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Como o audiovisual pode servir de ferramenta de transformação social? Em meados da década passada, essa pergunta martelava na cabeça de Marcelo Machado.
A resposta que ele concebeu passa por induzir um chacoalhão em seu próprio mercado de trabalho. Hoje, Marcelo, 58, está à frente da Causar, que se dedica à formação de pessoas com deficiência e jovens da periferia para atuar como videomakers.
O curioso é que o próprio Marcelo caiu nesse mundo meio por acaso. Gaúcho de Porto Alegre, ele cursou administração, mas se interessou pela publicidade após a leitura de um artigo de Washington Olivetto na Folha de S.Paulo.
“Eu fiquei encantado com o artigo e achei que a publicidade era o meu caminho. Acabou que depois fui estudar na ESPM, o que me levou direto para o mercado publicitário, na área criativa”
Ele iniciou a carreira trinta anos atrás, em 1996, numa “dupla jornada”: “Eu trabalhava em agência como criativo, redator publicitário, e aí também fazia roteiro para produtoras”.
Eventualmente, uma dessas produtoras o chamou para dirigir um projeto. E Marcelo foi desbravando o mercado na cadeira de diretor.
Meio por acaso, também, apareceram os frilas em campanhas políticas. “A primeira que eu fiz foi em 2000, trabalhando como diretor na parte de conteúdo de televisão.”
Um desses frilas foi para uma produtora de Uberlândia (MG), que tinha clientes corporativos como Sadia e Grupo Martins, um grande atacadista local. Passada a campanha, Marcelo recebeu um convite para ficar.
“Percebi que em Porto Alegre eu não ia ter muito mais espaço, porque nunca transitei nos espaços maiores do cinema… Sempre trabalhei em produtoras menores”
Assim, Marcelo abraçou Uberlândia e se mudou para lá em 2004. Havia já uma vontade de tentar a sorte em São Paulo, mas na época ele se sentia desencorajado de pôr o portfólio debaixo do braço e bater de porta em porta.
Em 2007, ano em que completou 40 anos, Marcelo pretendia usar uma grana guardada para viajar à Europa. Mas os planos mudaram quando um amigo, diretor de fotografia em Porto Alegre, o chamou para fazer um curso em Cuba, na Escuela Internacional de Cine y TV, em San Antonio de Los Baños:
“Ele me manda um e-mail: ‘Olha, tem curso novo, tô a fim de fazer, vamos?’ Então me inscrevi em dois cursos — de direção de atores e construção dramática — e fiquei três meses em Cuba estudando”
Em Cuba, durante o curso, Marcelo conheceu outros brasileiros do audiovisual. Na volta ao Brasil, ouviu apelos dos amigos para se mudar para São Paulo. O que ele finalmente fez, a princípio trabalhando ainda pela produtora de Uberlândia, que mantinha clientes na capital paulista.
Esse arranjo durou pouco. Em 2009, a produtora fechou, por problemas de gestão. “E daí, eu fiquei frilando de casa, fazendo um trabalho aqui, outro ali…”.
Em 2012, pintou uma nova campanha política, para prefeito em Araraquara (SP). Ao retornar à capital, Marcelo foi em busca de novas oportunidades.
“Na volta, retomei contatos e escrevi para um cara que trabalhava na Conspiração. Ele me chamou para um frila de roteiro e na sequência me fez uma proposta para eu ficar na Conspiração, inicialmente na área de criação”
Depois de um ano na área, desenvolvendo todos os projetos que apareciam pela frente, Marcelo migrou para a função de diretor, atuando no núcleo de marcas da Conspiração Filmes. “Pensei: Preciso entender de marcas, porque de fazer filme eu entendo.”
Para dar conta do desafio, ele resolveu fazer uma especialização em branding na FGV. E foi aí que sua história mudou de vez:
“Lá, eu conheci ‘o tal do terceiro setor’, qual era a relação das marcas com ele, e [descobri] que existia o setor dois-e-meio, os negócios de impacto social. Eu não sabia que isso existia, e fui atravessado por isso, fiquei super encantado. Falei: Caramba, é isso que eu quero fazer”
Esse mergulho no universo dos negócios de impacto, porém, começaria com um desvio pela gastronomia.
Quando Marcelo apareceu pela primeira vez no Draft, em junho de 2017, ele vivia um momento epifânico. Acabara de completar 50 anos, tinha deixado a Conspiração e havia recém-inaugurado a Massaria, um bistrô em Moema, na Zona Sul de São Paulo, onde tudo era saudável, da comida aos utensílios.
O restaurante servia refeições orgânicas e com baixo teor de glúten em bowls de bagaço de cana, com talheres de amido de milho. A ideia era que os clientes pegassem o seu pedido em uma bandeja, no balcão, e depois de comer jogassem tudo em uma composteira. O público, porém, não comprou a proposta:
“As pessoas não valorizavam, elas nem entendiam aquilo. Depois fui me dar conta que a Massaria era do lado do Huto, um dos japoneses mais hypados de São Paulo, estrela Michelin, os caras encostando de Ferrari pra jantar… E eu pensava: O que eu tô fazendo aqui?”
A Massaria resistiu cerca de um ano. “Ainda que não tenha sido como eu gostaria, é uma história positiva. E que bom que ela está perpetuada no Draft! Até hoje eu mostro a matéria do Draft para os meus alunos [na Causar].”
Ao fechar o restaurante, Marcelo voltou para o mercado, mas já rascunhando e acalentando o sonho da Causar. Em 2018, por indicação de terceiros, conheceu Leonardo Kanzawa, que se tornaria seu sócio e cofundador.
Marcelo, até então, se dizia “alérgico a Excel”. Leonardo, por sua vez, trouxe o olhar de negócios que faltara na Massaria:
“Ele veio do mercado corporativo, financeiro. Eu ficava num coworking na Avenida Paulista, fui fazer uma reunião com ele, apresentei a Causar e ele falou, ‘Pô, gostei demais disso, vamos evoluir…’ E a gente começou a avançar.”
Em 2019, enquanto ainda consolidavam a Causar, Marcelo foi fazer uma formação no Amani Institute. Ali, pesquisando sobre as medidas socioeducativas — aplicadas a adolescentes que cometem infrações análogas a crime ou contravenção —, Marcelo descobriu que 70% dos jovens reincidiam nessas medidas. Ou seja, voltavam a infringir a lei. E teve uma sacada:
“Eu falei: E se a gente fizer uma formação de audiovisual para essa galera, e tentar entrar nessa jornada da medida socioeducativa para diminuir a reincidência e fazer esses jovens ficarem envolvidos com outra coisa que não seja voltar para o crime?”
Assim, Marcelo começava a encontrar uma resposta para aquela pergunta que o perseguia: como fazer do audiovisual uma ferramenta de impacto social?
Por intermédio do Instituto Sou da Paz, que firmara parceria para aplicação dos serviços de medida socioeducativa, a Causar ficou dois anos atuando na Brasilândia, bairro periférico na Zona Norte da capital.
As formações ocorriam em um equipamento público, o Circo Escola, e incluíam também alunos do ensino médio e fundamental que frequentavam o espaço no contraturno escolar.
Essa foi a origem do programa Reintegrar, hoje rebatizado de Despertar e viabilizado com recursos do PROMAC, programa municipal de apoio a projetos culturais por meio de incentivos fiscais.
Uma nova edição do Despertar está em curso, agora em 2026, e vai engajar 72 jovens divididos em 12 grupos no CEU (Centro Educacional Unificado) Tremembé, equipamento público gerido pelo Instituto Baccarelli na Zona Norte da capital paulista.
“Serão oito encontros, sempre aos sábados, e cada grupo de seis alunos ficará com uma mochila de produção — um kit audiovisual nosso — para produzir um VCC, um Vídeo de Conclusão de Curso”
Ao final das oito semanas, diz Marcelo, os 12 curta-metragens serão exibidos no CEU Tremembé, com apoio da Spcine e do Circuito Spcine.
Para botar de pé o programa, a Causar mobiliza uma equipe de oito pessoas, entre facilitadores e uma estagiária formada durante as aulas na Brasilândia. Além disso, conta com o apoio, na retaguarda, de uma parceira de captação de recursos, a Incentiv, que já foi pauta aqui no Draft.
“Eles estão conosco desde a primeira edição [do Despertar]”, diz Marcelo. “Hoje, já temos recursos captados para 2027 e 2028: ano que vem vamos pro CEU Parque do Carmo, e em 2028 provavelmente CEU Pirituba.”
Atualmente, a “menina dos olhos” de Marcelo é outro programa, o Acessar, voltado à formação e inclusão de pessoas com deficiência.
Para contar essa parte da história, é preciso “rebobinar a fita”. Lá atrás, por volta de 2018, 2019, Marcelo pegou um frila e dirigiu um documentário do projeto Vacaciones Solidárias, da Fundação Telefónica.
Por conta disso, ele rodou o Brasil registrando iniciativas de voluntariado.
“Em Curitiba, filmei em uma escola que só atendia pessoas neurodivergentes. E comecei a me dar conta: eu estou aqui [no mercado audiovisual] há décadas e o meu cinegrafista nunca foi uma pessoa com Síndrome de Down…”
Conforme essa inquietação crescia, Marcelo se aproximou de organizações como a ASID Brasil, com sede em Curitiba, e foi direcionando a atuação da Causar para impactar também pessoas com deficiência.
A primeira formação, online, ocorreu em 2022, ainda no rescaldo da pandemia. Foram 14 participantes. “Tinha gente com transtorno de espectro autista, Down, paralisia cerebral…”
Em 2024, a Causar promoveu, no Parque Tecnológico de Santos, com apoio da Secretaria da Pessoa com Deficiência, seu primeiro ciclo presencial dirigido a esse público. Entre os 12 participantes havia duas moças com deficiência visual.
“Foi um aprendizado lindo, lindo… No final das contas, eu percebi que ao orientar uma pessoa com deficiência visual a fazer um enquadramento, eu não fiz muito diferente do que faria com qualquer outro cinegrafista…”
Ele explica que, como diretor, seu trabalho incluiria orientações para posicionar a câmera mais longe ou mais perto, dependendo do plano desejado, se aberto ou fechado. Com as moças, diz Marcelo, foi mais ou menos a mesma coisa:
“Eu falava: Na tua frente tem um cara sentado no computador. Qual plano tu quer fazer? ‘Ah, eu quero fazer o fechado.’ Então vamos caminhar dez passos pra frente, pra fazer um plano fechado… E as meninas fizeram. Tá lá no YouTube da Causar.”
Em 2025, Marcelo colecionou outras cenas de impacto ao vivo e a cores. Por exemplo, quando dois alunos com transtorno do espectro autista foram incumbidos de fazer a captação das imagens do making of de um filme publicitário da Unilever.
“Foi a primeira vez que esses meninos entraram num set profissional de filmagem, com dezenas de pessoas circulando… E a postura deles foi maravilhosa, fizeram cenas lindas.”
Outro “momento de empatia” memorável se deu após uma jornada de masterclasses com a Warner: uma visita dos alunos ao estúdio da TNT Sports levou a própria equipe do canal a perceber a precariedade do ambiente no quesito adaptação.
“A falta de acessibilidade é estrutural. As produtoras hoje não têm rampa, não têm banheiro para uma pessoa em cadeira de rodas, não têm uma área de descanso para uma pessoa com transtorno de espectro autista, não estão preparadas para lidar com essas pessoas no dia a dia…”
Marcelo cita outro aluno, que tem síndrome de Down. “Esse menino é um diretor nato. Nos exercícios, ele sabia onde botar a câmera, ele sabia qual era a ação que ele queria…”
Ao final da formação, porém, o rapaz começou a trabalhar em um McDonald’s, recolhendo restos e bandejas das mesas.
“Não tem nada de errado com isso, não é indigno trabalhar no McDonald’s… Mas o potencial do cara é outro. Só que ninguém vai acreditar no potencial dele. A gente acredita, mas o resto do mercado não vai dar oportunidade”
Para mudar esse mercado, Marcelo está estruturando um braço sem fins lucrativos, o Instituto Acessar, que ficará encarregado de formações gratuitas; na outra ponta, a Causar permanecerá no papel de produtora e desenvolvedora de projetos:
“Vamos ser a primeira produtora audiovisual mobile do Brasil com equipes formadas por pessoas com deficiência em funções de protagonismo: roteiro, direção, direção de fotografia, edição”, diz Marcelo. “Estamos criando um caminho que nunca existiu.”
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