Como a Eunerd se salvou da falência depois de perder clientes e sócios: reaprendendo a aprender

Reinaldo Chaves - 30 maio 2017 Daniel Tutida e Bruno Ramos contam como foi a jornada de renascimento da startup, que deixou de se chamar Encontre um Nerd e assumiu um novo posicionamento de mercado: B2B.
Daniel Tutida e Bruno Ramos contam como foi a jornada de renascimento da startup, que deixou de se chamar Encontre um Nerd e assumiu um novo posicionamento de mercado: B2B.
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Sem dinheiro, sem sócios, sem funcionários, sem clientes, sem investidor. Quando seu negócio chega neste ponto, o caminho mais óbvio é fechar as portas. Mas não foi o que a Eunerd escolheu. A startup, que nasceu como um blog de TI e se chamava Encontre um Nerd, foi criada em 2014, para conectar técnicos de informática, carinhosamente chamados pela empresa de “nerds”, com seus clientes pessoas físicas. Já contamos essa história aqui no Draft. O negócio que parecia promissor — mas quase quebrou no ano passado.

Bruno Ramos, 28, fundador e único sócio que restou da primeira fase, diz ter percebido que não era o tempo certo do B2C deste nicho no Brasil. “Demos a cara a tapa, fomos os primeiros a oferecer isso e o mercado nos disse ‘não’. Fatores mostraram que não era a hora: pouca recorrência, muita dificuldade de trazer novos clientes, muito medo de receber um desconhecido em casa, pessoas que consumiam eram grande parte de faixa etária mais avançada, muitas pessoas pegavam os telefones dos nerds por fora e os clientes não sabiam direito o que queriam”, lista.

DO PESADELO À ESPERANÇA DE UM RECOMEÇO

As coisas pioraram em janeiro do ano passado, quando os dois outros sócios resolveram sair do negócio. Com eles, 90% da equipe também abandonou a empresa, restando apenas uma pessoa, além de Bruno. Com poucos clientes a companhia já começava a encerrar contratos com vários fornecedores. “Nessa época até tive uma esperança de que as coisas melhorariam, quando uma grande empresa de TI especializada em varejo fez uma proposta de aquisição”, conta Bruno. Mas isso também não deu em nada:

“Ficamos três meses negociando a venda, mas de repente os compradores sumiram. Essa foi outra lição que aprendi: não ficar na expectativa sem pensar em alternativas”

Morando com os pais em Curitiba, triste e pensando em fechar as portas, Bruno encontrou no apoio de familiares e amigos a força para continuar tentando. Nesta fase, ele foi procurar ideias e ajuda participando de eventos de startups. Em um deles, acabou reencontrando um colega, em julho de 2016.

Daniel Tutida, 29, era outro empreendedor frustrado e com outras similaridades com Bruno. Os dois estudaram na mesma Universidade Curitiba na mesma época (Bruno fez Relações Internacionais e Daniel, Publicidade, mas não se conheceram no campus) e tinham um empreendimento semelhante de marketplace para conectar profissionais e clientes – a companhia de Daniel conectava DJs a baladas.

“Estávamos no mesmo patamar, sem saber bem o que fazer, descontentes com nossos business e com um ponto em comum importante: queríamos passar de fase, parar de só patinar, só aprender. Decidimos assumir esse desafio juntos. Comprei o sonho do Bruno”, conta Daniel.

Os dois decidiram virar sócios e depois de estudar os erros optaram por só trabalhar com B2B, ou seja, apenas atender empresas. Em paralelo a isso também foram para São Paulo, em outubro do mesmo ano, para bater na porta de todos os investidores possíveis, “desde os chineses até os paraguaios”. Bruno fala dessa fase:

“Nosso argumento era que já sabíamos tudo o que não fazer, já levamos um tapa forte da vida e aprendemos. Finalmente deu certo”

O fundo de investimentos Inova Ventures e Participações achou a proposta boa e, enfim, as coisas começaram a mudar. O Inova é formado por diretores e sócios do mercado de TI, com intuito de investir em empresas promissoras de tecnologia. O acordo foi fechado, mas por razões contratuais o valor não pode ser divulgado. Mas a maré já tinha virado e, nessa mesma época, os dois novos sócios também foram aceitos na mentoria da Endeavor. Daniel conta: “Esse contato tem sido muito valioso. Empreendedor é muito transparente, então recebemos feedbacks muito diretos e francos sobre os problemas a superar”.

É SOBRE NÃO PARAR DE EVOLUIR

A fase de mudanças também atingiu o nome da startup, que passou a se chamar Eunerd. “Todas as mudanças na empresa vieram de um processo de aprendizado e amadurecimento nosso. A celebração de uma nova etapa homem merece uma mudança de chave, e este foi um dos primeiros motivos para fazermos um rebrand da marca”, conta Bruno. A mudança ainda está em curso nas redes sociais da startup. Na comunicação visual, o antigo homenzinho da Encontre um Nerd está sendo trocado por um par de óculos. Daniel afirma que, dessa forma, a intenção é acolher a diversidade de ideias e de gêneros.

Pode-se dizer que esse tipo de amadurecimento, assim como a expansão da consciência, é algo não só irreversível como imparável. Eles já tinham investidores dentro de casa, já tinham a Endeavor, mas seguiram buscando conselheiros, entre eles com o investidor e empreendedor Robson Del Fiol, da ESV Digital. “Enviei um e-mail para ele. Sem resposta. Enviei outro. Sem resposta. No terceiro ele disse: estava esperando para saber até onde você estava disposto a ir. Hoje ele é nosso maior mentor e até cedeu um espaço da empresa dele em São Paulo para trabalharmos”, conta Bruno.

Outra prática que também é resultado desta fase da empresa é a de fazer visitas regulares a clientes e possíveis clientes. “Conversamos com eles, olho no olho. A principal mudança foi colocar a pastinha embaixo do braço e bater na porta deles para saber o que eles querem. Saber os reais problemas do mercado, o que o mercado precisa. A gente continua fazendo isso e vai fazer para sempre, pois agora isso é parte da nossa cultura”, conta Daniel.

NA CRISE, OFEREÇA UM SERVIÇO MAIS BARATO

Os dois afirmam que essas conversas moldaram o tipo de serviço que passou a ser oferecido. A percepção de que as empresas estão em plena crise os forçou a pensar propostas para reduzir custos e, até, ajudar no planejamento. Uma das estratégias foi passar a oferecer o serviço remoto e com um custo variável. Bruno fala:

“Se a gente seguisse só com o serviço presencial, continuaríamos só a apagar incêndios”

E prossegue: “Hoje, trabalhamos com toda a empresa, gerenciamos infraestrutura para saber o que fazer e quando fazer”. Dessa forma, a rede de nerds atende demandas como de hardware, redes, servidores e segurança da informação. É cobrada uma mensalidade que varia de 299 a 1.000 reais (de acordo com o porte da empresa). Na mensalidade está incluso um gestor de help desk, ou seja, a pessoa que ficará responsável por administrar todos os chamados presenciais e online, e também um gestor de infraestrutura, que é o profissional que faz o planejamento de itens de infraestrutura, materiais e funcionários necessários para determinados projetos.

Diego é "nerd master", responsável pelo help desk da EuNerd, e exibe a nova identidade visual da startup.

Diego Machado é “nerd master”, responsável pelo help desk da Eunerd, e exibe a nova identidade visual da startup.

O cliente só paga o que usar no custo variável, como suportes de help desk, manutenção em servidores, formatação de computadores, instalações, microinformática, segurança da informação e retiradas de vírus e malwares. Há também um serviço de gestão de ativos, ou seja, um diagnóstico de todos os computadores e dispositivos da empresa para avaliar capacidade, depreciação, necessidade de trocas e dicas de performance. O custo é de 16 reais por computador.

“Também indicamos ferramentas de produtividade e fornecedores adequados para a necessidade dos clientes. Muitos deles são pequenas empresas, então precisamos também ser parceiros para que eles possam crescer. Outro dia apresentamos uma ferramenta para um cliente assinar contratos online, por exemplo. Ele economizou muito dinheiro com essa dica”, conta Bruno.

O valor das demandas de infraestrutura varia de acordo com o grau de dificuldade, número de nerds e o tempo de cobertura desejado. Uma auditoria, para verificar todos os problemas de tecnologia da empresa, custa a partir de 200 reais. O serviço remoto vale 40 reais a hora cheia e o presencial, 170 reais. Apesar disso, eles contam que a maioria dos trabalhos ainda continua sendo feita com suporte presencial – cerca de 56% presenciais e 44% remoto.

AOS POUCOS CRESCE A REDE DE NERDS

Nos trabalhos presenciais, Daniel conta que os “nerds” recebem a orientação de todos os passos a realizar e, também, do que precisarão documentar. “Depois entramos em contato com o cliente para confirmar se está tudo certo e só aí fechamos o serviço”, diz ele.

Ao todo há cerca de 10 mil nerds cadastrados, de vários Estados do Brasil. As principais cidades são São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro, Uberlândia, Porto Alegre e Brasília. Todos passam por provas on-line e presenciais (entrevistas em São Paulo) antes de serem ativados na rede. Eles recebem uma comissão do valor pago pelos trabalhos presenciais e, a cada serviço feito, ganham pontos e por meio deles podem se tornar um “nerd master”, como diz Daniel. Estes profissionais têm mais benefícios, como receber uma remuneração maior, trabalhos mais complexos e, também, administrar outros nerds.

Atualmente a Eunerd usa o software Zendesk para gestão de projetos — e está desenvolvendo um sistema próprio para gerenciar melhor seus clientes e nerds. A ideia é usar uma tecnologia open source da startup americana B12, a Orchestra, concebida justamente para trabalhos criativos e complexos.

O QUE FICA DEPOIS DO SUSTO

Bruno e Daniel fazem um saldo das mudanças e contam que o que ficou, primeiro, é a melhora no faturamento. Em 2015 a receita foi em torno de 750 mil reais. Em 2016, caiu para cerca de 500 mil. E neste ano a projeção é de faturar 1 milhão de reais.

Hoje eles têm 30 clientes, entre eles a Feira da Madrugada (conjunto de atacadistas populares no Brás, bairro paulistano), as franquias de escola de idioma Yázigi, a Algar Telecom e outras pequenas empresas. Outro “legado” que os dois elegem é a percepção do que não fazer no longo caminho do empreendedorismo.

“Grande parte dos problemas também foram minha culpa. Por falta de experiência, falta de conhecimento sobre gestão de pessoas, falta de boa gestão financeira, não soube fazer um bom fluxo de caixa, gastei dinheiro errado, contratei pessoas erradas. Isso ficou para trás, mas sempre procuramos evoluir. É o que aprendemos pedindo apoio e conversando com tantas pessoas para se reerguer”, diz Bruno. Esperto. Bem nerd.

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DRAFT CARD

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  • Nome: Eunerd
  • Solução: Conecta especialistas e faz a gestão de TI em empresas
  • Proprietários: Bruno Ramos e Daniel Tutida
  • Funcionários: 12
  • Sede: São Paulo
  • Fundada: 2014
  • Receita: R$ 500.000 (em 2016)
  • Contact: [email protected]
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