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E se a próxima grande interface criada pela inteligência artificial não conectasse pessoas a máquinas, mas humanos a outras espécies?
Corta para 2026. Nos principais palcos dos festivais de tecnologia e cultura — como o SXSW, que acontece em Austin e hoje, também, em Londres, ao SPIW e ao RIW, no Brasil —, um dilema domina os debates: a inovação e o “resgate” do que é essencialmente humano.
A tensão é clara e a crise, humana! Passada a fase de encantamento com a IA, que migra de uma ferramenta “mágica” e eficiente para se tornar infraestrutura, o que se escuta nos palcos e corredores destes festivais não é sobre disrupções de mercado, mas sobre como orquestrar esta nova realidade humana e sintética, diante do descompasso do avanço tecnológico e a nossa capacidade de adaptação.
Mais uma vez estamos diante de impasses de tecnologias criadas por nós mesmos. E o que chama a atenção é que estamos discutindo pouco, nesses mesmos ambientes de inovação, sobre a crise social, climática e ambiental e seus impactos para a humanidade.
E é aqui que fazemos uma provocação: e se especularmos futuros que desafiem a lógica antropocêntrica? Futuros em que as outras espécies sejam sujeitos de direito e agentes da sua própria cultura e comunicação?
A proposta aqui é abrir o diálogo para a alteridade e “agência” animal, em que as demais espécies deixam de ser entendidos como meros objetos de estudo e passam a ser vistos como narradores de mundos desconhecidos. Em outras palavras: dar voz aos “não humanos”.
Já existem projetos utilizando a IA para decodificar a bioacústica e “traduzir” a comunicação de outras espécies. No SXSW deste ano, em Austin, um dos keynotes de maior impacto foi feito por Aza Raskin, cofundador do Earth Species Project (ESP): “Nature Speaks. Can AI Help Us Listen?” (“A Natureza Fala, a IA Pode nos Ajudar a Escutá-la?”).

Aza Raskin, cofundador do Earth Species Project, no palco do SXSW 2026.
De acordo com Raskin, existe uma grande complexidade na comunicação animal, que simplesmente não se encaixa nos padrões lógicos humanos.
“Grande parte do desafio em escutar outras espécies e pensar em futuros multiespécies reside no ego humano e no mito da nossa pretensa excepcionalidade” (Jane Lawton, Diretora de Estratégia e Impacto do ESP.)
Trago aqui o conceito de antropoceno, que seria uma nova época geológica, em andamento, moldada pela humanidade e seus impactos irreversíveis no planeta causados pelo consumo excessivo de recursos naturais.
Se há algo que temos a aprender, diante da crise estabelecida pelo antropoceno, é a forma de convívio e trabalho coletivo de outras espécies e isso inclui redes fúngicas e bactérias a que podemos chamar de “inteligência não antropocêntrica”.
A transição para um futuro multiespécie exige um rompimento profundo com a lógica cartesiana e antropomórfica que coloca o humano como universal e único sujeito, e as demais espécies como objetos ou recursos de exploração
“O cartesianismo cria uma ilusão de que os humanos são sujeitos que dominam o mundo exterior”, nos disse em entrevista Lucia Santaella, uma das maiores referências em semiótica e que investiga ativamente perspectivas não antropocêntricas da inteligência, incluindo inteligências biológicas e biossemiótica.
Uma ilusão que aprendemos e absorvemos desde pequenos. A literatura e as artes visuais infantis utilizam amplamente animais de forma antropomórfica. Isto é, as características atribuídas aos animais, nestas narrativas, refletem a visão humana sobre eles: “o urso bonachão, a raposa ardilosa”.
Em entrevista com Renata Nakano, pesquisadora de literatura infantil, fundadora e CEO do Clube Quindim, foi possível entender que esta visão não aproxima de fato a criança do animal real. O afeto é transferido para o animal de forma condicionada à perspectiva humana, e não necessariamente promove uma relação de igualdade com outras espécies.
A literatura tem papel fundamental no “reflorestamento de imaginários”, conceito trazido por Ailton Krenak — ambientalista, pensador, poeta, escritor brasileiro, e primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras.
Os saberes dos povos originários representam cosmovisões riquíssimas sobre a relação com outras espécies e elementos da natureza. São povos que já se comunicam com outras espécies, mas cujos conhecimentos são, muitas vezes, infantilizados como “lendas”, tratados como misticismo e silenciados pelo distanciamento urbano
Hoje, essas “tecnologias ancestrais” ganham valor nas arenas de inovação e nos mercados. Diante da crise e do esgotamento de recursos naturais e humanos, a sociedade hegemônica parece buscar resgatar esses saberes como uma tentativa de voltar a “escutar” o planeta — e, talvez, especular novos futuros.
O conceito de fonoceno, discutido por pensadoras como Donna Haraway e a filósofa Vinciane Despret, propõe uma era pautada pela escuta ativa entre humanos e “não humanos”.
Animais, plantas, rios e minerais deixam de ser entendidos como “ruídos” e fenômenos físicos, e passam a ser vistos como agentes políticos e relacionais. Ou seja, uma oportunidade de desbravar novas narrativas não antropocêntricas.
A comunicação interespécies exige que se estabeleça diálogos. É como se um cientista devesse se dirigir ao outro ser “não humano” como um artista se dirige a outro artista, com um olhar empático da escuta. É o que Danilo Olivaz, engenheiro, cientista da computação e social faz no projeto IA-Vatares da Natureza, que une a arte às tecnologias emergentes aplicadas para sensibilizar, transformar e ampliar a consciência da complexidade dos outros entes da natureza através do som.
Seus experimentos práticos, feitos com sensores, demonstram que, ao traduzir os sinais biológicos de rios ou plantas em música e som, as pessoas se conectam emocionalmente de forma muito mais rápida, empática e profunda do que por meio de palavras, contornando as barreiras da racionalidade moderna.
Compreender que as imagens que moldam a realidade também são auditivas evidencia que o som é uma via de conexão essencial, como destaca Norval Baitello Junior, professor, escritor e teórico da comunicação brasileira. Assim, o Fonoceno propõe que a gente diminua a cacofonia urbana para ouvir os alertas e as linguagens que a natureza emite ao nosso redor.
No mercado cultural, a natureza já é registrada formalmente como uma artista oficial nas grandes plataformas de streaming, sendo reconhecida como cocriadora, legitimando seu valor
No projeto Natural IP (Propriedade Intelectual Natural), idealizado pelo Museum for the United Nations – UN Live, artistas e músicos globais lançam músicas como “feat.nature”, em que sons da natureza, como chuva, ventos e cantos de animais, ganham direitos autorais pelo seu uso, gerando fontes contínuas de receita para a conservação ambiental.
Mais recentemente, a iniciativa do Earth Species Project que vem usando a IA para “traduzir” a comunicação animal é debatida como promissora em nos mostrar que a próxima revolução da inteligência artificial pode não estar em produzir conteúdos, mas em criar interfaces capazes de ampliar nossa capacidade de compreender outros seres e entes da natureza.
Mais do que apenas treinar máquinas para entender as outras espécies, a tecnologia tem a oportunidade de ser usada para treinar o próprio ser humano a recuperar a sua capacidade inata e ancestral de escuta.
“Acreditamos que a IA é um catalisador para ajudar os seres humanos a relembrar o que um dia soubemos e provavelmente ainda sentimos de forma inata: que estamos profunda e intrinsecamente conectados a todo o resto da vida.” (Jane Lawton, Diretora Impacto Estratégico ESP)
O projeto usa a IA como um acelerador e um “microscópio” que nos permite ver e ouvir coisas que não podíamos antes e em escala e velocidade muito maiores. No entanto, a IA só encontra estruturas e padrões. A análise, as conexões e validações de previsões são humanas e feitas por pesquisadores de campo que estudam outras espécies há décadas.
Seria esta a era do “pós antropoceno”? Qual será o impacto, para a humanidade e para o planeta, quando a IA revelar a real forma como as outras espécies se comunicam? E, mais do que isso, que tipo de relação queremos construir entre humanos e outras espécies?
Toda grande inovação vem acompanhada de riscos. Os desafios legais e, sobretudo, éticos, são grandes preocupações dos realizadores do projeto que visam a empatia, a compreensão e o direito dos “não humanos” — e não a dominação racional da linguagem de outras espécies e a otimização da exploração animal.
Outro risco-chave é ampliar a antropomorfização e a alienação que distanciam os humanos do contato com a natureza real. Se qualquer tradução entre línguas humanas já implica perdas, uma tradução interespécies pode ser ainda mais limitada e presunçosa.
O uso da IA levanta o perigo real de criarmos tecnologias que nos deem uma falsa sensação de interação, isto é um “chatbot” da natureza, desconectando-nos ainda mais da realidade e compreensão do mundo natural.
Um ponto crítico é que não devemos projetar dinâmicas de comunicação humana nas interações com outras espécies. Os animais se comunicam em escalas temporais e frequências sensoriais completamente diferentes das nossas
Ironicamente, a tecnologia que hoje nos preocupa pelo achatamento das habilidades cognitivas e imaginativas humanas é a mesma que pode nos fazer reconhecer outras formas de inteligência presentes na natureza e recuperar a reciprocidade radical que a modernidade tentou aniquilar, nos reconectando com a nossa memória ancestral.
O Futuro Multiespécie está sendo desbravado agora. Nós, humanos, estamos prontos para ouvir o que eles têm a dizer?
Sabrina Dower tem quase 20 anos de experiência em consumer insights e foresights, branding e planejamento estratégico. Trabalhou em pesquisa qualitativa, inovação e estratégias por 17 anos em empresas como Research International e TNS/Kantar, onde gerenciou estudos para diversos segmentos de mercado. Apaixonada por comportamentos, pesquisa social e tendências, também desenvolve projetos sociais em igualdade de gênero e na área da cultura. É cofundadora da Octolab Insights, hub global multidisciplinar de pesquisa de mercado, análise cultural e mercados e especulação de futuros e parceira do Atelier do Futuro no estudo Futuro Multiespécie.
Cada vez mais, os animais são vistos como membros da família, mas o Código Civil brasileiro ainda os considera objetos de patrimônio. Fundadora do Atelier do Futuro, Mariana Nobre explica por que essa e outras contradições começam a ruir.
