Tem mais de 50 anos e foi demitido? Você não está sozinho. A Maturi atua na valorização e recolocação dos profissionais maduros

Dani Rosolen - 24 ago 2020
Mórris Litvak, fundador da Maturi, se inspirou no exemplo da avó para empreender.
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Entre tantas outras consequências negativas, a pandemia também pode estar acirrando o preconceito etário, ou ageísmo.

No primeiro semestre de 2020, foram demitidos 65 mil profissionais com mais de 65 anos, alta de 25% em comparação ao mesmo período de 2019, segundo levantamento do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados.

Na faixa dos 50 aos 64 anos, foram 756 mil demissões (alta de 9%); em comparação, as demissões entre jovens de 25 a 29 subiram só 2,3%.

Para Mórris Litvak, 37, fundador da Maturi, o fator “grupo de risco” — aliado ao corte nas empresas de trabalhadores com mais tempo de casa (geralmente os mais velhos e com maiores salários) — vem influenciando os tomadores de decisão.

“Podemos estar dando alguns passos para trás com relação a uma evolução que era lenta, mas vinha acontecendo, de o mercado olhar para essas pessoas [maduras]”

Sua startup busca reinserir os maduros 50+ no mercado de trabalho, oferecendo aperfeiçoamento (profissional e pessoal) e conscientizando as empresas sobre a importância da diversidade etária.

A AVÓ FOI UMA INSPIRAÇÃO PARA TRABALHAR COM O PÚBLICO MADURO

Mórris fundou a Maturi em 2015, então com o nome de MaturiJobs (ele rebatizou a empresa já em 2020, entendendo que o negócio oferecia mais do que vagas de emprego).

Seu interesse pelo tema da longevidade foi se aprofundando ao longo dos anos. Uma inspiração foi a avó, dona Keila, que trabalhou até os 82 anos como secretária e tradutora de uma importadora:

“Todo dia, ela pegava ônibus e metrô para chegar ao trabalho. Só que, um dia, a caminho, caiu na calçada e se machucou. Não quebrou nada, mas houve um impacto visual no rosto — e ela resolveu parar de trabalhar de um dia para o outro”

O neto viu a saúde da avó decair após sua aposentadoria. “Ela desenvolveu Alzheimer e faleceu em 2013, com 91 anos.”

Esse exemplo em família se somou ao contato com outros idosos num trabalho voluntário em 2011, junto à Liga Solidária, e levou Mórris a querer se inteirar mais sobre a questão.

CONVERSAS COM IDOSOS RECÉM-DEMITIDOS COMOVERAM O EMPREENDEDOR

Então prestes a vender uma empresa de tecnologia que mantinha com o pai, ele passou a estudar empreendedorismo de impacto e participar de iniciativas que envolvessem o público maduro. 

Em 2015, enquanto a crise política e econômica se aprofundava, Mórris conversou com idosos recém-demitidos. E diz que aquilo mexeu com ele:

“Essas pessoas estavam ficando deprimidas e doentes… E me lembraram a história da minha avó. Só que elas eram mais novas, não tinham nem 60 anos e ainda não eram aposentadas. Fui pesquisar e vi que faltavam iniciativas para ajudá-las a encontrar trabalho”

Ele identificou ali uma oportunidade de negócio social. Sem investimento inicial, contou com suas economias durante um ano e meio, até que o negócio começasse a gerar receita. Foi só em 2019 que a empresa recebeu um aporte de 300 mil reais do fundo Kaleydos e de dois investidores-anjos.

COMO SENSIBILIZAR AS EMPRESAS SOBRE A IMPORTÂNCIA DOS MADUROS

Hoje, a Maturi tem 1 100 empresas e 150 mil pessoas maduras cadastradas em sua plataforma. O empreendedor conta que, até aqui, a startup intermediou cerca de 1 500 contratações (a maioria para cargos operacionais).

O público não paga para pesquisar vagas. A idade média dos usuários que acessam a plataforma é 58 anos; apenas 30% são aposentados. 

As empresas que anunciam contratam pacotes entre 200 e 800 reais (dependendo do número de vagas e filtros selecionados) e também podem recorrer à Maturi para serviços de consultoria e seleção.

Para engajar empresas a admitir profissionais maduros, diz, é preciso conscientizá-las:

“Fazemos palestras para mostrar a importância social e estratégica: colaboradores 50+ trazem diversidade ao time e trocas intergeracionais. Além disso, eles ajudam a empresa a se comunicar melhor com esse público consumidor — que será cada dia maior”

Mórris também destaca a experiência e o comprometimento dos mais velhos como pontos positivos desses profissionais. E cita um estudo da PwC, segundo o qual, em 2040, 57% da força de trabalho do Brasil terá mais de 45 anos. 

“As empresas precisam estar preparadas para essa inversão da pirâmide etária. A força de trabalho será cada dia mais velha.”

 UMA NOVA PLATAFORMA ESTIMULA OS MADUROS A ATUAR COMO AUTÔNOMOS

Mórris sabe que, mesmo conscientizando as empresas, o número de vagas ofertadas ainda é escasso. E a tendência é que isso piore (não só para os maduros).

Por isso, a Maturi incentiva esse público a empreender. Há seis meses, a startup disponibilizou uma plataforma de freelancers, a MaturiServices, para que os 50+ ofereçam seus serviços para empresas ou outras pessoas, de forma pontual.

“Há algum tempo a gente entende que a saída para boa parte dessas pessoas será empreender e trabalhar como autônomo. Ainda mais agora, com a pandemia”

Hoje a ferramenta é gratuita; a ideia é testar, adiante, um modelo em que o público maduro pague uma comissão por cada serviço contratado pela plataforma.

Por enquanto, diz, a fase é de entender melhor o tipo de serviços oferecidos pelos profissionais. “Até o fim do ano vamos começar a divulgar melhor e trazer possíveis clientes.”

A PANDEMIA OBRIGOU A EMPRESA A LEVAR SEU EVENTO PARA O DIGITAL

No início da pandemia, a procura dos clientes caiu 80%, diz Mórris. Desanimar não era uma opção. Nesse novo cenário, a empresa se mobilizou para realizar, em julho, de forma online, o MaturiFest, seu evento sobre trabalho e empreendedorismo para o público 50+.

Segundo o empreendedor, o resultado surpreendeu. Na versão presencial, eram esperadas mil pessoas em São Paulo. Com a mudança para digital, foram 8,5 mil inscritos para 50 palestras e 25 horas de transmissão ao vivo nos quatro dias do evento.

A empresa aproveitou a ocasião para lançar a MaturiAcademy, uma plataforma de conteúdos sobre carreira e empreendedorismo para o público 50+, com vídeos sobre autoconhecimento, tecnologia, storytelling e recolocação, por exemplo.

Ao se inscrever no MaturiFest, os participantes automaticamente ganhavam acesso à MaturiAcademy. Por enquanto, tudo está aberto de forma gratuita. 

“A ideia é que empresas possam oferecer a MaturiAcademy como benefício corporativo para funcionários que estão perto de se aposentar, para prepará-los para uma nova fase da vida e da carreira” 

Mórris ainda vislumbra vender assinaturas para o consumidor final. Por enquanto, o foco é abastecer a plataforma com mais conteúdos, inclusive cursos ao vivo (o empreendedor está  ministrando aulas sobre ferramentas tecnológicas). 

UMA PESQUISA PARA ENTENDER A REAÇÃO DO PÚBLICO MADURO À PANDEMIA

Em maio, uma pesquisa da Maturi coletou respostas de 4 200 pessoas maduras sobre os impactos (psicológicos e financeiros, por exemplo) da pandemia sobre esse público.

Segundo a empresa, 77% estavam saindo de casa apenas para tarefas como compras de supermercado e farmácia. Outros 12% não colocavam o pé na rua em hipótese alguma, 9% seguiam trabalhando em escritórios e só 2% saíam de casa para atividades não essenciais.

Saudade (43%) e ansiedade (41%) foram dois sentimentos apontados pelos respondentes. A maioria (67%) se disse mais cuidadosa com a saúde, enquanto 19% manifestaram medo. Apenas 5%, porém, se disseram depressivos. 

Ainda segundo a pesquisa, a Covid-19 vem impactando negativamente as finanças de 53% do grupo. Entre as estratégias para dar conta do momento, essas pessoas vêm reduzindo gastos (60%), procurando emprego (30%), recorrendo à poupança (26%), renegociando dívidas (20%) e começando o seu próprio negócio (13%).

Como as pessoas acima de 60 anos percebem a expressão “grupo de risco” — e a sua inclusão no mesmo? Foram 4 052 respostas. Para 60%, o critério faz sentido; outros 39% discordaram, afirmando que, mais do que a idade, é o comportamento de risco que deveria ser levado em conta.

VIDA PÓS-CARREIRA NÃO SIGNIFICA NECESSARIAMENTE PARAR DE TRABALHAR

Das 11 pessoas que compõem o time da Maturi, cinco são 50+. Mórris acredita que aposentar-se em definitivo será algo cada vez mais raro, seja por falta de condições financeiras ou pelo desejo de se manter ativo.

“A gente fala muito da vida pós-carreira e fora do mundo corporativo, mas isso não é necessariamente parar [de trabalhar]”, diz Mórris. 

Seguir trabalhando não significa que não se possa reduzir o ritmo. Mas como se preparar para esse momento? A indicação é que a pessoa se planeje financeiramente para uma vida longeva, sabendo que precisará se desapegar talvez de alguns luxos.

“Também recomendamos que se tenha um plano B antes de chegar nessa fase — talvez um hobby”, diz Mórris. “Além disso, é importante ter uma rede de contatos: não só de networking profissional, mas de amigos. E claro, se manter curioso, aprendendo coisas novas e em contato com outras gerações.”

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Maturi
  • O que faz: Plataforma de oportunidades de trabalho e desenvolvimento para pessoas 50+
  • Sócio(s): Mórris Litvak
  • Funcionários: 12 (com o sócio)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2015
  • Investimento inicial: Não teve
  • Contato: [email protected]
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