“As enchentes no Sul escancararam as falhas do nosso modelo urbano. Já passou da hora de pensarmos o futuro das cidades”

Fabiana Dias - 2 jul 2024
Fabiana Dias é jornalista e trabalha com comunicação sobre sustentabilidade e transição ecológica (foto: Murilo Farias).
Fabiana Dias - 2 jul 2024
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Até bem pouco tempo atrás, as mudanças climáticas pareciam uma coisa distante.

Mesmo que os efeitos já estivessem mais do que visíveis – secas, inundações, ondas de calor, chuvas torrenciais – foi com a tragédia que afetou de uma só vez 471 municípios no Rio Grande do Sul que realmente concretizamos que os eventos extremos estão aí e que as cidades precisam se adaptar. Mas como fazer e o que isso significa?

“Para repensar as cidades, precisamos de um ato de imaginação”. Com esse convite do filósofo colombiano Bernardo Toro, resolvi compreender como alguns especialistas em cidades, urbanismo, ecologia e clima podem nos inspirar a imaginar a cidade que queremos – e depois colocar isso em prática.

Os insights e aspas foram coletados em palestras das quais participei e em trocas e conversas com esses especialistas.

NOSSO ATUAL PARADIGMA DE CIDADES NÃO FUNCIONA

Precisamos entender primeiro como as cidades e o processo de urbanização funcionam.

O viver em cidades é um processo que se intensificou com a Revolução Industrial. Portanto, alguns aspectos desse processo se refletem no modelo que temos hoje de pensar, planejar e construir a cidade e o uso do solo

Das fábricas à concentração de pessoas, automóveis (alô, combustíveis fósseis!), passando por uma base energética focada em combustíveis não-sustentáveis, modo de consumo exploratório e individualização da vida. Isso, sem falar do modelo de gestão pública que pensa a cidade em caixas distintas.

Dessa forma, muita coisa foi empurrada para as bordas, para fora da área urbana ou para outros municípios.

Para a arquiteta urbanista e doutora em geografia, Lígia Pinheiro, “ter uma articulação seria transformador”. Hoje, diretora na Secretaria do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, Lígia busca as integrações e articulações dentro das esferas do próprio município e também entre municípios

Há um certo nível de interdependência entre as cidades, por exemplo, por serem banhadas por um mesmo rio, ou por poderem construir em conjunto um sistema de gestão de resíduos sólidos urbanos.

QUANDO UM CASO ILUSTRA MUITA COISA

Lígia me deu uma aula sobre São Paulo – minha cidade e segunda maior capital da América Latina (com atuais 12 milhões de habitantes).

Resumindo bastante, o que é relevante saber: na virada para o século XX a população de São Paulo tinha crescido exponencialmente e a cidade  precisava de um plano urbanístico.

Duas grandes propostas concorriam entre si. Uma delas, elaborada pelo engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, previa uma intervenção na várzea do Rio Tietê, criando parques e lagos que poderiam ser desfrutados pelas pessoas para recreação e contemplação, mas também usados como áreas inundáveis, podendo absorver a água das chuvas e das cheias. As águas eram uma centralidade para o plano.

O plano diretor que ganhou, no entanto, liderado por Prestes Maia, estava centrado no uso dos automóveis (um plano ‘rodoviarista’). Os fundos de vale foram então transformados em grandes avenidas

Vamos lembrar que naquela época o automóvel ganhava força, a indústria e o café precisavam de escoamento. E assim o “Plano de Avenidas” estabeleceu um ideal de urbanização para a época. Elisa Iturbe, coordenadora da Escola de Arquitetura de Yale, chama isso de “cidades-carbono”.

O caso de São Paulo certamente tem relações com tantas outras cidades no Sul Global. A cidade é uma escolha. Tudo poderia ser diferente. Mas temos preparado as cidades para a “economia” funcionar. Já pensou nisso?

E O CLIMA? DESCARBONIZAR É POSSÍVEL?

E agora, as águas são de novo uma questão para todos nós. Não é novidade que as mudanças climáticas chegaram para ficar e que os efeitos delas estão aqui.

A geógrafa e climatologista, professora da Unicamp e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Luci Hidalgo Nunes, explica que “os eventos extremos estão passando para outra magnitude”.

Livre docente, com mais de 30 projetos de pesquisa financiados por agências nacionais e internacionais e tendo orientado mais de uma centena de estudantes da graduação ao pós-doutorado, ela conhece profundamente o tema.

No caso das chuvas, por exemplo, a principal mudança se refere à distribuição: estão mais concentradas e os eventos de chuva com dramaticidade aumentada. Os modelos científicos mostram que, em áreas tropicais úmidas – como o Brasil -, o agravamento é ainda pior.

Dá para ficar parado diante da informação científica? Acho que não. A urgência está clara. Porém, mesmo entendendo a emergência climática, é importante que a gente não comece a tomar decisões de emergência, apenas

“Reagir rápido não significa entrar em um acionismo. Se acelerarmos os processos nos lugares errados ou com as premissas erradas, vamos cometer os mesmos erros. Certas decisões precisam ser tomadas com visão de longo prazo”. Quem nos faz esse excelente lembrete é Sarah Habersack, diretora do Projeto Agenda Nacional de Desenvolvimento Urbano Sustentável (ANDUS), estabelecido pela cooperação entre Brasil e Alemanha.

“Os efeitos das mudanças do clima têm gênero, raça e classe”. Já essa frase contundente da diretora regional para América Latina do Pacto Global de Alcaides por el Clima y la Energía, Hélinah Cardoso traduz e concentra uma constatação muito importante sobre quem são as pessoas mais afetadas pelas mudanças climáticas.

As pessoas mais afetadas devem ser escutadas e fazer parte da construção dos planos. Em si, isso já é um novo paradigma.

IMAGINAÇÃO E PROSPECTIVA: O QUE PODEMOS CONSTRUIR

Arturo Escobar, antropólogo notório no campo da ecologia política e um dos principais pensadores de cidade, ensina que “um habitar diferente é possível e para isso é preciso buscar novas infraestruturas para a vida e reparar o tecido de interrelações que constituem os territórios que somos e habitamos”.

Dentro do tema urbano acontece a produção coletiva da vida. Aqui está uma chave importante: o coletivo. Nós, humanos, somos seres relacionais. Mas as cidades não são mais espaços que favorecem a vida coletiva.

E como criar esses espaços? Taicia Marques, doutora em paisagismo e ciências ambientais, que é professora da Universidad Nacional Agraria La Molina, no Peru, explica que “tecnologia para construir espaços verdes, promover convívio e utilizar recursos como as Soluções Baseadas da Natureza temos aos montes. O que precisamos é ter clareza sobre onde queremos chegar e saber entender os tempos da natureza”.

Outra chave é o pensar integrado, tanto dentro da cidade como entre cidades. Olhando para dentro, seria muito contributivo um trabalho transversal entre secretarias e, inclusive, dispor de orçamento e financiamento para ações integradas

Do ponto de vista da integração entre cidades, é possível pensar nas mútuas contribuições que cidades dentro de arranjos locais podem proporcionar e se beneficiar de serviços ecossistêmicos.

Mas com que dinheiro fazer isso acontecer? Há recursos para promover cidades resilientes e adaptadas. O desafio está em desenvolver projetos com qualidade técnica suficiente, que sejam capazes de demonstrar conformidade climática (estamos falando aqui de compromissos e critérios municipais de redução de emissões, adaptação e resiliência), construídos de forma integrada, articulados e com sinergia multinível.

VAMOS PRECISAR TRABALHAR COM AS CIDADES QUE JÁ EXISTEM E UM EXEMPLO DE COMO FAZER ISSO É MEDELLÍN

Não dá para mudar tudo. Então, como vamos usar o solo? De toda a área urbanizada no Brasil, 80% dela é altamente adensada. Não tem mais espaço livre. E as áreas livres são essenciais, mas também um desafio, sobretudo em função da pressão da desigualdade.

No contexto atual, áreas livres, com função de absorver água, promover lazer e recreação, espaços contemplativos, têm sido ocupadas e transformadas em área de habitação autoconstruída.

A que todas essas possibilidades nos levam? “Precisamos de um novo imaginário urbano”, mais um convite para reinventar, feito pelo arquiteto e filósofo Daniel Marín, pesquisador da Universidade Nacional da Colômbia, em Medellín, cidade colombiana referência quando se fala em transição urbanística.

Medellín conseguiu colocar em prática uma transformação social e processos de ‘acupuntura urbana’, intervenções precisas que irradiam melhorias sobretudo para as pessoas que mais precisam

Foram implementados espaços de convivência, educação e cultura, corredores verdes, medidas para segurança alimentar e todo um conjunto de ações articuladas, característica importante da forma de conduzir a política pública. Medellín criou senso de pertencimento, valorizando ‘lugares de significado’.

A que pode nos levar esse novo imaginário? A cidades em que “cada teto verde e cada cisterna de coleta de água da chuva sejam a trama uma tapeçaria urbana mais verde, sustentável e exuberante e costurem comunidades mais unidas. A um lugar onde a ideia de selva urbana não seja apenas uma figura de linguagem, mas uma descrição literal de nossos espaços de vida”, traduz Daniel.

E O FUTURO?

Se o paradigma atual de cidades foi traçado a partir de uma economia exploratória, colonial, que promove acumulação, poder e êxito desproporcionais, e estamos entendendo e fomentando a economia verde e regenerativa, que tal pensar em cidades que reflitam os princípios deste novo modelo econômico?

Trouxe a provocação de Bernardo Toro no começo deste texto. Volto para ele, com sua reflexão:

“Para pensar o futuro das cidades precisamos mudar de paradigma e passar a pensar transações (emocionais, econômicas, políticas, tecnológicas, sociais, culturais, espirituais) numa perspectiva ganha-ganha, ou seja, toda transação em que seja possível a dignidade humana e o cuidado com o planeta”.

Imagina como seria!

 

Fabiana Dias é jornalista e trabalha com comunicação sobre sustentabilidade e transição ecológica. É consultora de programas de cooperação internacional e apaixonada por histórias, cidades e modos de vida sustentáveis.

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