A pobreza menstrual aflige milhões de mulheres sem acesso a absorventes. Conheça a jovem que dedica a vida a virar esse jogo

Victoria Dezembro - 23 abr 2021
Victoria Dezembro, fundadora da ONG Projeto Luna.
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Quando pequena, eu adorava sentar no chão de carpete, na porta do banheiro, e observar a rotina de minha mãe, com admiração. 

Foram incontáveis as vezes em que assisti àquele ritual de maquiagem, cobrindo a bancada da pia de potinhos brilhantes.

Centenas foram as ocasiões em que a vi inclinada inspecionando suas sobrancelhas no espelhinho de aumento, pinça na mão. Os banhos de banheira, que mais pareciam uma cordilheira de espuma, foram muitos.

Até que um dia, por volta dos meus 7 anos, ao entrar correndo no banheiro para contar algo a minha mãe, fui pega de surpresa com uma cena que jamais havia visto.

USEI MEU PRIMEIRO ABSORVENTE MESMO SEM MENSTRUAR

Num primeiro momento, percebi que era algo íntimo, mas não incomum, pois ela estava calma e os movimentos pareciam até coreografados. 

Fui tomada por uma sensação de pura confusão: por que é que minha mãe estava colocando um “colchãozinho” na sua calcinha?

Não lembro ao certo a explicação que ela me deu acerca do fato da menstruação, que eu acabava de descobrir, mas me lembro que foram várias as perguntas em minha cabeça. 

“Será que toda mãe usa um colchãozinho na calcinha?” “Como são feitos esses colchões pequenininhos?” “O que ela faria com o mini colchão depois?” “Por que ela não coloca vários, um em cima do outro, para ficar bem fofinho?”

Finalmente resolvi fazer a maior pergunta de todas: posso usar um colchãozinho também? No dia seguinte, minha mãe me chamou em seu banheiro e me entregou um absorvente

A embalagem, um envelope cor-de-rosa com florzinhas, parecia algum acessório da Barbie, o que me fez ficar ainda mais animada.

Lembro de entrar na escola me sentindo o máximo por estar usando um colchãozinho… Era como quando usava uma fantasia de personagem.

Passei o dia ansiosa, indo ao banheiro para olhar o colchãozinho e ver se “algo” tinha aparecido lá. Como um presente que a fadinha do dente deixa de surpresa.

QUANDO ENFIM MENSTRUEI, VI QUE FALAR A RESPEITO SERIA DIFÍCIL

Alguns dias depois, eu já tinha praticamente esquecido do colchãozinho; outra novidade certamente capturara minha curiosidade e atenção.

Nos anos seguintes, o assunto menstruação começou a aparecer com mais frequência. Mas a informação era pouca, e a conversa, sempre acompanhada de risadas nervosas e vergonha.

Quando a minha menstruação finalmente chegou, aos 14 anos, as perguntas ainda eram as mesmas. Na escola não tinham me ensinado sobre o assunto, minhas amigas pareciam estar sob “voto de silêncio”… E, como é típico da adolescência, eu não tinha paciência para escutar a minha mãe

A opção foi seguir o fluxo (literalmente) e obedecer às regras: não falar com meninos sobre menstruação; esconder o absorvente dentro do bolso ou da manga da blusa para ninguém ver o que você estava carregando etc. 

E mais uma vez a menstruação caiu no meu esquecimento — dessa vez em forma de rotina.

NA FACULDADE, DESCOBRI E PASSEI A ESTUDAR A POBREZA MENSTRUAL

Já na faculdade, morando na Itália, me deparei com uma matéria sobre a situação precária das presidiárias no Brasil. 

Ignoradas pelo sistema em suas necessidades específicas, essas mulheres recorrem a “soluções alternativas” durante o período menstrual. Entre elas, o miolo de pão: as mulheres o amassam para que fique no formato de um O.B. e colocam-no dentro da vagina para absorver o fluxo. 

Infelizmente não é ficção, mas a triste realidade.

Um misto de indignação e aflição tomou conta de mim. Resolvi pesquisar mais sobre o assunto e descobri que a condição degradante das detentas brasileiras era só a ponta do iceberg de algo maior. Um problema tão grande que tem até nome: pobreza menstrual

Essa é a condição de milhões de mulheres em situação de vulnerabilidade econômica e social, sem acesso a banheiros, saneamento básico e a protetores menstruais, considerados “artigos de luxo”.

Pois é, ainda há esse tipo de barreira. Mundo afora, os absorventes (e outros itens como os O.B.s e coletores menstruais) são taxados por serem considerados “artigos não essenciais”

Isso obriga meninas e mulheres a improvisarem “alternativas”, como panos e meias velhas, sacolas plásticas… E até folhas de jornal.

COMO UM PRODUTO DE HIGIENE BÁSICA PODE SER SOBRETAXADO?

Até a desenvolvida Alemanha classifica os artigos menstruais como “não essenciais”, tributando-os com a tarifa máxima de imposto sobre valor agregado de 19%, enquanto produtos de luxo — como trufas e pinturas a óleo — pagam uma alíquota de apenas 7%.

Como é possível que um processo fisiológico NORMAL, que faz parte da vida de METADE da população, seja tratado como uma espécie de PRIVILÉGIO — e não uma necessidade?

Estamos falando de, no mínimo, 500 milhões de pessoas em todo o planeta que enfrentam a pobreza menstrual, buscando “alternativas” todos os meses!

Agora vejamos… Se uma grande parte de meninas e mulheres não tem acesso a artigos para manejar seus ciclos, qual é o efeito disso sobre suas vidas acadêmica e profissional? Como podem se tornar membros plenamente ativos e produtivos da sociedade?

Além da questão humanitária, há outras questões. Uma é econômica, decorrente do absenteísmo. A outra, de saúde pública: a falta de acesso a absorventes e artigos de higiene causa uma série de doenças, sobrecarregando o sistema público de saúde.

Esse quadro guarda semelhanças com a questão do saneamento básico. Segundo a OMS, cada dólar investido em água potável e saneamento básico, economiza mais de 4 dólares em saúde pública.

VOCÊ TAMBÉM TEM CULPA AO MANTER O TABU SOBRE A MENSTRUAÇÃO

Desvendar esse universo me deixou enjoada. Como foi que viemos parar aqui? 

Como é que o Brasil convive com o fato de que 23% das brasileiras não têm acesso a itens de higiene menstrual? Quem é o culpado? Para quem devemos apontar o dedo?

Sinto lhe dizer, mas estou apontando o dedo para você. 

Sim, você aí, lendo este texto. E lhe encorajo a apontar o dedo para mim. E também para os seus amigos, familiares, colegas de trabalho… E até para aquelas pessoas que você ainda virá a conhecer. 

Todos nós alimentamos e damos vida ao culpado: o poderoso e silencioso tabu.

Sabe aquele hábito de falar que você está “naqueles dias” em vez de usar a palavra “menstruação”? Então…: eu, você e todos nós estamos, inconscientemente, reforçando a ideia de que a menstruação é um assunto proibido — e que, por isso, precisamos recorrer a códigos e eufemismos

Para se ter noção da dimensão do tabu acerca da menstruação, ainda hoje meninas no Nepal são isoladas de casa durante o período menstrual e forçadas a dormir em cabanas na floresta. 

No Japão, o motivo pelo qual ainda hoje as sushiwomen são raras deve-se à crença de que o ciclo menstrual causaria um desequilíbrio no paladar.

DA INDIGNAÇÃO À AÇÃO: NO MEIO DA PANDEMIA, CRIEI O PROJETO LUNA

Apesar da minha indignação, me sentia impotente. Afinal, eu estava no início da faculdade, tentando me adaptar à cultura italiana, enfrentando um desafio só meu. Tive que colocar o tema da pobreza menstrual de lado.

Quando finalmente voltei ao Brasil, cinco anos depois, iniciei a busca por uma colocação profissional às vésperas da pandemia. Com a quarentena, vi as minhas oportunidades profissionais ficarem em stand-by, enquanto o mundo fechava as portas.

Mesmo sem uma oportunidade, vivo em uma casa confortável com minha família e não enfrentaria as incertezas de quem viu sua atividade ser interrompida pela Covid-19.

Mas e as pessoas que não têm essa condição privilegiada? E aquelas que perderam o emprego e estão na rua, sem recursos, e expostas ao vírus? E as mulheres vulneráveis economicamente?

Por conta da enorme incerteza trazida pela pandemia, qualquer dinheiro que essas mulheres em situação de vulnerabilidade conseguissem ganhar não seria suficiente para tirá-las da pobreza menstrual

Diante disso, o que eu poderia fazer? Foi assim que nasceu o Projeto Luna, em junho de 2020.

O PROJETO DISTRIBUI QUASE MIL ABSORVENTES POR MÊS NA CAPITAL PAULISTA

Hoje, somos formalmente uma ONG de combate à pobreza menstrual. 

O kit do Projeto Luna distribuído nas ruas e em ocupações da capital paulista.

O projeto começou com pequenas distribuições de kits de higiene menstrual na cidade de São Paulo, em locais como o Minhocão, a Estação Barra Funda e o Viaduto Antártica, distribuindo mensalmente cerca de 900 absorventes. 

A distribuição é sempre feita através do “kit de higiene” desenvolvido por nós, e que inclui: uma calcinha de algodão; 25 absorventes diurnos (não há como distribuirmos absorvente reutilizáveis, pois essas mulheres dificilmente têm acesso a banheiros e saneamento básico); cinco absorventes noturnos; duas barras de sabonete; um rolo de papel higiênico; uma escova de dentes; um tubo de creme dental; e uma máscara de pano.

Em fevereiro de 2021, esse kit tinha o custo de 25 reais na cidade de São Paulo. É um valor semelhante ao que se paga em um valet-service em qualquer restaurante do Itaim, dos Jardins ou do Leblon, para fazer uma enorme diferença no mês de uma mulher.

Convido a todos a participarem de nossas ações de distribuição. O que mais se vê no rosto das mulheres que recebem os kits é não apenas gratidão, mas também sentimentos de inclusão e consideração

Até o momento, temos distribuído principalmente em ocupações de imóveis e locais de concentração de sem-tetos com presença de mulheres. Com o incremento das doações, planejamos ampliar essas doações para presídios, casas de acolhimento e escolas.

SÓ A DOAÇÃO NÃO BASTA. É PRECISO COMBATER O TABU COM EDUCAÇÃO

Grande parte dos recursos da ONG é proveniente de doações de pessoas físicas, que contribuem por meio de plataformas como Vakinha ou de depósitos diretamente na conta corrente do Projeto Luna.

Devido à repercussão na mídia e nas redes sociais, empresas nos procuraram para conhecer melhor o nosso trabalho e a nossa proposta, bem como discutir formatos de patrocínio à causa. Algumas marcas, como a Hu.mana, já se tornaram patrocinadoras do Projeto Luna.

Tão importante quanto as doações é o trabalho de educação, conscientização e combate aos preconceitos e tabus que cercam a menstruação.

Não é apenas com a distribuição de absorventes que iremos acabar com a pobreza menstrual. Assim, o Projeto Luna trabalha, de maneira consistente, a divulgação de dados, informações e situações por meio do nosso Instagram.

Só democratizando essas informações e expondo os desafios que cercam a questão é que conseguiremos realizar mudanças estruturais, como uma taxação mais justa para os produtos de higiene e a disponibilização de absorventes a custo zero para meninas e mulheres em situação de vulnerabilidade

Há um longo e gigantesco desafio pela frente. Mas o fato de termos criado um veículo capaz de amenizar o problema para dezenas de mulheres nos motiva a trabalhar para crescer e gerar um impacto cada vez maior a curto prazo, com a distribuição dos kits e a inclusão da menstruação nas rodas de conversa.

Ao mesmo tempo, não perdemos de vista nossos objetivos de médio e longo prazo. 

Por meio da disseminação de informações, combatemos preconceitos e tabus, e queremos ajudar na elaboração de uma pauta para políticas de saúde pública que criem condições para a solução definitiva do problema.

 

Victoria Dezembro, 25, é formada em Business of Fashion pela Polimoda de Florença, na Itália. É fundadora da ONG Projeto Luna, que visa combater a pobreza menstrual disseminando informação e distribuindo artigos de higiene íntima e menstrual para pessoas em situação de vulnerabilidade.

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