Ela trocou a vida na cidade por um pequeno canavial. Hoje, fatura 25 mil reais por mês vendendo garapa

Márcia Juliatto - 11 out 2016 Gisele, à frente do canavial que sustenta seu negócio: uma garaparia e hamburgueria artesanal.
Gisele, à frente do canavial que sustenta seu negócio: uma garaparia e hamburgueria artesanal.
Márcia Juliatto - 11 out 2016
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Desde a adolescência, a empresária Gisele Berto, 40, dizia que queria ser jornalista. Fez faculdade na área e trabalhou com comunicação empresarial em grandes empresas por 20 anos. No entanto, depois de algum tempo, começou a aparecer aquela vontade de tentar coisas novas, “típica dos geminianos”, como ela diz. Motivada por um amigo investidor, que propôs uma parceria comercial, ela resolveu deixar o jornalismo de lado e empreender numa nova área.

“Eu já fazia hambúrgueres em casa e eram um sucesso. Achava um absurdo chamarem aquelas coisas cheias de sódio de ‘hambúrguer’ e pensei que talvez pudesse dar certo vender hambúrguer de carne de verdade, como os que eu fazia em casa”, conta. Assim, há pouco mais de um ano, nasceu a Garaparia & Hambúrguer Artesanal, em Caieiras, na região metropolitana de São Paulo.

Parece simples, e é. Mas uma série de cuidados tornam seu negócio especial: a lanchonete foi construída sem gerar nenhum resíduo (tudo foi reaproveitado) e Gisele planta a própria cana, os temperos e as frutas que usa no preparo dos alimentos. Parece pouco, mas não é.

A Garaparia tem um deck, de frente para o canavial.

A Garaparia tem um deck, de onde se vê o pomar que abastece o negócio com temperos e frutas.

Ao conceber sua nova vida, ela se preocupou em fazer algo diferente. “Queria remeter à vida simples, ao campo, pois estamos em meio à natureza e próximos da Serra da Cantareira”. E ela encontrou o que queria lembrando do passado: “O que remete mais à infância e à vida caseira do que caldo-de-cana?”. E caldo-de-cana lá combina com hambúrguer? Para ela, sim. Gisele acredita que a bebida tem potencial para ser servida em muito mais ocasiões do que apenas as feiras e Kombis no meio da rua. E aposta na garantia de procedência:

“Aqui, estamos num ambiente calmo, familiar e a plantação de cana é nossa. Você vê plantada a cana que vai virar garapa na sua frente”

Para cuidar do canavial, a empreendedora conta com o próprio pai, que plantava cana em casa quando as filhas eram crianças. Sustentabilidade também é uma das bandeiras de Gisele. A Garaparia foi montada em um terreno de 1 500 metros quadrados, dentro de dois containers e, durante sua construção, não foi gerada nenhuma caçamba de lixo de obra.

UM NEGÓCIO QUE É UM EXERCÍCIO DE SUSTENTABILIDADE

Há total reaproveitamento de água da chuva e a Garaparia tem mesas em pallets reaproveitados, além da grande área livre para crianças, com playground e pomar. Há, ainda, um deck superior que dá vista para ipês e árvores nativas. Não raras vezes aparecem tucanos por lá, ela conta. Também há uma horta e pomar no local, de onde saem os sucos e temperos. “Tudo o que pode ser feito localmente, nós fazemos. Porções de mandioca e polenta são feitas na casa, por exemplo. A batata curly que acompanha os lanches também é daqui”, diz.

A limonada adoçada com pedras de caldo de cana congeladas é uma criação Garaparia, por 5 reais.

A limonada adoçada com pedras de caldo de cana congeladas é uma criação Garaparia, por 5 reais.

No pomar infantil há árvores frutíferas como pé de jabuticaba, de mexerica, de fruta-do-conde e amora. Assim que começarem a florir, nós poderemos mostrar às crianças de onde as frutas vêm. A cana, hortelã, limão e laranja usados no bar também são plantados no local.

Ela é quem toma conta da cozinha. O marido fica no bar. O pai cuida do canavial e dos pomares. E assim, com mais duas pessoas, tocam tudo da maneira mais familiar possível. “Quer ambiente mais familiar?”, ela diz.

O cardápio traz opções de sucos e de caipirinhas com o caldo-de-cana. A garapa natural (4 reais), com limão ou abacaxi (5 reais) é o que mais vende. Há também a mistura de garapa com limão siciliano e gengibre e de hortelã com gengibre (5 reais o copo de 300 ml), e a chamada “limorapa” (limonada feita com gelo de garapa), também 5 reais, e as caipirinhas de garapa, ou “garapirinhas”, feitas com pinga e vodka (de 10 a 18 reais).

Entre os lanches, há os hambúrgueres artesanais bovino, suíno (feito com pernil), linguiça toscana e frango, além do de abobrinha para os vegetarianos. Os preços vão de 9,90 reais (x-burguer de 100g) a 21,40 reais (com dois hambúrgueres de 150g cada, mozarela, bacon, cebola manteiga, crispy de batata, molho de tomate, alface e maionese caseira). Ainda este ano, Gisele vai investir na linha de sobremesas (!) feitas com o caldo-de-cana: “Já temos um milk shake de garapa no cardápio e estou fazendo alguns experimentos, mas ainda não iniciei as degustações”.

ELA ESTÁ MAIS FELIZ, MAS TAMBÉM BEM MAIS CANSADA

Apesar de se considerar feliz e realizada, a empresária garante que a nova vida não tem nada de tranquila. Ela compara a rotina atual com a de jornalista: “Não tem o estresse de cumprir prazo para uma divulgação, nem a cobrança de clientes ou empresas que querem destaque na mídia, mas trabalhar na cozinha é tão corrido como em uma redação. Além do cansaço mental, tem o físico”.

Gisele conta, também, que ainda não pagou o investimento inicial no negócio — 250 mil reais, do próprio bolso — e que a Garaparia vem mantendo um faturamento médio de 25 mil reais por mês, mas ainda não deu lucro. Ela fala a respeito:

“Buscamos um crescimento sustentável e sabemos que, para isso, o processo é mais lento. Sei que estamos no caminho certo. O sucesso virá aos pouquinhos”

De olho na conquista de um novos frequentadores, Gisele está conversando com empresas que promovem corrida de aventura e clube de jipeiros e de motoqueiros para transformar o local em um ponto de encontro desse público. “São pessoas que buscam um maior contato com a natureza e se sentem bem em locais mais robustos e com tudo feito de forma artesanal. Outros bares que seguiram esta linha aqui próximo, na Serra da Cantareira, tiveram sucesso. Vamos investir nisso.”

Ela sabe que, por estar em uma região afastada (Caieiras fica 38 quilômetros ao norte da capital paulista), “leva um tempo para ser descoberta”. Mas se fia no feedback dos clientes e em algo dentro de si mesma: “O projeto é muito legal”.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Garaparia
  • O que faz: Vende garapa e hambúrguer artesanal
  • Sócio(s): Gisele Berto
  • Funcionários: 4
  • Sede: Caieiras (SP)
  • Início das atividades: outubro de 2014
  • Investimento inicial: R$ 250.000
  • Faturamento: R$ 25.000 mensais
  • Contato: (11) 4441-1029
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