Atropelado (duas vezes!) enquanto pedalava, ele transformou a paixão pelo esporte em um empreendimento

Tarcísio Moraes Alves - 10 set 2021
Tarcísio Moraes Alves, designer, esportista e fundador da Addict2life, usando uma das camisetas que criou.
Tarcísio Moraes Alves - 10 set 2021
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Nasci em Barretos e troquei o interior de São Paulo pela capital com apenas 14 anos para, sem meus pais, realizar o sonho de criança de ser artista e designer de revistas.

A paixão por esse universo nasceu do encantamento que tinha pelo trabalho do meu tio, Sandro Cardelíquio, que considero como um segundo pai. Ele era da área de criação e trabalhou na editora Abril na década de 1980 na área de ilustração.

Um dia, ele me levou para conhecer a gráfica da editora, na Marginal Tietê. Eu fiquei alucinado. E só conseguia pensar: quero isso para a minha vida!

Conversei com meus pais e disse que queria sair do interior. Como meu tio se ofereceu para me hospedar em sua casa, eles não criaram problemas. Peguei minha mochilinha e “vazei”

Assim, começou minha jornada neste ambiente de trabalho. Meu sonho sempre foi trabalhar na Abril, mas comecei como office boy da agência do meu tio, onde me apaixonei e aprendi muito sobre a arte gráfica e manipulação de fotos, até que comecei a entrar no universo dos softwares.

Na época, fiz trabalhos para a extinta revista Gula e para a Rádio Transamérica, atendidas pela agência do meu tio. Meu primeiro emprego, de fato, foi em 1999, na editora Camelot.

A Camelot ficava perto da ponte da Cidade Universitária. Daquele predinho de dois andares, eu olhava o “monstro” que era a Abril e pensando: quero ir para lá!

Até que, no início de 2002, na semana em que finalmente fui conversar com a diretora de arte da Capricho, a Mayu Tanaka, e a Roseli de Almeida, do Grupo Exame, sofri meu primeiro acidente, em 13 de julho. E outro acidente me acertou em cheio anos depois. Mas para contar essa história – e como sobrevivi e criei a marca Addic2life –, é preciso voltar uns passos para trás.

O DIA EM QUE UM ÔNIBUS PASSOU EM CIMA DE MIM

Aos fins de semana, eu costumava ir para Jundiaí, no interior de São Paulo, fazer trilhas de bike. Chamei vários amigos para pedalar, mas todos estavam de ressaca e decidiram não ir. Naquele dia, antes de sair, a primeira notícia que ouvi foi que o Claudinho, da dupla Claudinho & Buchecha, tinha morrido em um acidente de carro.

Mesmo com toda essa bad trip, resolvi pedalar sozinho. E, 15 minutos depois, quando eu estava saindo da cidade, me vi estatelado no chão.

Um ônibus desviou de uma obra da prefeitura e voltou para fazer uma conversão, teoricamente proibida. O motorista não me viu, passou por cima de mim e só parou depois de 100 metros porque percebeu que a bicicleta ficou enroscada debaixo do ônibus

Fiquei ali esmagado no chão, como um sanduíche. Quebrei praticamente tudo, foram várias fraturas expostas. O braço esquerdo quase foi decepado; o direito, esmagado. Minhas duas pernas quebraram. Meu rosto se partiu em três.

Cheguei a apagar, mas voltei muito rápido à consciência e consegui me comunicar com uma senhorinha, pedindo para que ela pegasse meu celular e ligasse para a minha tia.

O tempo inteiro eu tentava mexer as pernas para ter certeza que não ia ficar paraplégico. Mas eu não conseguia fazer nenhum movimento. A dor era grande demais.

Até que chegou o Corpo de Bombeiros, junto com a minha tia, e quando começaram a me manipular para saber qual era minha situação, um deles mexeu no meu pé e doeu muito. Parece contraditório, mas aquilo foi um alívio para mim! Pois mostrou que eu estava conseguindo sentir os pés e as pernas.

Fui para o hospital e a equipe me encaminhou direto para a cirurgia, mas alertou minha família de que eu tinha grande probabilidade de morrer. Já tinha perdido três litros e meio de sangue.

A RECUPERAÇÃO FOI DOLOROSA, MAS SUPEREI AS EXPECTATIVAS DOS MÉDICOS

Contrariando os prognósticos, eu sobrevivi. Aí, veio a parte mais tensa: a recuperação. Para ter uma noção do estrago, o meu braço direito foi putrificando e o médico falou que ele nunca mais ia mexer.

Para me baquear ainda mais, o médico disse que a recuperação iria demorar. Mas eu precisava melhorar — ou iria enlouquecer.

Então, todo dia, eu acordava disposto a progredir um pouco mais, a tentar mexer a mão, a levantar sozinho, a balançar as pernas. Nesta toada, recuperei em três meses o que, segundo os médicos, levaria um ano.

Com dois meses, deixei a cadeira de rodas, andava como um pirata, me arrastando, mas andava! Um dia, o médico estava mexendo no meu braço para fazer a limpeza das partes apodrecidas e eu tive um reflexo e segurei a faixa. Ele me olhou e pediu para eu fazer de novo — desacreditando que meu braço tinha voltado a mexer

Aquilo me deu um gás. Comecei, a cada dia, a dar mais valor para as coisas simples, como agradecer ao acordar, estar respirando e poder levantar.

DEPOIS DE ALGUNS MESES, CONSEGUI REALIZAR MEU SONHO PROFISSIONAL

Quando eu já estava melhor para voltar a trabalhar, fui de novo tentar uma vaga na Abril. A Mayu ficou sabendo da minha história e disse que, na época, queria me contratar, mas não sabia como, já que eu tinha sumido.

Muita gente dizia que eu não poderia nem deveria voltar a trabalhar porque ainda estava com muitas sequelas. Mas houve pessoas que me abriram as portas e uma delas foi a Roseli de Almeida.

No final de 2002, ela me chamou para um projeto especial da Exame. E de frila em frila, fui ficando até assumir o cargo de diretor de arte da Quatro Rodas, em 2007.

Os anos foram passando e eu já estava ganhando bem, num cargo legal, trabalhando com carro, viajando. Até que comecei a pegar um pouco “de bode” do mercado, porque percebi que eu não aguentava ficar enclausurado dentro de uma empresa. Aquilo no dia a dia foi me deixando doente

Automaticamente, minha natureza me fez voltar para o esporte, para buscar algo que me animasse.

E, quando eu estava começando a pedalar de novo, sofri um novo strike, em 2013.

PARA O MEU AZAR, UM RAIO CAI SIM DUAS VEZES NO MESMO LUGAR

Foi um acidente bem menor do que o primeiro — mas o impacto, bem maior. Fui atropelado por uma moto quando andava de bike. Quebrei a cabeça — mas sem sequelas — e mutilei o braço direito (de novo!).

O médico disse que esporte, para mim, “nunca mais”. Eu ficaria com o braço semifuncional, mesmo depois de religá-lo. Fiz sete cirurgias, gastei tudo o que tinha porque o plano de saúde não quis arcar com todas as operações

Depois de tudo isso, ainda tive que escrever uma carta para a editora Abril dizendo que estava em condições de trabalhar e não queria me aposentar por invalidez. Até brinco que, se eu tivesse aceitado a invalidez, teria me aposentado bem, porque em 2016 fui mandando embora da Abril. Mas aquilo era realmente o que eu queria no momento — e não me arrependo de ter lutado contra o “status” de inválido.

Além de voltar a trabalhar, eu desejava retomar os esportes, mesmo com a contraindicação dos médicos. E foi o que fiz. Investi na fisioterapia e nos exercícios, porque simplesmente não tinha como negar meu DNA aventureiro.

ADDICT2LIFE. OU: COMO DESCOBRI QUE SOU “VICIADO” NA VIDA!

Um dia, durante um duatlo (corrida e ciclismo), com a cabeça a milhão pensando em trabalho — nesta rotina de frila que é meu dia a dia até hoje –, resolvi filmar meu treino e entrei ao vivo em uma live nas redes sociais. De repente, pessoas começaram a interagir comigo. Quando desliguei, vi que havia seis mensagens.

Cheguei em casa, coloquei a bike no rolo para treinar indoor e liguei de novo o celular, transmitindo meu treino. Mais pessoas começaram a interagir comigo. Desliguei e me veio o seguinte insight: eu tenho vício em vida!

Fiquei com isso na cabeça até que, em 2018, decidi transformar esse conceito em um negócio. Primeiro, tive a ideia do nome e do logo da Addict2life. Mas depois, caiu a ficha: o que eu ia oferecer?

Pensei na minha história de superação, mas não queria ficar apenas em algo egocentrista. Então, decidi chamar outras pessoas para compartilhar suas trajetórias inspiradoras na rede social da marca.

Uma das primeiras pessoas com quem entrei em contato foi o Fernando Fernandes (modelo e ex-BBB), que depois que ficou paraplégico se tornou tetracampeão em paracanoagem. Na época, ele estava fora do Brasil, mas respondeu pelo Instagram dizendo que me responderia quando voltasse. E de fato, uma hora depois de desembarcar ele me ligou.

Depois que o Fernando topou, outras pessoas foram se interessando em compartilhar suas vivências. Decidi que era hora de ir atrás de apoio de empresas para o projeto. Mas, na primeira tentativa, não tive resultado. E desanimei, deixando a ideia na gaveta para seguir com meus frilas e pagar os boletos.

CRIAR CAMISETAS MOTIVACIONAIS É SÓ O PRIMEIRO PASSO DA MINHA EMPRESA

Paralelamente, continuei treinando porque isso me faz super bem. Fiquei muito amigo de um atleta amador que tem uma assessoria esportiva e passei a ajudá-lo neste trabalho. E percebi que fui virando um personagem do meu bairro, aqui na região de Alphaville.

As camisetas da Addic2life.

Se antes eu era conhecido como o “Tarcísio da Quadro Rodas”, de repente virei o “Tarcísio viciado em esporte”, viciado em pedalar.

Do nada, meu nome “sumiu” e as pessoas passaram a me chamar de Addict2Life. Vi que minha marca estava pegando, mesmo eu ainda não tendo nada, só um Instagram.

Fui sacando que meu propósito ia se tornando referência para as pessoas, em relação a estilo de vida e motivação.

Decidi então retomar o projeto, em março de 2020.

A forma que encontrei de fazer isso, no primeiro momento, foi criar uma linha de camisetas com frases motivacionais, uma espécie de “capa de super-herói”, para mostrar às pessoas que elas podem se cuidar, treinar e até se motivar sozinhas

Nessa pegada, criei seis camisetas com estampas e frases diferentes, lançando uma por mês. Logo na primeira, em dezembro do ano passado, vendi 70 peças em menos de uma semana. E vi que o número não era ruim comparado ao que sondei em algumas lojas esportivas. Havia um mercado ali.

Os modelos (femininos, masculinos e infantis) estampavam as seguintes frases em inglês: Just Start, Life Eletric, I’m Back (essa, aliás, é meu maior case, vendi 70 peças em três dias, porque todo mundo quer voltar a fazer algo que abandonou), Less is more, Life Rises Me Up e The Hero Lives Inside You.

QUERO PRODUZIR CONTEÚDO SOBRE ESPORTES OUTDOOR E BUSCO PARCERIAS

Quando meu estoque acabou, decidi estudar esse nicho e montar uma linha fitness completa, com top, calças legging, shorts de corrida, entre outros artigos, tudo pensando na performance do treino.

A pandemia deu uma atrapalhada: faltou material e tive problemas com alguns fornecedores. Por conta disso, esse processo de criar uma linha completa está parado e o site da Addict2Life, temporariamente inativo. Ênfase aí no temporariamente.

Sei que talvez só o e-commerce de roupas não gere lucro, então também quero focar na produção de conteúdo, buscando apoio e parceria de empresas para levar inspiração às pessoas através do universo do esporte outdoor. (Se interessar, é só chamar!)

Quero também tentar capitalizar recursos com as pessoas pedindo para elas aplicarem, no meu projeto, 10% do valor que “rasgam” na academia. Sei que posso inspirar muitas pessoas, inclusive apoiando seus treinos e indicando profissionais.

Sequelas, limitações físicas e lesões foram os “presentes” que ficaram de todos esses obstáculos que enfrentei ao longo desses anos. Hoje, mesmo “remendado”, continuo otimista e em movimento, pronto para levar a Addict2Life adiante.

 

Tarcísio Moraes Alves é criador da marca Addict2life, designer, embaixador da All Biker, ciclista e corredor influencer.

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