Cerveja artesanal produzida por mulheres, LGBTs e para a periferia. Esse é o sonho grande da Benedita

Priscila Gorzoni - 27 abr 2021
Eneide (à esq.) e Melissa, as empreendedoras à frente da Benedita.
Priscila Gorzoni - 27 abr 2021
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Uma cerveja de fundo de quintal. Se essa definição hoje não corresponde mais à realidade, ela ainda descreve com precisão a origem da Cerveja Benedita, que nasceu atrás da casa onde vive o casal Melissa Miranda, 44, e Eneide Gama, 49, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo.

A marca faz parte do segmento de cervejarias artesanais, com escala inferior a 10 mil litros por mês. Em sua comunicação, se posiciona como uma cerveja feminista, inclusiva, periférica. Melissa explica:

“Ser mulher em um segmento predominantemente machista e elitista foi o nosso desafio inicial. Éramos avaliadas e questionadas o tempo todo”

O mercado cervejeiro é dominado pelos homens — apenas 11% são mulheres, segundo o Censo das Cervejeiras Independentes Brasileiras.

“Somos pioneiras na periferia como ‘brassadeiras’”, diz Eneide, referindo-se à brassagem, a etapa inicial de cozimento dos grãos para a produção da bebida. 

AS DUAS SE CONHECERAM NUMA EMPRESA DE REMEDIAÇÃO AMBIENTAL

Eneide nasceu na periferia do extremo Sul de São Paulo. Fez escola pública até o ensino médio, técnico em Secretariado e Prótese dentária; depois, cursou faculdade de Gestão Ambiental e pós em Educação. 

Melissa é natural de Salvador. Formada em administração com MBA em Marketing de Serviços, trabalhou na área comercial até se apaixonar pelo terceiro setor. 

As duas se conheceram em 2003, trabalhando juntas em uma empresa de remediação ambiental. Passaram a fazer parte de movimentos sociais, entre eles o da União Popular de Mulheres junto com a Agência Solano Trindade

“Coordenamos mais de 40 educadores, executamos 33 feiras sociais, com contratação de artistas e palco junto com 76 centros de juventude das periferias de São Paulo”, enumera Melissa. “Depois, encaramos o projeto da Seja Digital, que atendia toda a periferia. Mobilizamos mais de 15 mil pessoas.”

Entre as muitas iniciativas em que se engajaram estava um projeto de distribuição de orgânicos. Foi por essa época que fizeram seu primeiro curso de produção de cerveja artesanal em São Lourenço da Serra, na região metropolitana da capital. Foi assim que começaram a se aventurar na fabricação caseira.

NO COMEÇO, CADA NOVO LOTE DE CERVEJA SIGNIFICAVA UM DESAFIO

Em seus trabalhos sociais pelas periferias, Melissa sentia falta de uma boa cerveja, com preço acessível. 

Assim, em 2017, o casal resolveu colocar em prática a ideia de produzir uma cerveja. “A Benedita tem o objetivo de levar o puro malte a preço justo”, diz Eneide. 

Elas investiram inicialmente 10 mil reais de recursos próprios no negócio. Logo, o quintal da casa no Taboão se transformou numa minifábrica artesanal. 

A primeira receita produzida foi no estilo American Pale Ale (APA). Eneide relembra as dificuldades: 

Às vezes, a cerveja não fermentava da forma correta, o envase era prejudicado pela chuva… Nesse espaço, não havia maneiras de a cervejaria se desenvolver e escalonar sua produção”

Com equipamentos simples e sem um sistema de refrigeração adequado, cada novo lote de cerveja era um desafio. 

Dependendo da época do ano, costumávamos perder lotes de cerveja em decorrência do calor”, diz Melissa. “Com o passar do tempo e aumento da demanda, percebemos que precisávamos melhorar e ampliar nosso processo produtivo.”

EVENTOS NA PERIFERIA AJUDAVAM A TURBINAR AS VENDAS

O lançamento oficial da Benedita foi no dia 8 de março de 2018. O nome faz referência à rua Benedita Joana Franco, onde elas vivem; além disso, é uma homenagem indireta ao pai de Eneide, Benedito.

“Surgiu de supetão”, lembra Melissa, sobre a inspiração ao batizar a cerveja. “Um amigo me perguntou e eu respondi ‘Benedita’, porque era um nome que nos cercava. Depois fomos dando a identidade, criando a arte…” O rótulo foi desenvolvido por Eneide junto com um designer.

Por ser um empreendimento periférico tocado por mulheres com o discurso de economia solidária, igualdade de gênero e de visibilidade LGBTQIA+, a cervejaria atraiu atenção. Apareceu em veículos e programas como Folha de S.Paulo, Band News FM e Conversa com Bial.

Porém, ainda faltava a formalização do negócio, que não dispunha da certificação do Ministério da Agricultura e Pecuária. Isso era um obstáculo para que a cerveja fosse vendida em bares e restaurantes, sujeitos a fiscalização. 

O jeito era fazer a Benedita circular por bares da periferia que topavam o risco e por eventos como o Festival Percurso, Festival da Cooperifa e a Feira Literária da Zona Sul, em que os organizadores compravam e revendiam a cerveja. 

Em outros encontros, elas mesmas assumiam a venda direta em barracas com a marca Benedita.

AO MIGRAR PARA UMA NANOCERVEJARIA, ELAS REGULARIZARAM O NEGÓCIO

Nessas andanças por feiras e eventos (além das redes sociais), elas foram construindo uma rede de contato com outras cervejeiras, inclusive periféricas.

“Temos mais proximidade com a Dutra Beer e a Mito”, diz Eneide, que menciona ainda artesanais como Graja Beer, Queerbeerbr, Nosotros Cerveja Artesanal, Cervejaria Insurreição e Mulheres Cervejeiras Gonçalenses.

Em 2020, já durante a pandemia, elas fizeram uma imersão no tema em um curso do Sebrae e conheceram a dona da Zuraffa, outra cervejaria independente. 

O contato acabaria se revelando crucial. A Benedita passou a ser produzida na nanocervejaria que fabrica a Zuraffa, em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo.

“Essa conexão foi um divisor de águas na Benedita. Por meio dessa parceria, melhoramos a qualidade de nossas cervejas e ampliamos nossa capacidade produtiva, que antes era de 400 litros e passou hoje para 1 400 litros” 

Isso viabilizou a certificação da cervejaria junto ao Ministério, já que o principal entrave era a falta de equipamentos e de um ambiente adequado.

HOJE, A BENEDITA TRABALHA COM QUATRO ESTILOS FIXOS DE CERVEJA

Melissa cuida do financeiro e do atendimento ao cliente. As demais funções são compartilhadas entre as duas — inclusive a produção.

Os insumos — malte, lúpulo e levedura — são adquiridos de fornecedores (ou “brew shops”) como Lamas, Central, Rohbrau e Prazeres da Casa

Recebida a matéria-prima, o casal se dedica a produzir a cerveja, o que leva entre 15 e 20 dias. Segundo Melissa:

“Atualmente estamos conseguindo manter um estoque de pelo menos 200 litros, para que o fluxo de vendas e a diversidade de cervejas não sejam prejudicadas”

A American Pale Ale, a primeira receita, segue como o carro-chefe da marca. 

“Trabalhamos com quatro estilos fixos: Lager, Witbier, APA e IPA [India Pale Ale], em garrafas de 300 e 600 mililitros e no growler de 1 litro”, diz Melissa. As long necks, por exemplo, custam entre 9 e 12 reais; a APA de 600 ml sai por R$ 17,90. “Também vendemos o barril de chope de 30 litros.” 

POR MEIO DE UMA PARCERIA, ELAS AMPLIARAM O RAIO DE ATENDIMENTO

Com a pandemia, eventos foram cancelados, bares reduziram sua operação… E as empreendedoras precisaram se adaptar. 

Uma maneira foi vender direto para o consumidor final. “Os desafios foram imensos, pois não conhecíamos nosso consumidor”, diz Eneide. Uma aceleração-relâmpago de dois meses com a ANIP (Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia) ajudou as sócias a entender mais de marketing, gestão financeira etc.

Elas assumiram por um tempo a logística da entrega, mas acabou ficando pesado. A saída, diz Eneide, foi firmar parcerias com pontos de venda — um em Interlagos (Zona Sul da capital) e outro na Vila Prudente (Zona Leste) — onde trabalham com estoque de Benedita em garrafas de 600 ml.

“Essa parceria com empreendedoras periféricas possibilitou a ampliação do nosso raio de atendimento e agilidade na entrega. Hoje, temos a capacidade de entregar as demandas geradas em até 48 horas”

A Benedita atualmente está disponível em estabelecimentos de São Paulo (como Caxiri Chopp e Café de Marte), Taboão da Serra, Osasco e o ABCD, a região formada por Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema. 

“A realização profissional hoje é quase plena”, diz Eneide. “Só falta melhorar o faturamento.”

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Benedita
  • O que faz: Cervejaria com discurso feminista criada na periferia
  • Sócio(s): Melissa Barbosa Miranda e Eneide Pontes Gama
  • Funcionários: 5 (terceirizados)
  • Sede: Taboão da Serra (SP)
  • Início das atividades: 2018
  • Investimento inicial: R$ 10 mil
  • Faturamento: R$ 80 mil (previsão para 2021)
  • Contato: [email protected]
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