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“Aquilo virou uma pergunta que não me largou mais: e se o problema não fosse o corpo, mas o sistema?”

Amanda Momente - 6 fev 2026 Amanda Momente, fundadora da WonderSize (crédito: Sara Eulália).
Amanda Momente, fundadora da WonderSize (crédito: Sara Eulália).
Amanda Momente - 6 fev 2026
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Tenho 36 anos e trabalho com moda há mais de uma década. Sou designer, fundadora da WonderSize – e, nos últimos meses, passei a me apresentar como AI Fashion Architect, com foco em comportamentos humanos.

Esse título não existia quando comecei, mas hoje traduz com precisão o que faço: projeto moda usando dados, tecnologia e corpos reais como matéria-prima.

Nem sempre foi assim. Por muito tempo, acreditei que a moda não era um lugar possível para corpos como o meu. 

Quando entrei na área, achava que inclusão era um discurso bonito, mas inviável. Acreditava que corpos gordos eram um “problema de grade”, não estrutural, e repetia argumentos que ouvi a vida inteira: não vende, encarece, não escala 

Eu tinha medo de não ser levada a sério, de estar errada, de estar sozinha em uma indústria que sempre deixou claro quem podia pertencer. A verdade é que eu reproduzia parte do preconceito que me atravessava.

AO EMPREENDER, ERREI MUITO NO COMEÇO E CHEGUEI A OUVIR QUE O MEU TRABALHO “NÃO ERA MODA DE VERDADE”

O ponto de ruptura não veio de um insight romântico. Veio do cansaço. 

Cansaço de não encontrar roupas para treinar, de adaptar peças que não foram feitas para mim, de ouvir que meu corpo era exceção quando, estatisticamente, ele é maioria. 

Em 2017, percebi algo simples e brutal: a moda não falhava por falta de criatividade, mas por falta de dados sobre corpos reais. Não existia modelagem, base técnica ou inteligência acumulada sobre corpos gordos; existia apenas achismo 

Aquilo virou uma pergunta que não me largou mais: e se o problema não fosse o corpo, mas o sistema?

Mudar de rota é solitário, ainda mais quando você não tem referência de chegada. Lançar a WonderSize foi um ato de risco: pouco capital, nenhuma validação da indústria e muitas noites pensando se eu estava insistindo em algo impossível. 

(foto: Carlos Furtado)

Errei muito: tecido, fornecedor, timing. Produzi coleções que não venderam e ouvi que aquilo “não era moda de verdade”. 

Tive medo, frustração, perdi amigas, além de dívida emocional e financeira. Tive vontade de desistir. Mas houve algo que nunca me faltou: escuta.

Empreender moda inclusiva no Brasil não é bonito. É técnico, caro e exaustivo. Não existe escala fácil quando você trabalha com múltiplos corpos. Não existe manual pronto. Cada peça exige engenharia, cada modelagem exige teste, cada lançamento exige coragem 

Foi neste cenário que entendi que só fazer roupa não resolveria o problema. Eu precisava registrar conhecimento.

ORGANIZEI UMA BASE DE DADOS PÚBLICOS QUE FUNCIONA COMO UMA PLATAFORMA DE IA COM FOCO EM MODA INCLUSIVA

Em 2025, depois de presenciar as wonders se libertando, entendi que “às vezes” nós vendíamos roupas. Mais do que isso, me dei conta que viramos criadoras de tendências e praticamente um instituto de pesquisa, validando e abrindo caminhos para novas marcas. 

Entendi também o impacto neurológico de se vestir a Legging Joana Dark, o primeiro produto da WonderSize: é como se a cliente ativasse uma armadura contra a sociedade, uma armadura na qual ela se sente protegida e preparada.

Foi ficando claro que a WonderSize deixou de ser apenas uma marca e se transformou em um laboratório, cocriado naturalmente pela nossa comunidade. E desse laboratório nasceu o WonderDataSet, uma base de dados públicos global que tem como objetivo reduzir o déficit intelectual da indústria 

Embora dialogue com o mercado plus size, o WonderDataSet também pode ser usado por estilistas, marcas e profissionais interessados em moda mais funcional e inclusiva, independentemente do tipo de corpo.

Além disso, a plataforma funciona como uma IA interativa, permitindo que consumidores busquem dicas de moda, conforto, tendências e até criem ou desenhem looks pensados para performance e bem-estar.

Ela foi construída a partir de oito anos de experiência empírica de relacionamentos profundos de escuta, corpos reais, com medidas, imagens e variações morfológicas que nunca tinham sido sistematizadas no Brasil. 

Meu corpo — e o de centenas de outras mulheres — virou dado. Mas dessa vez, não para ser reduzido, mas para finalmente ser considerado 

Cruzei moda, tecnologia e inteligência artificial porque percebi que, sem dados inclusivos, toda IA continuará reproduzindo exclusão. A inovação só funciona quando quem historicamente ficou de fora entra no sistema.

ALIMENTAR SISTEMAS COM CORPOS DIVERSOS, SEM FILTRO NEM DISTORÇÃO, É UMA FORMA DE RESISTÊNCIA

Nos últimos anos, senti um aperto difícil ao ver o retorno de estéticas como o heroin chic. Não como referência histórica — isso a moda sempre fez —, mas como desejo ativo, validado e aspiracional outra vez. 

O que pouca gente observa é o papel da tecnologia nisso. A inteligência artificial entrou em adoção massiva treinada, em grande parte, em dados públicos filtrados ou distorcidos: corpos irreais, proporções impossíveis, imagens manipuladas. 

Quando esses dados alimentam sistemas de recomendação, criação de imagem e previsão de tendência, o resultado não é neutro — reforça a magreza extrema como padrão estatístico 

A IA não decidiu isso sozinha. Ela apenas aprendeu com o que ensinamos. Ver essa estética voltar dói porque ela traz uma narrativa perigosa: de que o corpo aceitável é o corpo reduzido, controlado, silencioso. 

E quando vem embalado como inovação tecnológica, o impacto é ainda maior — parece inevitável, científico, indiscutível.

Foi aí que tive ainda mais certeza de que meu trabalho precisava ir além da roupa. Criar dados reais virou um ato político, já que não acreditam em uma mulher gorda – mas se eu ensinar a inteligência artificial, vão acreditar em um robô que cruza dados 

Entendi como gerar uma mudança comportamental na sociedade de uma forma massiva e orgânica de alta relevância. Alimentar sistemas com corpos diversos, sem filtro e sem distorção, tornou-se uma forma concreta de resistência. 

Porque se a próxima geração de tecnologia continuar aprendendo apenas com imagens irreais, o futuro da moda será apenas o passado com mais processamento.

MEU SONHO É SIMPLES E RADICAL: QUE NENHUM CORPO PRECISE SE ADAPTAR PARA EXISTIR

Hoje, sou referência em moda inclusiva não porque venci o sistema, mas porque aprendi a tensioná-lo. 

Dou aulas, participo de relatórios, desenvolvo experiências imersivas e uso IA como ferramenta criativa e crítica. Amadureci profissionalmente, mas também como pessoa. 

(foto: Sara Eulália.)

Aprendi que vulnerabilidade não enfraquece autoridade: ela constrói. Aprendi que inclusão não é discurso, é infraestrutura criada propositalmente. Que inovação sem diversidade é só estética e buzz de internet. 

Aprendi que persistência não romantiza o sofrimento, mas sustenta o caminho quando você é subestimada e não há aplauso. Aprendi que dá para criar futuro sem pedir permissão

Estou escrevendo meu primeiro livro junto com toda a comunidade da WonderSize. Quero abrir dados, provocar a indústria, formar novas pessoas técnicas e sensíveis. Que coloquem o corpo no centro do desenvolvimento de produto. 

Quero que moda, tecnologia e inclusão deixem de ser áreas separadas. Meu sonho é simples e radical: que nenhum corpo precise se adaptar para existir, mas sim que nossas mentes possam expandir rumo à inclusão.

Se você sente que não pertence, talvez o seu lugar ainda não tenha sido construído. E tudo bem sentir medo — ele não invalida o seu caminho. Talvez a pergunta não seja “onde eu me encaixo?”, mas “o que precisa mudar para que eu me sinta parte desse mundo?”

A resposta é não esperar a validação de uma sociedade que odeia quem somos. E procurar ser você na mais profunda essência.

 

Amanda Momente, 36, é designer, AI Fashion Architect, fundadora da WonderSize e criadora do WonderDataSet. Natural de Rolândia (PR), vive atualmente em Balneário Camboriú (SC).

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