Como viajei para mais de 100 países e me tornei um expert em programas de milhas após deixar a carreira nas Forças Armadas

Eloy da Fonseca Neto - 22 out 2021
Eloy da Fonseca Neto, fundador do Mestre das Milhas, em Sydney, na Austrália.
Eloy da Fonseca Neto - 22 out 2021
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Os 14 anos de idade foram um marco na minha vida. Após prestar um concurso dificílimo, fui aprovado em 51º lugar para o Colégio Naval, instituição de ensino da Marinha que prepara o aluno para ingressar na Escola Naval, a primeira instituição de Ensino Superior do Brasil que, por sua vez, prepara os alunos para serem futuros oficiais da Marinha de Guerra do Brasil.

Ingressei no Colégio Naval em 1998 e servi à Marinha do Brasil até 2007, saindo como segundo tenente da reserva não remunerada. Essa saída foi a decisão mais acertada de toda a minha vida.

Após seis meses de uma fase de viagens pelo mundo a trabalho, eu estava muito deprimido. Depois de realizar uma super experiência como essa, fui colocado para ser um “chefe” de gestão de alimentos e convés de um navio patrulha.

Essa foi uma experiência muito frustrante. Ter estudado durante quase oito anos para, depois, ficar comprando alimentos para a tripulação de um navio pequeno e fazer auditorias todo final de mês era algo que não fazia sentido para mim

Além disso, tinha de verificar situações atípicas, como a pintura e a limpeza do navio. Na Marinha é mais importante que um navio esteja limpo e apresentável do que propriamente funcional.

Tudo isso me levou a uma tristeza muito grande. Ao observar meus superiores hierárquicos, tive a certeza de que definitivamente não era aquilo que gostaria para o meu futuro.

Na época, tanto o pagamento como o tempo disponível para mim eram muito pouco. E tudo isso me fez querer buscar algo que me permitisse ter liberdade de tempo e dinheiro.

LARGUEI A MARINHA, ENTREI NO CURSO DE DIREITO E DECIDI FAZER UM INTERCÂMBIO PARA O CANADÁ

Em outubro de 2007 saiu a minha demissão a pedido. Nessa época, eu já estava cursando Direito desde agosto. A ideia era começar os estudos o mais rápido possível para finalizar também em um curto espaço de tempo e poder me aventurar pelos diversos concursos da carreira jurídica.

Como sou uma pessoa bem minimalista e nunca tive muitos gastos, acabei acumulando uma poupança. Isso me motivou a fazer um intercâmbio no Canadá, mais precisamente na cidade de Vancouver, durante as férias da transição do ano de 2007 para 2008, logo após o meu primeiro período do curso de Direito.

Além disso, como estava com dinheiro sobrando e a cotação do dólar estava boa, comprei uma viagem para a Disney. O objetivo era levar os meus pais, que até então conheciam cinco países além do Brasil.

Decidimos contratar tudo em uma mesma agência de viagens e fui juntamente com a minha mãe. Após estar com o planejamento completo, só faltava o pagamento.

EU TINHA UM SONHO: VIAJAR DE CLASSE EXECUTIVA. E ESTAVA DISPOSTO A LEVAR ESSA IDEIA ADIANTE, APESAR DOS EMPECILHOS

Então, fiz um questionamento ao “Seu Ciro”, o dono da agência. Perguntei: caso eu queira ir e voltar de classe executiva, qual seria a diferença? Se fosse até três vezes mais, eu estava disposto a pagar!

Até então, eu nunca havia voado de classe executiva. E, como estava com algum dinheiro sobrando, pensei em aproveitar essa experiência, caso estivesse ao meu alcance. Então o “Seu Ciro” verificou no sistema e me disse: a diferença de preço era dez vezes maior…

Aquela resposta foi um balde de água fria, pois tornaria inviável a experiência que eu tinha tanta vontade de vivenciar.

Olhei entristecido para a minha mãe e disse: Nunca viajarei de classe executiva na minha vida. (Felizmente, eu não poderia estar mais enganado.)

Não me dei por satisfeito com aquela negativa. Ao sair da agência de viagens, fui direto para a internet procurar alguma forma que me permitisse viajar de classe executiva sem gastar muito, pois aquilo havia me incomodado muito.

Foi nesse momento que entrei no site da American Airlines, pois queria comprar as passagens das duas viagens (Disney e Intercâmbio no Canadá). Comecei a ler as informações sobre o programa de fidelidade da companhia aérea.

Ali, tive uma grande surpresa. Havia a possibilidade de viajar de classe executiva, utilizando somente milhas, com um total de 100 mil milhas para uma viagem de ida e volta entre o Brasil e a América do Norte, mais o pagamento das taxas de embarque. Porém, surgia um novo problema: como conseguir as milhas?

COMECEI A PESQUISAR SOBRE O MUNDO DAS MILHAS E ME APAIXONEI PELO ASSUNTO

Antes de efetivamente começar a buscar maneiras de acumular milhas, eu procurei em toda a internet brasileira por informações sobre o assunto e não achei nada… Isso foi frustrante, pois dificultou muito a minha vida naquele momento.

Eu tive de estudar todo o programa de milhagens da American Airlines, o AAdvantage, e a partir daí, tomei gosto pela coisa. Tanto que não me contive e analisei também o programa de fidelidade da Delta, o Skymiles. Logo depois, estudei o MileagePlus da United

Naquela época só havia duas companhias aéreas operando no Brasil, a TAM e a Varig. (A Transbrasil havia acabado de falir). Foi por isso que me inteirei primeiramente dos programas de milhagem dos Estados Unidos. Preferi evitar os programas brasileiros por medo de me esforçar para acumular milhas — e, por algum motivo, perder tudo depois.

Além disso, todos os três programas dos EUA ofereciam status para toda a vida, o que me motivou bastante a seguir fiel à American Airlines. Após o estudo completo dos programas americanos, cheguei à conclusão de que o AAdvantage era o melhor.

Mas ainda persistia o problema: como conseguir milhas do programa da American?

CONTRATEI O CARTÃO DE CRÉDITO DE UM BANCO SÓ PARA PODER ACUMULAR MILHAS

Naquela época, era possível acumular milhas sem voar no Brasil, somente via cartão de crédito do Citibank. Abri uma conta naquele banco, somente com o objetivo de receber as milhas.

Eloy em uma cabine de um voo de classe executiva.

Pois bem, como estava focado apenas em ganhar milhas, contratei o cartão de crédito Citibank AAdvantage Platinum, e o adotei como cartão principal. Pedi ainda dois cartões adicionais, que eram gratuitos, sendo um para o meu pai e outro para a minha mãe.

Dessa forma, eu já estava com o meu esquema armado para o acúmulo de milhas de resgate, voando de American Airlines e pelo cartão de crédito.

No entanto, eu ainda teria de enfrentar algumas viagens de classe econômica antes que eu pudesse viajar de classe executiva.

A SEGREGAÇÃO DENTRO DA PRÓRIA CLASSE ECONÔMICA ME INCOMODOU MUITO

De posse desse meu planejamento, comecei a implementação a partir de dezembro de 2007, quando fui para a Disney com meus pais.

O que a princípio era para ser apenas uma brincadeira para poder viajar de classe executiva se tornou algo muito mais sério, com consequências que mudariam a minha vida

No dia 10 de dezembro de 2007, eu estava embarcando no aeroporto Galeão, no Rio, com meus pais para Miami, no voo AA904, com conexão no AA404 para Orlando. O primeiro voo foi no Boeing 767-300 e o segundo no Boeing 757-200.

Naquele momento, eu sabia que não poderia viajar de primeira classe. Porém, não estava preparado para a segregação dentro da própria classe econômica.

Quando fui entrar na fila do check-in, percebi que existia uma fila especial para clientes que estavam viajando em classe econômica, mas com a categoria “elite”

Em um primeiro momento eu havia deixado a busca por esse status de lado, pois o objetivo era investir em milhas para um resgate em classe executiva.

A gota d’água foi justamente no momento do embarque, quando os clientes elite foram chamados para embarcar, antes da classe econômica.

COMECEI A COMPRAR DIVERSAS VIAGENS PARA ATINGIR UM STATUS MAIS ELEVADO NA COMPANHIA AÉREA

A viagem transcorreu sem maiores problemas e conseguimos fazer tudo conforme o planejado. No dia 6 de janeiro de 2008, embarquei para Vancouver, cumprindo o itinerário Rio–Miami–Dallas–Vancouver, o que rendeu exatamente 7 037 milhas.

Sabia que precisava de mais milhas para qualificar para o status Gold e aquilo não saía da minha cabeça. Decidi, então, comprar uma viagem de Vancouver para Boston durante um feriado canadense e acabei fazendo Vancouver–Dallas–Boston, ida e volta, o que rendeu mais 6 630 milhas.

Após regressar da escola, eu ficava olhando o meu quadro de qualificação quase que diariamente e só constavam 13 667 milhas.

Comecei a ficar desesperado para conseguir mais milhas. E de novo, acabei marcando um voo no fim de semana seguinte, desta vez para a cidade de Calgary, bem próxima a Vancouver, com a empresa parceira Westjet. Porém, o voo de ida e volta rendeu apenas 856 milhas, me deixando com um total de 14 523 milhas.

A partir daquele momento, percebi que seria possível chegar ao status Gold até o final do ano. Então comecei a traçar rotas para fazer mais voos

Ao chegar em casa, fui correndo para o computador conferir a milhagem de qualificação final, que ficou exatamente em 21 560 milhas, faltando apenas 3 440 milhas para chegar no status Gold. Isso me deixou muito agoniado, o que me fez comprar até mais dois voos dentro da próxima viagem de dezembro.

ENFIM, CONSEGUI FAZER VÁRIAS VIAGENS NA CLASSE EXECUTIVA, INCLUSIVE EM UM “AVIÃO APARTAMENTO”

Ao longo do ano, consegui realizar as demais viagens para chegar no status top da American Airlines, e durante esse período ocorreu um overbooking (quando a companhia aérea vende mais assentos do que devia).

Por conta disso, esse voo foi o meu primeiro em classe executiva, pois como eu já tinha o status máximo da cia aérea, eles me colocaram na classe executiva e acomodaram outro passageiro no meu assento original.

Depois que você viaja de classe executiva, é muito difícil querer voltar a viajar de classe econômica. A diferença no serviço é enorme

Então, quando minha qualificação foi finalizada, o ritmo de viagens mudou e o esquema era tirar proveito das tarifas baratas para voar a qualquer destino e acumular milhas para fazer resgates em voos incríveis. Como, por exemplo, a Primeira Classe da Etihad, conhecida como apartamento, onde comi caviar pela primeira vez, no voo mais longo do mundo, entre Cingapura e Nova York.

A partir daí, foi surgindo uma viagem atrás da outra e até mesmo voltas ao mundo. Aliás, todos os anos, desde 2013 eu fiz pelo menos uma volta ao mundo. Hoje já visitei mais de 100 países.

RESOLVI TRANSFORMAR MEU CONHECIMENTO SOBRE O MERCADO DE MILHAS EM UM NEGÓCIO

Com toda essa bagagem e experiência e, ao notar a falta de informações a respeito de milhas e pontos no Brasil, em 15 de setembro de 2011, criei o site Mestre das Milhas, o primeiro a tratar do tema.

O site foi crescendo e começaram a surgir novas demandas e questionamentos. Então, me veio a ideia de criar um curso sobre o assunto, que já atendeu mais de 3 mil alunos em todo o Brasil

O conhecimento do brasileiro acerca de programas de milhagens é muito limitado. Todo mundo que faz o curso passa a ter o seu olhar ampliado — não só sobre o que é capaz de fazer com as milhas, mas como é possível ter experiências incríveis gastando quase nada.

A ideia é que, ao final do curso, cada um possa ter todas as ferramentas para criar um programa personalizado, que busque atender a seus objetivos em cada viagem. Entre os assuntos abordados nos sete módulos das vídeoaulas estão conceitos básicos sobre milhas e pontos, programas de fidelidade de bancos, cartões de crédito, programas de hotel, locação de carros etc.

A PANDEMIA PARALISOU AS VIAGENS TEMPORARIAMENTE, MAS OS PROGRAMAS DE FIDELIDADE ESTÃO EM SEU MELHOR MOMENTO

Infelizmente, com o avanço da pandemia, o cenário ficou muito limitado em questões de operações de voos. Os programas de fidelidade, porém, continuaram suas promoções — algumas tão boas, que aquele momento era o timing ideal para acumular milhas e utilizar no período pós-pandêmico.

Por exemplo: atualmente é possível fazer uma viagem de ida e volta para a África do Sul na melhor classe executiva do mundo gastando menos de 3 mil reais ou apenas 400 reais se você já tiver pontos do programa certo.

Ainda é tempo de aproveitar esse momento de retomada não só para acumular mais milhas, mas também para aprender sobre o assunto e viajar muito mais gastando quase nada.

Minha dica: o melhor programa de fidelidade é aquele que melhor se adequa ao seu uso e necessidades

Por isso, pesquise, estude bastante e aproveite a enorme oportunidade que as milhas e pontos representam para você construir memórias inesquecíveis com as pessoas que você ama.

 

Eloy da Fonseca Neto é advogado e fundador do Mestre das Milhas, primeiro site especializado no assunto no país. Já viajou por 107 países, com mais de 6 milhões de milhas voadas. É autor de diversos livros digitais, entre eles Enciclopédia das Milhas e Pontos e Guia das Melhores Emissões com Milhas

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