de um chip usando informações pessoais, fotos e outros dados personalizáveis.

“Criamos a operação e logo vendemos a plataforma para a rede de franquia de eventos Imprimix”, diz Pedro. “O sistema foi inclusive utilizado na última edição do Rock in Rio.”

O PROJETO SEGUINTE DOS EMPREENDEDORES FOI UM MARKETPLACE DE MOTOBOYS

Na sequência, junto com um terceiro sócio, o alemão Patrick Wegener, a dupla tirou do papel o EasyDelivery, um marketplace de motoboys. 

Eles contam que na mesma época nasceu o Loggi, em São Paulo; paralelamente, o grupo Movile criava o que viria a ser o iFood. 

Mesmo diante da concorrência, o EasyDelivery ia bem no mercado. Pedro lembra:

“Chegamos a ter mais de 1 500 motoboys cadastrados e atendemos mais de 4 mil empresas no Rio”

A empresa, porém, seguia no esquema bootstrapping. Enquanto isso, os projetos concorrentes estavam se capitalizando a todo vapor, com rodadas robustas de investimento…

Pedro e Sydney dizem que tiveram dificuldade de captar aportes e encontrar fundos com propostas que os interessassem. Assim, decidiram mais uma vez se desfazer de um negócio.

UM GUIA DIGITAL DE SERVIÇOS INSPIROU A GÊNESE DA INCHURCH

O caminho livre abriu portas para um novo empreendimento. Na época, 2013, descobriram que o pastor da igreja deles enfrentava dificuldades para conectar os membros da comunidade.

“O que existia era uma caixa de acrílico na administração da igreja, onde as pessoas colocavam seus cartões de visita para oferecer seus produtos e serviços”, diz Pedro.

Ele conta que a dupla viu ali uma oportunidade de criar uma espécie de guia na internet para conectar as pessoas próximas da mesma comunidade:

“Funcionava como uma espécie de Yelp ou Apontador, em que o usuário poderia dar preferência a alguém da mesma comunidade. Por exemplo, se eu buscasse um advogado, o sistema me indicaria primeiro um profissional da minha igreja — e, depois, se não encontrasse, mostraria outros”

O guia foi batizado de Inradar. Eles perceberam que a plataforma poderia transcender a comunidade cristã e resolveram segmentar em cinco grupos (evangélicos, católicos, judeus, negócios sustentáveis e negócios de luxo).

O Inradar, porém, se mostrou de fato mais efetivo para as comunidades religiosas, crescendo rapidamente em adesão. Logo, 2 mil igrejas utilizavam o sistema. 

COMO MANTER AS IGREJAS CONECTADAS COM OS FIÉIS APÓS O CULTO?

A partir dessa constatação, os empreendedores resolveram pivotar o Inradar para o que é hoje a inChurch — um sistema que entrega interfaces personalizadas para igrejas, ajudando as organizações religiosas a administrar a relação com seus membros, as doações e finanças, os eventos etc. 

Pedro conta como se deu o insight:

“Vimos a partir daquela demanda que o momento para engajar os fiéis era durante o culto… Mas e depois? Como as igrejas podiam permanecer conectadas com o público? Existiam cerca de 200 sistemas de gestão para igrejas, mas nada muito robusto ou profissional”

Os primeiros apps da inChurch começaram a rodar em 2017. “Cuidamos da parte financeira, destacando a questão da transparência”, diz Pedro. “A pessoa que colaborou tem um histórico no app, detalhando se a doação era para o dízimo, uma missão, um evento ou uma ação especial.”

O empreendedor explica que há também uma parte de gestão das pessoas, com uma análise de perfil que ajuda a entender o momento de vida daquele usuário; e outra de gestão de conteúdo, com notificações por push e segmentação de público. 

“A plataforma não é estática. Dependendo do perfil do usuário dentro da igreja que frequenta, ele vai ter experiências únicas e relevantes.”

O SISTEMA DE RESERVAS DE INGRESSOS AJUDA A EVITAR AGLOMERAÇÕES

Com a integração dos sistemas, as igrejas têm acesso a um painel de controle que mostra, por exemplo, quantas pessoas se inscreveram em um evento pelo app, pelo totem de autoatendimento, pelo link postado no Facebook ou pelo site. 

“Isso acontece da mesma forma com as doações e a parte de gestão de pessoas: os dados estão todos integrados”, afirma Sydney. 

Falando ainda em eventos, o sistema permite que os fiéis comprem ou reservem ingressos por meio de uma ticketeira dentro do seu app:

“Geralmente, depois que terminava o culto, as pessoas tinham que ir até a secretaria e enfrentar fila para pegar um ingresso. Às vezes, estavam com um convidado ou com horário apertado para voltar para casa. Com o app, simplificamos isso”

Na pandemia, com o distanciamento social, conta o empreendedor, algumas igrejas adotaram o sistema para a reserva de lugares no culto, evitando aglomerações.

UMA DAS IGREJAS CLIENTES AUMENTOU SUA AUDIÊNCIA EM 13 000%

Hoje, o modelo de negócio da inChurch é white label. Para criar um aplicativo simples, sem personalização, uma organização paga uma taxa mensal de 49,90 reais mensais, mais 49,90 pelo site. Conforme a plataforma é personalizada, o valor aumenta.

Um dos clientes da startup é a igreja batista Lagoinha. A princípio, a inChurch atendia apenas a sede, em Belo Horizonte, e algumas “igrejas filhas”. No final das contas, a organização gostou tanto do sistema, segundo os sócios da InChurch, que ele se tornou a sua plataforma oficial, atendendo 400 igrejas.

Sydney cita outro case de sucesso: o da igreja Sara Nossa Terra, de Brasília, que começou a usar uma tecnologia de integração exclusiva de streaming da inChurch, a qual permite a multiplicação das lives nas redes sociais.

“Em 28 dias de uso dessa tecnologia, eles alcançaram, só no Facebook de um dos bispos, quase 23 milhões de pessoas — uma audiência de TV”

Ainda segundo o empreendedor, o crescimento da audiência da igreja brasiliense por meio do uso do sistema foi de estratosféricos 13 000%.

A receita da inChurch também explodiu, e vem crescendo 1 000% desde 2019, segundo os empreendedores. Um resultado decorrente, eles dizem, da necessidade das igrejas se digitalizarem em meio ao distanciamento social.

UM NOVO PILAR DE EDUCAÇÃO FOI CRIADO NA ESTEIRA DA COVID-19

Muitas organizações religiosas nunca tinham experimentado o digital antes da Covid-19 — e se viram de repente obrigadas a entrar nesse mundo para não fechar as portas.

Nesse contexto, a startup criou um pilar de educação. “Montamos cursos e treinamentos para ajudar as igrejas a usarem melhor a tecnologia”, diz Pedro. “Desde como ter alguém que entenda minimamente de Photoshop para criar artes, até questões como comunicação e liderança.”

A inChurch começou ainda a oferecer às organizações religiosas um curso de mudança de mindset chamado “Liderando a Igreja do Futuro”. Segundo Sydney:

“Neste curso, vamos falar sobre desde blockchain até inteligência artificial, para mostrar às igrejas que o mundo se transformou. A questão doutrinária permanece a mesma, é de cada organização, mas o contexto mudou — e muitas vezes os líderes da igreja não percebem”

Para coordenar essa vertical, os sócios trouxeram para o time o espanhol Javier Casademunt, diretor e professor associado da ESADE Business School, de Barcelona. “Ele também é cristão e entende as dores desse segmento”, diz Pedro.

A startup já vem encorpando a equipe há um tempo. “Tivemos que criar uma cultura, trazer aquilo que a gente vivia com cinco a dez pessoas para um time que hoje contempla 100 colaboradores.”

BENDITA TEIMOSIA: ELES IGNORARAM OS APELOS PARA QUE DESISTISSEM DO NEGÓCIO

Desde a fase da Inradar, os fundadores investiram cerca de 300 mil reais. Demorou um pouco para que o negócio desse retorno. Pedro conta que, no tempo das “vacas magras”, amigos e parentes tentaram convencê-los a desistir:

“Cheguei a ouvir que era melhor largar o negócio para ‘lavar sofá’.. Não era maldade das pessoas. Elas só não entendiam o que a gente fazia”

A dupla ficou meses sem tirar um centavo da startup. Até que, no fim de 2018, veio o aporte salvador: 3 milhões de reais por meio de Pedro Moll, board member da Rede D’Or São Luiz. 

Em 2020, a inChurch captou outros 5 milhões de reais numa rodada liderada pelo Smart Money Ventures. Também no ano passado, foi escolhida pela Endeavor para integrar o Programa Scale-Up. “Isso mostra o potencial do mercado”, afirma Sydney.

Agora, eles querem expandir para além dos países onde a empresa já opera (por meio de filiais das igrejas brasileiras clientes). Antes, porém, planejam aprimorar a funcionalidade de pagamentos para que a inChurch passe a processar outras moedas.

Pedro e Sydney também prometem novidades na área de educação. O que não deve mudar é a missão da startup: ajudar mais igrejas a se converterem — sem trocadilho — ao digital.

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DRAFT CARD

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  • Projeto: inChurch
  • O que faz: Aplicativos e tecnologia para igrejas
  • Sócio(s): Pedro Franco e Sydney de Menezes
  • Funcionários: 100
  • Sede: Rio de Janeiro
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: R$ 300 mil
  • Faturamento: Não informado
  • Contato: [email protected]
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