Como a Engajamundo mobiliza jovens para o ativismo enquanto busca se manter financeiramente saudável

Daniel Boa Nova - 26 set 2016 Alguns dos jovens reunidos no encontro anual do Engajamundo, realizado em 2015.
Um registro bem humorado do encontro anual da Engajamundo, realizado neste ano.
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O ano é 2012 e o Rio de Janeiro cuida dos preparativos para um dos eventos mais importantes de sua história. Chefes de Estado e autoridades em geral estão prestes a desembarcar no Aeroporto do Galeão. Sua missão é renovar o compromisso global com as mudanças que o planeta necessita para continuar sendo um lugar habitável aos humanos, duas décadas depois da Eco-92. Batizada de Rio+20, a Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável reúne as maiores lideranças políticas do mundo para avaliar progressos e lacunas na implementação das decisões acordadas 20 anos antes.

A 450 quilômetros dali, em São Paulo, um grupo de amigas universitárias está apreensivo com os rumos que esse debate pode acabar não tomando. Elas sabem que muito pouco foi feito desde a conferência anterior — e que, por isso mesmo, as mudanças nas políticas públicas são ainda mais urgentes. Aproveitando o momento da cúpula, elas organizam um comitê para multiplicar debates em torno do tema ambiental, engajar mais jovens como elas e pressionar as autoridades. O grupo ainda não tinha um nome, mas pouco após o evento ficaria conhecido como Engajamundo.

Para entrar no Engajamundo, a única exigência é ter entre 15 e 29 anos.

Para entrar no Engajamundo, a única exigência é ter entre 15 e 29 anos.

“Venha ser parte da solução”, diz o site da organização que tem como foco reunir, formar e mobilizar jovens para o ativismo em processos políticos internacionais. Hoje, a rede tem mais de 1.200 membros, todos com idades entre 15 e 29 anos — este é o único pré-requisito para participar — espalhados pelas cinco regiões do Brasil e subdivididos em núcleos regionais.

Uma fala da coordenadora geral do Engaja, Raquel Rosenberg, de 26 anos, na COP 21, mostra bem as ideias e a mensagem que o grupo leva (assista aqui). No mesmo evento, ela entregou em nome do Engajamundo o troféu Cara de Pau à ministra Izabella Teixeira, por assumir um compromisso já assumido anteriormente: acabar com o desmatamento ilegal no Brasil. Sem tirar o sorriso do rosto.

Débora Leão, 26 anos, coordenadora de comunicação e uma das fundadoras do grupo, conta como tudo começou: “A gente entrou nesse universo um pouco sem querer. Queríamos falar sobre meio ambiente, porque era um tema que a gente não lia quase na faculdade e via pouca gente interessada. Começamos a fazer debates e, a partir daí, vimos a necessidade de um engajamento político nessa escala internacional. Foi quando a gente criou o Engaja”.

NO INÍCIO, SOBROU VONTADE MAS FALTOU TÉCNICA

Ao chegarem na Rio+20, já com mais de 30 pessoas envolvidas, o grupo constatou sua própria falta de conhecimento para participar dos processos decisórios e influenciá-los de forma substancial. Havia espaços para organizações da sociedade civil formadas por jovens manifestarem suas reivindicações, mas eram ocupados majoritariamente por grupos vindos de países desenvolvidos — e que estavam mais articulados e mobilizados com demandas locais e específicas.

Como os jovens brasileiros poderiam marcar posição nesses fóruns internacionais? Como poderiam participar das grandes decisões políticas que impactam suas comunidades, países e o mundo? Foi a busca por respostas a essas perguntas difíceis que desde sempre motivou o Engajamundo.

Raquel

Raquel entrega o troféu Cara de Pau à ministra Izabella Teixeira, em Paris.

Um ano depois, no final de 2013 aconteceria uma nova Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, a COP 19, em Varsóvia. Para conseguir levar uma delegação própria à Polônia, a organização recorreu ao financiamento coletivo. “A gente fez campanha durante 2 meses. Usando nossas redes pessoais, indo atrás de tio, mandando mensagem… E conseguimos o financiamento para três pessoas. O crowdfunding deu certo e a galera foi”, conta Débora.

Conforme o Engaja divulgava campanhas e viabilizava iniciativas, mais e novas pessoas se conectavam. Se por um lado isso significava cumprir o propósito da sua existência e multiplicar frentes de atuação, por outro a sustentabilidade financeira da recém formada organização entrava em risco.

Em uma situação comum a muitos empreendedores e startups, a demanda por horas trabalhadas e os custos dos projetos aumentavam sem que fosse estabelecida uma fonte regular de receitas. Débora lembra bem dessa fase:

“No começo, o Engajamundo era um projeto paralelo, estava todo mundo trabalhando, fazendo faculdade. Em 2 anos, tivemos uma crise”

Ela conta que, nessa crise, uma parte das pessoas acabou saindo, porque estava sobrecarregada ou já não via mais sentido. “Foi quando vimos que não dava mais para levar apenas como um projeto. Tínhamos de mudar aquilo e cada uma saiu do trabalho que tinha para tentar achar formas de financiamento e de fazer disso o nosso trampo”, diz. Foi quando a iniciativa começou a se formalizar para tomar o corpo que tem hoje.

COMO ORGANIZAR E MOBILIZAR JOVENS DO PAÍS INTEIRO?

Como falado acima, o Engajamundo tem 1 200 membros ativos, em todo o país, e o principal ponto de intersecção entre quem está em diversas regiões são os grupos de trabalho. A rede é dedicada a entender e acompanhar os temas debatidos nas conferências da ONU. Suas atividades incluem estudos, facilitação de formações e a prática do ativismo nas ruas e redes, além da logística (que afinal eles aprenderam e passaram a dominar) para participar das conferências.

Débora fala dessa estratégia: “A gente tenta ligar os espaços de participação e a realidade local da galera com esses debates globais. Quanto mais a gente se empoderar, mais conseguimos ser parte da solução”.

On e offline: a coordenadora de redes Amanda Segnini numa ação de rua.

On e offline: a coordenadora de redes do Engajamundo, Amanda Segnini, numa ação de rua.

Atualmente, cinco grupos de trabalho estão em andamento, com os temas Clima, Cidades, Gênero, Desenvolvimento Sustentável e Biodiversidade. Desde o início, sempre houve a preocupação em manter a estrutura de decisões internas da organização o mais fluída e horizontal possível. É uma forma de não reproduzir os mesmos processos excludentes que eles criticam. Isso significa que novos grupos de trabalho podem ser criados por iniciativa de qualquer membro, desde que se relacionem com o tema de alguma conferência da ONU.

Em apenas dois momentos a rede toda se conecta: nas reuniões mensais, que acontecem por Hangout e são abertas a quem quiser participar, e no Encontro Nacional do Engaja — um evento anual que em 2016 chegou à sua terceira edição. “O primeiro tinha 12 pessoas, o segundo 40 e agora tinha 70 pessoas”, conta Amanda Segnini, 25 anos, coordenadora de redes da ONG.

DE ONDE VEM DINHEIRO PARA BANCAR O ATIVISMO?

Mas como essa galera faz para manter a casa em ordem e os projetos na rua? Eles não recebem recursos públicos nem patrocínios de empresas, por exemplo. A autonomia e o equilíbrio no fluxo de caixa passam, necessariamente, por fontes de recursos menos convencionais. Sim, essencialmente, crowdfunding e outras formas de financiamento.

As contas da ONG são transparentes e estão disponíveis no site. Quando há uma nova conferência internacional na agenda, o Engajamundo segue lançando campanhas pontuais de financiamento coletivo para enviar sua delegação. Uma opção de contribuição recorrente também é utilizada, neste caso para custear despesas administrativas mensais (com distribuição de recompensas customizadas aos contribuintes).

Além disso, conforme o grupo foi crescendo e aparecendo, passou a conseguir financiamentos institucionais de outras organizações do terceiro setor. Em 2014, por exemplo, o WWF investiu em um projeto do Engaja que levou treinamentos para mais de mil jovens de 10 estados brasileiros. “Fizemos formações sobre mudanças climáticas em cidades das cinco regiões do país”, conta Débora.

Já no começo deste ano, o Engajamundo conquistou dois financiamentos institucionais — do Instituto Arapyaú e da Fundação Arymax — que permitiram profissionalizar a equipe administrativa. Pelo menos até o fim do ano, os salários dos membros que lá atrás abriram mão de seus trabalhos para ir atrás de maneiras de sustentar o Engaja estão garantidos. Débora conta:

“Conseguimos construir uma rede de contatos que levou ao financiamento institucional. A gente faz muita coisa com pouca grana. É um modelo de tentar buscar a sustentabilidade dentro da própria organização”

A importância de construir um network próprio, de aprender com a demanda e de não desistir frente ao primeiro não. Estas poderiam ser dicas para quem decidiu empreender, mas são alguns dos aprendizados que o Engajamundo reuniu em sua trajetória. Porque assim como um novo negócio tem mais chances de prosperar se os criadores tiverem um propósito, um grupo ativista sintonizado com nossa época precisa de uma postura empreendedora para ampliar seu impacto.

Foi assim que um punhado de jovens construiu uma organização não governamental respeitada. Foi assim que essa organização equilibrou as finanças sem comprometer sua causa. Foi assim que o Engajamundo conseguiu levar a voz de jovens brasileiros para ser ouvida lá na ONU.

“Olhando pra onde começou o Engaja e para onde estamos hoje, vemos que conseguimos chegar a muita gente que nunca teríamos imaginado”, diz Débora. Elas não pensam em parar. Que bom.

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