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A Zebu Mídias faz tinta orgânica e imprime em lasca de madeira, sabia? Muito prazer

Bruna Messina - 20 maio 2015 ZEbu sócios (foto: Tatiana Zanghi)
Os sócios da Zebu Mídias, Amon, Rafael e Pedro: tudo muito natural, até a timidez para fazer um retrato para o Draft... (foto: Tatiana Zanghi)
Bruna Messina - 20 maio 2015
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Empreender sempre foi um verbo no vocabulário do designer gráfico Amon Costa Cerqueira Pinto, 25, desde os tempos de faculdade. Durante as aulas de design gráfico com ênfase em empreendedorismo na PUC, em 2008, ele trabalhou na empresa Júnior da universidade atuando em diversas áreas e regando a semente de um dia ter um negócio para chamar de seu. No ano seguinte, em uma aula de projeto de design, Amon esbarrou com dois amigos de infância, Pedro Ivo e Felipe Salvador, e os três mergulharam numa missão com impacto sócio-ambiental positivo nas praias do Rio de Janeiro que, logo, se transformaria em um negócio sustentável.

“O projeto era desenvolver uma alternativa de comunicação para os flyers, que são extremamente poluentes, não são reciclados, têm verniz e um tempo de vida super longo. Começamos a pensar em qual seria uma mídia alternativa e, nesse ponto, entendemos que poderíamos abrir uma empresa, ir além de um simples trabalho de faculdade”, lembra Amon.

Com esse espírito, e a coragem típica de quem acredita profundamente numa ideia e não tem muito a perder, eles fundaram a Zebu Mídias Sustentáveis, uma empresa de design focada em sustentabilidade que trabalha com construção de marcas e desenvolvimento de produtos. Lá, projetam desde embalagens, brindes, mobiliários, estandes e logotipos até projetos de intervenção urbanas: tudo isso seguindo à risca um conceito de sustentabillidade aplicada ao design gráfico, em um proposta essencialmente inovadora. O portfólio tem desde uma variedade de flyers naturais feitos de casca de bambu, ou de bromélias, até painéis de musgo (para comunicação externa), passando por cartões de visita feitos com impressões térmicas em casca de bambu.

Cards da Zebu com exemplos de materiais ecológicos usados nos projetos da empresa.

Cards feitos com refugo de madeira e pigmentos ecológicos (tintura de beterraba, canela, azeitona…) usados nos projetos da Zebu.

Depois do “surgimento” em sala de aula, a Zebu ainda passaria um ano em fase de prototipagem, ainda dentro da própria PUC, recebendo consultoria de professores e desenhando um plano de negócios. Divididos entre aulas, trabalho e agora uma nova empresa para cuidar, os sócios perceberam que teriam de sair de seus estágios (em escritórios de design) para se dedicarem full time à empresa que acabava de nascer.

Mais horas livres, mais tempo para produzir. Foi assim que, em 2011, a Zebu se aventurou a prospectar oportunidades de trabalho. Eles foram convidados para cuidar de toda a comunicação da Semana do Meio Ambiente  da PUC. Lá, puderam desenvolver duas ações que até hoje fazem parte do DNA da empresa: o uso de tintas orgânicas nos materiais impressos e o Stêncil Limpo (basicamente, a impressão de informação em lugares como calçadas ou paredes limpando a superfície em vez de usar tinta). “Até então, esses recursos nunca tinham sido utilizados no país para fins comerciais. Até hoje não temos no Brasil alguma empresa que trabalhe com isso. Talvez por não termos uma legislação e pouca abertura para fugir muito dos métodos convencionais de comunicação”, conta Amon.

Para imprimir os cartazes do evento, eles queriam uma tinta que fosse coerente com o discurso sustentável da empresa. Depois de muita pesquisa, conseguiram extrair cor e fixação de uma tinta de beterraba e uma de canela, ambas feitas de forma totalmente artesanal.

A empresa começava a dar seus primeiros passos, mas ainda era um negócio, literalmente, de garagem. Com a saída de Felipe Salvador da sociedade — e com a entrada do novo sócio, Rafael Dávilla, também estudante de Design da PUC — uma área na casa de Rafael, no bairro da Gávea, abrigou a Zebu por dois anos e possibilitou ao trio a proximidade com a PUC e a aproveitar pequenos materiais e desenvolver novos produtos.

No carro conceito da Peugeot "208 Natural", a Zebu fez o tingimento dos laminados de bambu (com Tinta Orgânica de Cacau) aplicados no painéis e placas do carro.

No carro conceito da Peugeot “208 Natural”, a Zebu fez o tingimento dos laminados de bambu (com Tinta Orgânica de Cacau) aplicados no painéis e placas do carro.

Hoje, a Zebu tem mais de 50 combinações de cores de tintas orgânicas, formuladas a partir de urucum, canela, açafrão, cebola e até azeitona. Esta última, inclusive, foi usada em uma ação para a marca de azeites Galo, na qual a empresa criou gôndolas de supermercado especiais e kits de entrega para os principais fornecedores da marca.

Em 2014, eles participariam de um outro projeto marcante: usaram as tintas orgânicas no carro conceito da Peugeot, apresentado no Salão de Automóveis de São Paulo. Na ocasião, elas foram aplicadas no tingimento do revestimento dos painéis do carro, das placas e do assoalho. Além de um novo produto, a empresa ganhou uma visibilidade de gente grande.

Os sócios sempre foram avessos à ideia de aceitar investimento ou a entrada de um sócio-investidor que não fosse alinhado com o discurso e a forma de trabalho da Zebu. Durante muito tempo, eles sustentaram a empresa com seus próprios recursos. Os três bancavam as ações e o dia a dia de trabalho. Durante os três primeiros anos, o trio investiu cerca de 30 000 reais no negócio. Amon considera a estratégia acertada:

“Sempre tivemos o cuidado de anotar o quanto a empresa devia para nós, para um dia nos pagarmos. Isso já foi devidamente debitado, mas essa nunca foi uma preocupação, pois a empresa foi  caminhando e se desenvolvendo de uma maneira muito natural”

Crescendo de forma orgânica, a Zebu então se viu com demandas mais altas do que podia entregar. A capacidade de produção e a infraestrutura já batiam no limite quando eles foram “presenteados”, como dizem, com um convite dos já parceiros da Matéria Brasil para que ocupassem um espaço ocioso do espaço de coworking Goma junto às também novas empresas saídas da mesma “turma” da PUC: Zerezes e Terravixta.

“A partir daí, ganhamos não só padrinhos e tutores, mas também um novo espaço. No início a gente pagava pelo espaço com troca de serviços. A Matéria Brasil era deficiente na área de comunicação e design gráfico. Eles trabalhavam somente com consultoria de materiais. Nossas empresas se tornaram complementares”, conta Amon.

Atualmente, a Zebu tem parcerias com diversas empresas que fazem parte da Goma, caso da agência Loud, e da Carioteca, além das já citadas. Uma dessas parcerias fez com que a Zebu estivesse envolvida também no desenvolvimento dos brindes oficiais da FIFA para a Copa do Mundo no Brasil, em 2014. Essa flexibilidade de atuação é outra característica indissociável do case da Zebu, como Amon resume:

“Nós nunca estamos sozinhos, tem sempre um time junto com a gente”, define Amon.

Seguindo o modelo de startup enxuta, a ZEBU sempre encara todos os projetos como protótipos. Nunca se prende à produção de um produto específico. Ali, literalmente, cada projeto é um aprendizado e uma forma de capitalizar a empresa. Conforme as propostas chegam, o trio de sócios — que divide as funções de atendimento, comunicação, desenvolvimento gráfico e desenvolvimento de produto de acordo com o perfil de cada um — vai se adaptando para atender a demanda.

“Com a Matéria Brasil isso foi muito importante, pois aos poucos fomos pegando pequenos projetos e sempre trabalhando na nossa linha orçamentária e no limite que tínhamos de produção. A princípio, começamos a trabalhar com muitos projetos em parceria, depois ganhamos reconhecimento e conseguimos propostas fora da rede da Goma. Até a gente virar referência em design de sustentabilidade”, conta Amon.

Não se ganha todas. A Zebu apostou em cartões de vistitas, mas o mercado não "comprou" a ideia.

Não se ganha todas. A Zebu apostou em cartões de vistitas, mas o mercado não “comprou” a ideia.

Eles também erraram, é claro. E bastante, como é saudável a qualquer empresa. Entre as escolhas erradas que fizeram, algumas bateram de frente com o mercado na tentativa de apresentar um produto. “Fizemos muitos testes no mercado que não deram certo, como, por exemplo, o desenvolvimento de cartões de visita. Não é o tipo de mercado que a empresa iria se encaixar em termos de praticidade, desenvolvimento e custos. Não teve um retorno e a gente entendeu que cada material que a gente desenvolvia, na verdade fazia parte de um conjunto maior”, conta Amon.

Superados os erros, ficam os aprendizados e, também, o reconhecimento pela ousadia de optar, sempre, pelo que fala mais alto sobre a razão de existir da empresa. Em 2014, a Zebu passou a ser uma empresa do Sistema B: certificação internacional dada a negócios que têm como foco a preocupação social e ambiental, em vez de buscarem apenas o lucro com a venda de seus produtos e serviços. No Rio de Janeiro, há apenas sete empresas com essa certificação, e a Zebu foi a segunda a integrar este seleto grupo. Amon fala sobre o futuro:

“Queremos cada vez mais desenvolver projetos com impacto prático e social. Queremos utilizar cada vez mais a tecnologia para resolver problemas. Nosso foco é trabalhar com propósito, fora da caixa e com a filosofia sócio ambiental nos acompanhando. Acho que estamos no caminho”

A missão de trabalhar em projetos com impacto social positivo não se limita a um perfil especifico. Atualmente, a Zebu desenvolve o mobiliário para o Centro de Ecologia e Educação para Economia Criativa da ONG Onda Verde, um espaço criado para o ensino de economia criativa a mulheres da periferia em parceria com as empresas Matéria Brasil e o estúdio Guanabara. Também participam do projeto Traga a Natureza pra Cidade em parceria com a Múrmura – plataforma que desenvolve intervenções urbanas e engajamento dos cidadãos — no qual instigam as pessoas a olharem para a cidade de maneira diferente. A Zebu também integra o coletivo Vaga Viva, que é formado pelas empresas Maloca, Estúdio 88 e Entre Nós e pelas freelancers Elisa Ribeiro e Alline Cipriano. O Vaga Viva desenvolve, produz e implementa parklets no Rio de Janeiro e vai inaugurar seu primeiro projeto feito sob medida para uma marca, o Ponto Frio, em breve. Dessa vez, numa rua da capital paulista. A Zebu está não apenas firme no caminho que escolheu, mas também muito bem acompanhada.

DRAFT CARD

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  • Projeto: Zebu Mídias Sustentáveis
  • O que faz: Design, materiais gráficos e tintas orgânicas
  • Sócio(s): Amon C.C. Pinto, Pedro Ivo Chagas e Rafael Davilla
  • Funcionários: 4 (incluindo os sócios)
  • Sede: Rio de Janeiro
  • Início das atividades: 2010
  • Investimento inicial: R$ 30.000
  • Faturamento: R$ 250.000 (média anual)
  • Contato: [email protected]
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