Draft ano 2 – Depois de ser vendida, a ZeroPaper mudou de nome e seu fundador virou executivo…

Filipe Callil - 30 set 2016
De empreendedores a executivos de alto escalão, o trio que fundou a ZeroPaper (da esq. para a dir.): Cadu Braga, André Macedo e Árley Moura (foto: Gustavo Scatena)
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A entrevista estava agendada para às 14h30. Assim que cheguei, fui instruído pela recepcionista a aguardar ali mesmo, no hall de entrada do escritório. “Por favor, fique à vontade. O senhor André já vem. Aceita uma água ou café?” Foi o tempo de eu me acomodar em uma confortável poltrona até ele, serenamente, aparecer. “Fala, cara! Aguente só mais uns cinco minutos e já conversamos, pode ser? Só preciso resolver um negócio rapidinho com um dos nossos executivos.” Aproveitei o tempo que ganhara a mais para refletir um pouco – e tomar a minha água e café sem pressa.

Há um ano, eu estivera naquele mesmo lugar para entrevistar, pela primeira vez, André Macedo, 37 anos. Um empreendedor nato, daqueles fervorosos, que, juntamente com os amigos Cadu Carvalho, Árley Moura e Kadu Braga, fundara a startup ZeroPaper (hoje, parte da global Intuit).

Há um ano, o Draft contou a história da Zeropaper (clique na imagem para ler a reportagem).

Há um ano, o Draft contou a história da Zeropaper (clique na imagem para ler a reportagem).

Na época, a startup, que oferecia uma solução automatizada de gestão financeira para pequenas empresas, havia sido recentemente adquirida pela proprietária daquele imóvel, a gigantesca Intuit (multinacional norte-americana também com atuação em “fintech”, fundada em 1983 e avaliada, segundo a Forbes, em mais de 26 bilhões de dólares).

De fato, o escritório era o mesmo; repleto de obras de arte e artigos clássicos de decoração, em um arranha-céu no coração da Av. Brigadeiro Faria Lima, no Itaim Bibi, em São Paulo. Porém, agora, a atmosfera é outra.

De CEO da ZeroPaper, André passara efetivamente a Country Manager da Intuit no Brasil — algo que, há um ano, era ainda bem incipiente. Seus antigos sócios, de cofundadores de uma pequena startup a gestores de alto escalão de uma grande companhia. E o negócio, que um dia ocupara um pedacinho singelo daquele ambiente, tonou-se um braço 100% integrado ao restante da corporação, presente (na prática e na essência) em cada metro quadrado daquele lugar.

“Pronto. Vamos falar? Acho que pode ser na minha sala mesmo, caso você não se importe”. O percurso foi curto. Menos de 30 metros. Mas, o suficiente para perceber que até o jeito dele caminhar estava mais leve e sutil. Talvez, por causa dos quase 10 quilos a menos, conforme ele explicaria mais tarde, perdidos com muitas pedaladas nas ruas e ciclofaixas paulistanas. Talvez, pela ansiedade excessiva que ficara pra trás.

UM VELHO E UM NOVO ANDRÉ

Antes de seguir, vale abrir um parêntese e dizer que conheço o André há quase quatro anos, desde os primórdios da ZeroPaper. Uma relação puramente profissional, mas com diversos encontros em eventos de tecnologia e concursos de empreendedorismo – quando a the research paper ganhou uma premiação chamada U-Start, em 2014, o ClapMe (startup da qual sou sócio) era uma das finalistas. Sim, já perdi para ele.

André e os amigos ciclistas numa pedalada por São Paulo. Ele emagreceu 10 quilos depois de adotar a bike.

André e os amigos ciclistas numa pedalada por São Paulo. Ele emagreceu 10 quilos depois de adotar a bike.

Mas, o ponto é: poucos empreendedores brasileiros que fundaram negócios digitais tiveram, nos últimos anos, uma ascensão tão meteórica quanto a de André. E, agora, essas mudanças transbordam em sua aparência.

De um lado, o mesmo rapaz sonhador, que saíra de Brasília com mais três amigos para montar o próprio negócio. Do outro, um experiente empresário muito mais calmo, magro e, é claro, rico do que aquele “velho André”. Fecha parêntese.

Já acomodados na sala, pedi a ele que abrisse a reportagem de um ano atrás e, após relê-la, que me dissesse suas impressões. Primeiro veio um suspiro. Depois, um desabafo: “Caramba, acho que ninguém faz ideia do quanto essa trajetória foi dolorosa. Inúmeras vezes eu e meus sócios pensamos que nada daria certo, que estávamos errados”

Após venderem a ZeroPaper, eles receberam uma quantia de dinheiro, segundo o executivo, suficiente para não precisarem nunca mais trabalhar (o valor exato da negociação mantém-se em sigilo até hoje). Com isso, boa parte das incertezas se foram. Já os desafios…

“A situação financeira não é mais um problema. Nem mesmo o medo de falhar. Só que, com certeza, eu tenho trabalhado muito mais do que antes”

Além disso, ele diz que sua missão como empreendedor está longe de ser cumprida. “Ainda estou tentando realizar o sonho que vislumbrei lá atrás. Quero realmente fazer a diferença. Quero trabalhar para reduzir a taxa de mortalidade das pequenas empresas e melhorar a economia do nosso país”, diz.

A IMPORTÂNCIA DE TER UMA EQUIPE COMPETENTE

Para ajudá-lo em tal desafio, desde que assumiu a liderança da Intuit no Brasil, André reuniu um verdadeiro exército de profissionais com expertise em tecnologia, finanças e marketing. “Trouxe gente do Google, do Yahoo!, da Microsoft e de outras empresas com perfis completamente diferentes. Com isso, criei uma nova cultura dentro da Intuit”, conta.

Parte desse novo “DNA” baseia-se, principalmente, na postura de André, que tem se colocado numa posição de ouvir mais e falar menos. “Me considero um gestor bem próximo do time e que valoriza a opinião de todos. Até porque, muitas pessoas que estão aqui possuem infinitamente mais conhecimento do que eu.”

André e aquipe da Intuit Brasil na sede da empresa, em São Paulo.

André e aquipe da Intuit Brasil na sede da empresa, em São Paulo.

No dia a dia, o executivo também conta com o auxílio de alguns mentores para tomar as decisões mais importantes. Ele tem pessoas muito próximas que lhe dão suporte em diferentes áreas: na organização do escritório, na estratégia de venda, na motivação do time e por aí vai.

A fórmula tem dado certo. No início deste ano, em uma avalição interna da Intuit global, a sede brasileira foi considerada a melhor no aspecto “ambiente de trabalho”. Como ele se sente?

“Sou um empreendedor que conseguiu se integrar a uma multinacional. No começo foi estranho. Hoje, penso que foi a melhor coisa que aconteceu”

Graças as novas relações, o agora executivo também tem aprendido mais sobre si mesmo. “Tenho melhorado os meus processos e me tornado mais proativo. Fiz vários cursos e treinamentos internos da Intuit para ser cada vez mais rápido e performático nas minhas tarefas”, conta.

DOIS PRODUTOS, UM MESMO OBJETIVO

A Intuit continua focada no progresso dos dois produtos que já vinha trabalhando no Brasil. No caso, o reformulado QuickBooks ZeroPaper e o QuickBooks (outro software, também de gestão financeira, que a companhia já possuía antes da aquisição da startup de André).

As duas ferramentas oferecem soluções parecidas, mas para públicos distintos. Enquanto a primeira (que custa, atualmente, 17,90 reais por mês) é destinada aos negócios ainda emergentes, a segunda (48,93 reais por mês) é ideal para as empresas mais maduras e oferece alguns recursos extras. Entre eles, serviços bancários online, gerenciamento dos pagamentos para fornecedores, repasse automático de despesas para clientes e monitoramento de estoques. (O comparativo entre as duas soluções está disponível no site da empresa e você pode acessá-lo aqui).

“A ideia que tínhamos lá atrás, de que o empreendedor começa utilizando o QuickBooks ZeroPaper e, depois que o negócio expande, migra para o QuickBooks, tem começado a funcionar na prática. É gratificante ver uma empresa evoluir e continuar como sua cliente”, afirma.

A Intuit oferece um trial (teste) de 30 dias grátis para os novos clientes. Entretanto, a opção freemium (termologia utilizada quando parte do serviço é gratuita por tempo indeterminado), antes disponível, por ora, foi eliminada do modelo de negócio. André compartilha o que aprendeu a respeito dessa estratégia:

“É muito difícil converter o cliente freemium, que nunca gastou um centavo sequer, em cliente pagante. Ele valoriza bem menos o produto do que quem já entra pagando”

E o que fazer com esses antigos usuários – no caso do QuickBook ZeroPaper, mais de um milhão – que sempre utilizaram a ferramenta gratuitamente? Segundo André, a migração precisa acontecer organicamente, isso é, quando o próprio cliente entender o real valor do produto. Enquanto isso, ele segue perseguindo a sua missão: desenvolver os produtos e conquistar os clientes, de forma que eles nunca mais voltem a fazer o controle de caixa como faziam antes (ou seja, com planilhas ou controles manuais).

SORTE NO JOGO E TAMBÉM NO AMOR

Não foi só no trabalho que o “time” de André cresceu. Na época da primeira entrevista, a sua esposa, Maria Lina, estava grávida de uma menina. Hoje, a família é formada por Gabriel (o filho mais velho), Lina (a caçula, Lininha) André e Maria Lina.

A maior parte do tempo livre é dedicada a eles. O restante, o executivo divide entre o ciclismo e uma outra paixão: o vinho. Sinal de uma vida que mudou para melhor:

“Apesar de ter emagrecido quase 10 quilos nos últimos meses, nunca tomei tanto vinho como agora”

A pergunta que ronda minha cabeça é “O que mais poderia querer da vida um homem que, antes dos 40, construiu um modelo de ‘família perfeita’ e alcançou o topo da carreira profissional?”

A pergunta que efetivamente lhe faço é: “Como um empreendedor pode ser feliz dentro de uma empresa?”. André me diz: “Estou muito feliz aqui. Mas tenho vontade de aproveitar todo o conhecimento que tenho adquirido para, daqui uns 10 anos, criar uma empresa novamente do zero. Só que, dessa próxima vez, quero transformá-la em algo grande 100% com as minhas próprias mãos”.

A resposta à minha inquietação também vem naturalmente. O que mais ele poderia querer? Simples. Recomeçar. Fazer de novo — e fazer melhor.

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