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A publicitária Renata Mesquita aprendeu no próprio corpo que, no triatlo, pequenos desconfortos não permanecem pequenos por muito tempo. Um atrito ignorável na largada pode se transformar numa assadura dolorida depois de quilômetros de, natação, ciclismo e corrida.
Foi assim, treinando para competições, que ela percebeu que as roupas que dispensavam o uso de calcinha funcionavam melhor. “É um olhar técnico sobre o conforto”, explica Renata ao Draft. E elabora:
“Porque às vezes a gente fala: ‘Ai, conforto e performance são diferentes’. Não, o conforto é muito importante para você performar”
Além da experiência como atleta amadora, Renata, hoje com 35 anos, havia passado por grandes e-commerces de moda e bem-estar, como OQVestir, Farfetch e Holistic.
Em 2022, durante um período sabático pela Europa, dividido entre provas de triatlo, ciclismo e corrida, decidiu observar com mais atenção o que as marcas especializadas em endurance ofereciam a ela como consumidora.
“Eu vi marcas pequenas legais surgindo voltadas para a prática de endurance e cheias de tecnologias, mas muito mais focadas nos corpos masculinos. Não tinha nada pensado no corpo feminino. E quando eu pedia algo para mim, o que tinham para me oferecer era o modelo mais básico, de entrada”
De volta ao Brasil, o plano de Renata era procurar um emprego, não empreender. Por isso, chegou a considerar pedir a uma marca de roupas focada em inovação que produzisse a bermuda que ela vinha imaginando. Uma peça minimalista na aparência, mas exigente na função: servir aos treinos de corrida, à academia e, sobretudo, dispensar a calcinha.
Renata foi dormir com essa ideia. Ao acordar, já não parecia razoável esperar que alguém fizesse aquilo por ela. “Eu vou fazer essa bermuda”, decidiu. Reuniu as próprias economias para investir no projeto e passou a conciliar frilas de consultoria com o desenvolvimento da marca.
“Eu gosto de moda, gosto de me vestir bem — principalmente no esporte”, diz. “O treino é meu momento de lazer diário. Quero estar confortável, mas também quero estar bonita.”
Como todos os primeiros 5 km de quem começa correr, foi difícil. “Superdifícil”, lembra Renata. Embora tivesse trabalhado com moda, sua experiência sempre esteve do lado do marketing. Nunca de uma confecção.
“Eu era uma usuária querendo um produto. Precisava de alguém mais técnico para desenvolver comigo”
A dificuldade não estava apenas em encontrar um parceiro, mas em encontrar alguém disposto a questionar um modelo consolidado na indústria. Bermudas esportivas costumam nascer da união de quatro partes, com costuras centrais entre as pernas. Renata queria o oposto disso.
A frente da peça deveria ser inteira, sem interrupções. Entre as pernas, um forro, que não marcasse do lado de fora, precisava cumprir uma função decisiva: impedir que a vulva entrasse em contato com qualquer costura, além de proteger do suor e de corrimentos.
Durante os testes, Renata entregou a bermuda a mulheres diferentes. “Aprendi muito sobre o corpo feminino nessa etapa”, diz. Não se tratava apenas de ajuste ou tamanho. A própria localização da vulva variava de pessoa para pessoa — um detalhe determinante. A peça precisava funcionar para o maior número possível de corpos.
O trabalho virou uma sucessão de pequenas correções: um centímetro a mais, uma costura que mudava de lugar.
“A gente foi ajeitando. Pensando em como costurar sem machucar ninguém naquela região”
Houve também a busca pelo tecido. Ele precisava ser antibacteriano, secar rápido e, acima de tudo, ser confortável.
Renata consultou especialistas em tecidos e ginecologistas. Queria entender o que poderia estar em contato direto com o corpo sem causar riscos.
O processo inteiro levou cerca de um ano. Acostumada à velocidade do marketing, Renata imaginou que tudo se resolveria mais rápido. Na sua cabeça, o roteiro era simples: testar, ajustar, produzir, vender.
“Vou fazer um pouco, colocar no mundo e ver o que acontece…”. Nada aconteceu assim.
Junto com a bermuda, ela desenvolveu também um top em resposta a outro incômodo antigo. Os elásticos usados para sustentar os seios costumavam provocar assaduras. Renata decidiu eliminá-los. A sustentação viria da compressão do próprio tecido.
“Buscamos um material muito macio, gentil no contato com o corpo”, explica. Pela modelagem, o top ganhou sustentação eficiente para acompanhar o movimento de quem tem seios pequenos e médios, por enquanto.
Em março de 2023, a Vimm Activewear foi finalmente apresentada ao público. Logo no primeiro contato — na bio do Instagram — a marca deixou claro seu propósito: “Para praticar atividade física sem calcinha”.
Vim, em inglês, significa “força”, “vigor”. Para dar uma bossa ao nome e deixar explícito a que vinha, Renata acrescentou mais um “m”.
Pouco depois, ela identificou seu primeiro erro como empreendedora. A tabela de tamanhos não correspondia ao corpo real das clientes. O tecido usado pela marca tem uma compressão mais intensa do que a média do mercado e não se comportava como ela havia previsto.
A numeração seguia o padrão habitual: PP, P, M, G e GG. Na prática, não funcionou. Quando as peças começaram a chegar às casas das clientes, muitas simplesmente não entravam.
“Percebi que tinha numerado errado”, diz Renata. O GG da Vimm equivalia a um 42 — um número que, em outras marcas, costuma corresponder a um M. “Entendi que precisava confeccionar mais tamanhos.” Hoje, a grade vai até o 46. No e-commerce, a orientação é simples: escolher o tamanho que se usa em calça jeans.
No mercado de moda esportiva, é comum comprar um número menor, pois os tecidos são mais elásticos. O da Vimm também estica, porém é mais firme. E, como Renata aprendeu rapidamente, ninguém arrisca comprar calça jeans menor do que veste.
Meses depois de colocar a bermuda no mercado, surgiram as cópias. Primeiro, de marcas pequenas. Depois, de maiores. “Eu fiquei louca a primeira vez que vi”, conta. Pensou em desistir. Respirou fundo. Decidiu seguir.
“É um sinal de que o produto faz sentido e de que estamos criando uma categoria nova. Enquanto estiverem copiando, eu já vou estar fazendo a segunda versão bermuda ou pensando no próximo produto”
Há apenas seis meses, Renata conseguiu deixar os frilas e se dedicar integralmente à empresa. Ela prefere não trabalhar com coleções, apenas cores novas aplicadas em modelos já existentes.
Hoje, a Vimm tem quatro produtos: dois comprimentos de bermuda, um top e uma camiseta com top embutido. Cada um, segundo Renata, é criado para solucionar algum desconforto. “Todos os produtos têm que resolver uma questão”, diz. “É legal fazer algo autoral.”
Do hábito de correr em grupo com as amigas, Gisele Violin e Corina Godoy Cunha deram um passo rumo ao empreendedorismo: elas estão à frente da Pink Cheeks, marca de autocuidado para mulheres que praticam esporte ao ar livre.
Ele é biólogo. Ela trabalhou com marketing e tecnologia. Anderson Santos e Cris Muniz Araújo hoje tocam a Simbiótica, que engaja equipes e estimula a inovação nas empresas criando experiências como banhos de floresta e ativações sensoriais.
Em um mercado movido pelo hype, a Ocean Drop quer fazer a diferença. A marca de suplementos, fundada por oceanógrafos, aposta nos benefícios das microalgas e destina recursos para apoiar a retirada de lixo na Ilha do Cardoso.
