A enorme importância da mesa de jantar, um móvel que a pandemia ressuscitou

Adriano Silva - 25 jun 2020
(foto: August de Richelieu no Pexels).
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por Adriano Silva

Esses dias cometi um erro. Daqueles bestas, que fazem a gente sentir raiva de si mesmo. E fui abraçado por minha família.

De um jeito que, acho, quase nunca consigo oferecer quando é um deles que tropeça. Aquela foi uma grande aprendizagem. Que, espero, possa se refletir num marido e num pai melhores para eles.

Diante da minha cabeça baixa na mesa de jantar, eles deixaram claro que a cobrança que eu me impunha era minha – e não deles. O peso estava comigo; eles me convidavam para o terreno da leveza. Coisa que eu também gostaria de poder lhes oferecer.

Quando alguma coisa não dá certo, diante de um erro, com você funciona? Você tenta resolver pelo outro? Junto com ele?

Você dá outra chance para que ele ou ela resolva a situação? Você critica e se exime da responsabilidade, tanto pelo que aconteceu quanto pelo esforço de contornar o estrago? Você acolhe o outro num colo morno e fica lhe passando a mão na cabeça? Você nega ou ignora o erro para evitar o conflito? Você aproveita aquele momento de fragilidade do outro para montar-lhe o lombo?

O modo como lidamos com o erro diz muito sobre nós mesmos.

***

Naquele momento, eu me senti mais humano. Eu que tantas vezes nutri um ideal autômato e infalível – para mim mesmo e para os outros também.

Para quem gosta de ter tudo sob controle, às vezes escorregar em seu próprio roteiro de ferro e se esborrachar no chão pode ser libertador. Eu não era perfeito – e tudo bem

Era suficiente para minha mulher e meus filhos que eu estivesse ali, inteiro, com eles, de boa-fé, com amor, tentando acertar. Eles sequer desejavam me ver perdendo nosso tempo juntos em um constrangedor ritual de autoaçoite.

Não sei como é na sua casa, mas na minha a mesa de jantar tem sido um elemento muito importante. Especialmente com filhos adolescentes, que começam a montar rotinas pessoais que não incluem os pais, é fundamental ter um ponto de contato que garanta um tempo de qualidade para a convivência em família.

A epidemia mexeu com as agendas de todos nós. Em casa, somos quatro pessoas com horários e interesses nem sempre coincidentes. Então temos um encontro marcado todo dia à noite, no jantar

Ali, conversamos, em geral, longamente. Sem celulares, sem computadores, sem televisão. Não raro, é a única hora do dia em que estamos todos juntos. Hora do olho no olho.

Tento ser um pai liberal. Gosto de conversar sobre tudo. Busco resguardar meus filhos dos meus próprios recalques e neuroses. Não há tema proibido. Nada que for dito estará além da nossa capacidade de lidar com qualquer informação que aflorar ali. Aposto na palavra, no debate e na honestidade intelectual como alicerces da minha relação com meus filhos.

Embora saiba que a geração deles é mais visual e intuitiva. E que, portanto, para eles, talvez nem tudo precise passar pela palavra. Porque há outras linguagens possíveis.

Intuo que a compreensão, a comunicação entre nós, e os próprios mecanismos de educação, talvez pudessem se dar de modo mais espontâneo e menos racional. Não que eu alcance fazê-lo. Busco apenas fazer o meu melhor. Do modo mais sincero possível. Dentro daquilo que sei, do território em que consigo circular. O que me escapa está infelizmente fora das minhas possibilidades – o que se há de fazer?

***

Nunca bati em meus filhos. Mas sei que já usei de violência verbal algumas vezes. Ou seja: mesmo sob a égide da palavra, é possível ser brutal. Mesmo sem safanão, é possível machucar. E, às vezes, sem levantar a mão, uma pessoa pode calar fundo na outra. Especialmente se for pai ou mãe

Esses eventos – quero crer que não foram muitos – estão no meu panteão íntimo dos arrependimentos insolúveis. Conviverei com esses remorsos para sempre.

Temos tido essas e outras conversas fundamentais à mesa de jantar. São duas, três horas por noite, quase todo dia, de troca franca de ideias – com direito a risadas, provocações bem-humoradas e debates inflamados

Amo a indignação da minha filha diante das injustiças. Sua construção como uma pessoa que respeita os direitos e as liberdades. A ponto de se emocionar com isso, diante das barbaridades que vai encontrando no mundo enquanto amadurece.

Amo o senso de humor do meu filho. Seu tempo cômico para as tiradas. Sua persona cínica, a (auto)ironia que vai afiando precocemente. (Nesse ritmo, antes dos 20 ele terá se transformado num cidadão inglês.)

Gostaria de dizer que tenho alguma responsabilidade sobre esses aspectos de meus filhos que me enternecem e me enchem de orgulho. Mas a realidade é que tenho muito pouco a ver com isso. Isso é deles, não é meu. O que é uma razão a mais para admirá-los – o que eles estão construindo à minha revelia.

Antes da pandemia, nem sempre jantávamos juntos. Agora, a mesa de jantar, com sua importância renovada e sublinhada por esses dias estranhos de reinvenção da vida sob as restrições da quarentena, virou um compromisso

E eu tenho aprendido muito com essas interações.

A gente tantas vezes fica olhando lá longe, lá na frente, se preocupando com coisas distantes, que estão onde a vista não alcança – e que, portanto, talvez nem existam. E às vezes esquece de olhar para o lado.

A gente tantas vezes fica ansioso com o tanto de incertezas que crescem ao redor, com o tanto de escuridão que há pela frente. E esquece de reparar no que está pertinho, diante dos olhos, que é onde a vida acontece.

A gente às vezes desanima diante das intempéries do caminho, com o tanto de esforço e sofrimento necessários a que as coisas aconteçam. E às vezes basta esticar o braço e tocar sua filha ou seu filho, e fazer-lhe um carinho nos cabelos, e sentir-lhe a maciez da face, e segurar em seu braço, e repousar a mão sobre seu ombro.

A gente tem quase tudo de que precisa. Bem debaixo do nariz. Aprender a enxergar isso é uma arte.

 

Adriano Silva é fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft, Founder do Draft Inc. e Chief Creative Officer (CCO) do Draft Canada. É autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV A República dos Editores.

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