A morte é inevitável. Mas dá para evitar um bocado de dor de cabeça para quem fica. Essa é a proposta da Janno

Dani Rosolen - 2 jul 2020 Com a Janno, Layla e Uri decidiram empreender em um mercado ainda pouco explorado no Brasil, o da finitude.
Com a Janno, Layla e Uri decidiram empreender em um mercado ainda pouco explorado no Brasil, o da finitude.
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O fim da vida ainda é um tabu para 70% dos brasileiros. E atualmente, por mais que a gente queira, tornou-se impossível evitar o assunto. Os números das vítimas fatais da Covid-19 estão lá, todos os dias na TV, nos sites, nas rádios e nos fazem lembrar que a morte pode vir sem anúncio prévio. E que, mais do que nunca, precisamos aprender a falar sobre a finitude.

O dado acima, sobre a porcentagem de pessoas que têm receio de falar sobre a morte, faz parte da pesquisa Plano de Vida & Legado, divulgada em março pela Janno, primeira plataforma brasileira para apoiar pessoas com mais de 50 anos no planejamento de final de vida, garantindo a dignidade e independência da pessoa até os últimos dias.

A startup é o novo empreendimento de Layla Vallias, também cofundadora da Hype60+. Além de estudar desde 2015 a longevidade, ela começou a mergulhar no tema da finitude (um mercado hoje avaliado em 7 bilhões de reais ao ano no Brasil, segundo o Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil – Sincep).

No ano passado, a empreendedora viajou ao Japão, país com a população mais velha do mundo, para conhecer os negócios que ajudam os maduros por lá. E na volta, se uniu ao engenheiro Uri Levin, que também vinha estudando o assunto. Juntos, os sócios começaram a validar a proposta da Janno, lançada em dezembro.

A IDEIA INICIAL ERA AJUDAR AS PESSOAS NO PÓS-APOSENTADORIA

Quando começaram a tomar cafezinhos para discutir os rumos do novo negócio, Layla conta que ela e o sócio chegaram à conclusão de que deveriam criar uma plataforma que reorganizasse as finanças dos recém-aposentados pensando na longevidade. A cofundadora comenta:

“Se a gente está vivendo tanto tempo, a parte financeira também tem que ser longeva. Percebemos que uma das grandes dores da longevidade é que envelhecer é caro”

Os empreendedores já tinham percebido isso pela própria experiência familiar. “Em 2015, meu pai resolveu se aposentar e estava sofrendo por tudo o que viveria a partir de então. Ele não tinha se planejado emocionalmente, financeiramente e espiritualmente para viver tanto tempo. O avô do Uri também passou por uma situação parecida.”

Alguns detalhes trazidos posteriormente pela pesquisa da Janno reforçaram a validade da proposta. Um dos dados mostra que os brasileiros 45+ começam a se planejar financeiramente para o envelhecimento apenas mais perto da aposentadoria. Um dos maiores medos de 83% dos entrevistados é depender fisicamente de outras pessoas ao envelhecer, sendo que 78% também têm medo de depender financeiramente dos outros.

Mesmo com essas comprovações, depois de uma série de entrevistas, os sócios perceberam que os potenciais usuários não tinham interesse na proposta. “Apesar de admitirem que precisam de ajuda, vimos que os maduros estavam menos abertos a comprar um produto com esse finalidade, pois até por necessidade, passavam a gastar menos.”

O FOCO PASSOU A SER O FIM DA VIDA

Por outro lado, as conversas com os potenciais usuários apontaram outro caminho. Eles descobriram que a fase em que mais se perde dinheiro na maturidade é no fim da vida, com plano funeral e inventário, por exemplo. Foi nesse nicho que decidiram concentrar a atenção.

A dupla desenvolveu uma plataforma que guia o usuário no planejamento da finitude, desde a organização online dos documentos básicos (como certidões, testamento vital, apólices e contas digitais) ao legado (quais seus aprendizados, lembranças e mensagens), fornecendo também sugestões de como melhorar esse plano.

De acordo com o site da empresa, a Janno oferece uma infraestrutura de segurança com várias camadas de proteção, servidores distribuídos e acesso via computador, tablet ou celular. Isso serve para garantir que as informações estão a salvo de ataques, vazamentos ou perdas. A startup permite ainda que o cliente defina com quem e quando seus dados poderão ser compartilhados. O serviço custa 15,90 reais mensais

UM DEUS ROMANO EMPRESTA O SEU NOME À EMPRESA

Levando em conta todas essas questões que permeiam o assunto da finitude (passado, presente e futuro), os sócios recorreram à mitologia em busca de inspiração para criar o nome da startup.

“Janus é o deus dos novos começos. Por causa dele temos o mês de janeiro. É uma figura que nos faz olhar para o passado e se preparar para o futuro, vivendo o hoje. E isso tem tudo a ver com o que propomos”

Layla complementa: “A gente acredita que quando uma pessoa está organizando seus documentos, em caso de algum imprevisto, ela consegue honrar suas decisões e viver o hoje com mais presença, porque sabe que o futuro está garantido”.

FALAR DE MORTE É TAMBÉM FALAR DE VIDA

Apesar dos dados da pesquisa da Janno apontarem que 74% dos entrevistados não falam sobre a morte no dia a dia, o levantamento também provou que para os maduros vai ficando mais fácil discutir sobre o assunto, por já terem lidado com a finitude de familiares ou por refletirem sobre a sua própria.

“Para o nosso target, acima de 50 anos, esse assunto vai ficando mais natural e eles se mostram até mais dispostos a tomar atitudes de planejamento, porque sabem que se não se organizarem pode ser um momento muito mais doloroso para quem fica.”

Mas é claro que não é do dia para a noite que esse tópico deixa de ser um tabu e começa a ser tratado com naturalidade. A cofundadora da Janno cita a postura adotada pela população do Butão para comprovar a importância de pensarmos sobre nossa finitude.

De acordo com ela, no país asiático, considerado um dos mais felizes do mundo, a felicidade é atribuída ao hábito da população de refletir sobre a morte ao menos cinco vezes por dia.

“Quando se pensa sobre a morte, a gente faz de tudo para ser feliz no momento atual. Assim, refletindo sobre isso sempre, todos os dias serão dias felizes”

Vale a provocação: Qual a sua disposição em começar a fazer isso agora? Apesar do foco da Janno ser os 50+, Layla afirma que não há idade para planejar o fim da vida.

A IMPORTÂNCIA DO DIREITO AO LUTO

Ainda que 62% dos entrevistados da pesquisa da Janno tenham dito que já refletiram sobre a morte e que sabem quais são seus desejos de fim de vida, 81% não deixaram isso registrado.

A empreendedora destaca que planejar esse momento garante o protagonismo das pessoas em suas vidas até o fim. “Se você não deixa as coisas organizadas, seus desejos registrados, um familiar vai ter que tomar essa atitude por você num dos momentos mais difíceis para ele.”

Ao todo, segundo Layla, as questões práticas que acontecem após o falecimento totalizam 90 ações, entre elas, escolher se a cerimônia será uma cremação ou um enterro, que mensagem colocar na faixa fúnebre e como avisar os amigos. E, no meio de tantas medidas a serem tomadas, muitas vezes as pessoas acabam não tendo direito ao luto.

“Então, se tomarmos consciência disso, organizarmos nossos desejos e vontades, estamos deixando um ato de amor para quem fica. O melhor presente que a gente pode dar nesse caso é deixar tudo organizado”

Os atuais 50 clientes da Janno são justamente pessoas que já passaram pela dor de perder alguém e, por causa das burocracias e correria para tomar decisões póstumas, não conseguiram vivenciar o luto.

Eles querem, portanto, deixar tudo organizado, mas às vezes enfrentam resistência da própria família na hora de contar sobre essa decisão. “Muitos usuários falam que os filhos travam esse conversa dentro de casa por não quererem tocar no assunto.”

Manter esse diálogo transparente é importante e a alternativa mais saudável diz, Layla, pois ajuda a desatar muitos nós emocionais e evita brigas futuras. Mas pensando nessa resistência, a startup permite ao usuário decidir quando e com quem suas informações serão compartilhadas.

A Janno também produz conteúdos de apoio para esse momento, indicando filmes e até jogos que facilitem essa interlocução. “É um assunto novo, um produto inédito no Brasil, então a gente tem essa responsabilidade de aculturar a sociedade.”

A PANDEMIA ACELEROU UMA DISCUSSÃO QUE LEVARIA ANOS

A crise da Covid-19 fez com que 7 e cada 10 brasileiros 60+ passassem a refletir sobre a finitude e 2 em cada 10 decidissem começar a fazer um planejamento de fim de vida, segundo o levantamento da Janno.

Gerar essa discussão já é um passo para naturalizar a morte. Layla cita uma frase de Luciana Dadalto, pesquisadora, criadora do primeiro registro nacional de testamentos vital e parceira no relatório de Legado da Janno:

“Na escola a gente não tinha educação sexual? A morte faz parte da vida, é um fato natural e que vai acontecer com todo mundo. É urgente conscientizar e adquirir conhecimento para a pessoa nesse momento e para quem vai ficar. Quanto antes falarmos disso, melhor.”

Layla afirma que, antes da pandemia, o mercado estava a “anos-luz” de distância do que é hoje. Ou seja, a Covid-19 acelerou as conversas sobre o tema.

“No começo, ninguém falava sobre rituais virtuais. E o Infinito, que é um parceiro da Janno, criou um guia sobre isso, ajudando várias pessoas a encontrarem um jeito novo de se despedir durante o distanciamento social.”

Outra consequência do coronavírus foi colocar em evidência o ageísmo (preconceito contra pessoas mais velhas), já que os idosos são mais vulneráveis à doença. Para ajudar os idosos nesse momento, a Janno, junto com o Hype, lançou o Mapa 60+, um mapa colaborativo com iniciativas gratuitas de apoio e acolhimento ao público maduro durante a pandemia.

“Lá, é possível encontrar projetos do Brasil inteiro de apoio emocional online. Tem, por exemplo, um do interior de Minas Gerais que se chama Laços e é intergeracional, conectando jovens a maduros.”

NEM SÓ DE CEMITÉRIOS E HOSPITAIS É FEITO O MERCADO DA FINITUDE

Nos Estados Unidos, o mercado da finitude foi avaliado em 20 bilhões de dólares este ano. E, segundo o Absolute Makerts Insights, a estimativa é de que chegue a 42 bilhões de dólares em 2027.

Os grandes fundos de investimento, no entanto, ainda estão mais focados nas soluções de imortalidade trazidas pelo Vale do Silício.

“Essas criações para viver 200 anos, 500 anos ou até ser imortal são uma tendência, mas vão atingir uma parcela mínima da população, com muito dinheiro para fazer todas as mudanças genéticas e tomar todas as pílulas necessárias”, diz a cofundadora da Janno. “E mesmo assim, nem todo mundo vai estar disposto a viver 500 anos. Acho que o caminho é muito mais na linha de escolher quando se quer morrer.”

Para chamar a atenção dos investidores, ela acredita que esses negócios da finitude, que hoje em dia estão inseridos na área da saúde, devem começar a se posicionar como um mercado de deathtechs, ou ainda sob o guarda-chuva de agetechs.

“Precisamos povoar o mercado com boas soluções. Por aqui, esse setor ainda tem que se provar porque não tem quase nenhum produto ou serviço. Por isso, a gente decidiu começar trazendo pesquisa e mudando a percepção das pessoas sobre esse tema”

E é com dados colhidos e minuciosamente investigados que Layla rebate eventuais desconfianças e o ageísmo (sim, isso não acontece apenas com pessoas mais velhas) pelo fato ser uma mulher de 29 anos à frente de um negócio focado na longevidade e outro na finitude.

“A certeza de que meu trabalho está ajudando as pessoas é tão grande que eu nem ligo quando isso acontece. Estou mais uma vez em um mercado descentralizado e novo, com a intenção de transformá-lo.”

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