Ela viu nos cosméticos uma forma sutil de fazer a maconha entrar na casa das pessoas e quebrar os tabus que envolvem essa planta

Dani Rosolen - 7 fev 2023
Barbara Arranz, fundadora da Hemp Vegan.
Dani Rosolen - 7 fev 2023
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Protetor solar (25 euros ou 140 reais) e pomada para dor muscular com canabidiol (25 euros, ou cerca de 140 reais), creme facial de óleo de jojoba e cânhamo (25 euros, ou 140 reais), lip balm (15 euros, ou 85 reais) e até lubrificante íntimo de cannabis (25 euros, ou 140 reais).

Esses são alguns dos produtos da Hemp Vegan, que também vende óleos à base de CBD, CBG e CBDA (de 55 a 120 euros), resinas puras (de 80 a 150 euros), vapes (50 euros, ou 285 reais), flores (40 euros, ou 230 reais) e gomas de CBD (27 euros, ou 155 reais).

Fundada em 2021 pela biomédica brasileira Barbara Arranz, em Madri, na Espanha, a marca produz e vende cosméticos naturais e veganos à base de uma planta que ainda desperta tabus. Sua missão, diz, é desmistificar os estigmas relacionados à maconha e mostrar ao mundo o poder e os benefícios da natureza psicodélica.

A cannabis medicinal entrou na vida de Barbara em 2016, quando seu terceiro filho, Raul (hoje com 14 anos), foi diagnosticado com autismo. Ao perceber os efeitos positivos que esse medicamento teve na vida dele, ela quis levar educação sobre o assunto e acesso à cannabis medicinal, por meio de um perfil criado em 2019 no Instagram chamado Linha Canabica da Bá.

Apesar do nome, não havia então nenhum produto à venda. Ou seja, não era ainda de fato um negócio, e sim uma iniciativa nas redes, que logo se tornou referência no universo canábico (hoje, são mais de 120 mil seguidores).

Foi só em 2020, quando se mudou para a Espanha, que Barbara decidiu que era hora de “hempreender” profissionalmente. Manteve o perfil educativo, e — com 400 mil reais de investimento aportados pelo marido, o executivo Gustavo Sanchez Palencia — começou os esforços para desenvolver a Hemp Vegan.

A marca cultiva e fabrica seus produtos na Eslovênia (a plantação de maconha não é permitida na Espanha). Tem uma loja em Madri, vai inaugurar outra em Londres, em março, e planeja uma terceira para Portugal, em abril.

Em 2022, a Hemp Vegan fechou o ano com faturamento de 4 milhões de reais. Para os brasileiros, a empresa atua buscando facilitar os trâmites da importação junto à Anvisa. Segundo a empreendedora, 30% dos mais de 45 mil clientes atendidos pelo mundo são do Brasil.

Paralelamente, ela se especializou em Terapia Canabinoide pela Learn Sativa University e em Terapia Psicodélica pelo Instituto Phaneros. Também fez especializações em Cosmetologia e Cosmetologia Dermatológica pela Euroinnova Business School e agora está se graduando em Cosmetologia pela Universidade de Araraquara.

A seguir, Barbara, 35, divide com o Draft sua jornada empreendedora e os aprendizados no universo canábico:

 

Você já tinha empreendido antes de criar a Linha Canabica da Bá ou a Hemp Vegan?
Sou filha de pais separados desde os 2 aninhos. E fui criada pelo meu pai e pela minha avó paterna. Essa avó foi pioneira empreendendo ao trazer para a nossa cidade, Mogi das Cruzes (SP), a primeira Foto 5 Minutos.

As mulheres da minha família se voltaram ao empreendedorismo, sempre vi minhas tias correndo atrás.

Eu fui mãe aos 16 anos e ali vivi um corte de realidade. Estava indo para o 3º colegial e ouvi que “minha vida tinha acabado”… Tive minha filha e com 18 para 19 anos engravidei do segundo filho. Pela primeira vez, ali tive vontade de empreender

Isso era 2006 e comecei a vender bonequinhos colecionáveis. Era difícil imaginar que eu, jovem e mãe de dois filhos, pudesse empreender. Procurava fazer coisas que caminhassem junto da minha maternidade. Na Páscoa ou no Natal, pintava caixas de madeira, colocava bombons dentro e vendia, por exemplo.

E como você mergulhou no universo canábico?
Com 21 anos, fui mãe do Raul, que de 7 para 8 anos foi laudado com espectro autista suporte 1, conhecido antigamente como Asperger.

Eu já estava no segundo ano do curso de Biomedicina; quando vi a receita médica com fármacos convencionais, fiquei chocada e fui procurar alternativas [no final de janeiro de 2023, a Assembleia Legislativa paulista sancionou uma lei que garante o fornecimento gratuito de medicamentos à base de canabidiol através do SUS no estado de São Paulo].

Pesquisando em 2016, achei a Apepi [Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal], e vi uma luz no fim do túnel. Fui a uma palestra no Rio de Janeiro e a presidente da associação me deu uma visão de como funcionaria o tratamento.

Me aprofundei bastante: uma vez que sou de uma família totalmente conservadora e sabia que iria ser tachada de maluca, [acusada] de que estaria drogando meu filho

Precisava me munir de muita informação para tratar o Raul da forma que achava que seria o melhor para ele.

Com três meses de uso do óleo, ele teve uma baita evolução. Antes, fazia movimentos repetitivos com os dedos e com a cabeça, tinha dificuldades na fala, na alfabetização, na interação social. E com o óleo, teve muitas melhoras nestes aspectos.

Na escola em que ele estudava, em São Paulo, mães vieram me perguntar o que eu tinha feito, porque algumas também tinham filhos diagnosticados. Como eu tinha estudado muito, passava essas informações para elas.

Meu telefone não parava de tocar… Foi aí que entrei neste universo canábico, criando um perfil no Instagram, a Linha Canábica da Ba, para levar educação e acesso sobre como conseguir a medicação — enfim, munir as pessoas do que elas estavam precisando sobre este tema.

Fui fazendo isso com um espírito maternal, tentando ajudar outras mães, pensando em revolucionar o sistema… Mas me deparei com um mercado machista, que não tem nada a ver com essa relação de “paz e amor”, em que todo mundo visa dinheiro e poder

Meu perfil começou a sofrer ataques de haters e eu entrei em depressão.

Como você fez para seguir adiante? E de onde, no meio disso tudo, veio a ideia para criar a Hemp Vegan?
Eu só queria levar para frente algo que fez bem ao meu filho, mas percebi que essa primeira entrada no mercado canábico foi meio familiar.

Isso me pegou, comecei a me questionar, achar que não estava empreendendo mesmo. A Linha Canabica da Bá era algo atrelado a mim. Aliás, meu filho do meio deu esse nome…

Fiquei três meses bem mal, mas depois entendi que criei o perfil porque tinha um propósito maior —  e precisava levar isso para frente

Quando nos mudamos para Madri, por conta de um oportunidade de emprego que meu marido recebeu, decidi que faria tudo aquilo que fiz de forma familiar e humanizada no Brasil em relação à cannabis — mas [agora] com profissionalização.

Quando o Raul começou o tratamento com o óleo de cannabis, minha filha acompanhava um movimento de famosas, como as Kardashians, que estavam usando cosméticos à base de cannabis. E vi que essa era uma forma sutil de entrar na casa das pessoas.

Se você tem uma mãe com manchas, um pai ou uma avó com dor muscular, consegue levar a maconha para dentro das famílias — e foi aí que os cosméticos me chamaram atenção.

Venho de uma família em que minha avó sempre teve o costume de fazer pomada, passar melaleuca, lavanda. Por que não fazer isso com a cannabis? Vi nos cosméticos um caminho delicado de apresentar essa planta

Digo que a Hemp Vegan é uma spin-off da Linha Canabica da Bá. Com a marca, consigo atender meu propósito de levar educação e informação sobre o tema, e incluo minha parte maternal nisso tudo.

Alguns dos produtos da Hemp Vegan, entre eles as gomas, a resina (pasta), o vape, o protetor solar e o lip balm.

Por que a cannabis é boa para a pele?
Porque nós temos muitos receptores na pele. Possuímos um sistema chamado endocanabinoide que está 100% preparado para receber esses fitocanabinoides encontrados nas plantas da Cannabis sativa.

Quando nosso sistema absorve o CDB, o THC, o CBG ou o CBDA, eles ajudam em vários aspectos da pele, na inflamação, na parte dos ômega 3, 6 e 9, no equilíbrio hormonal, naquele famoso sebo, no equilíbrio da água no nosso corpo.

Você chegou a ter uma loja online no Brasil, mas só vendia pasta de dente, sabonetes e xampus e condicionadores em barra, mas à base de terpenos manipulados de cannabis (substâncias responsáveis pelo cheiro e sabor da planta) e de CBDA. Por que decidiu fechar o negócio?
Comecei a enxergar a importância de levar a educação canábica na sua essência. E por aqui [no Brasil] não poderia falar tão profundamente de cannabis e ver seu efeito nas pessoas, porque elas estariam consumindo terpenos manipulados e CBDA sintético, as únicas coisas que eram legalizadas aqui. E eu precisava continuar levando a maconha para elas, mas aqui não conseguiria fabricar esses produtos.

Com o cultivo próprio, consigo reduzir meus custos e trazer meus produtos para o Brasil a um preço que, mesmo sendo importado, as pessoas conseguem comprar, e de forma simplificada, sem enxergar todo esse processo como um bicho de sete cabeças.

No nosso site, a pessoa clica no produto que deseja, faz o upload dos documentos exigidos pela Anvisa e da receita e nós cuidamos do despacho

Hoje, a Anvisa está liberando a autorização em menos de 24 horas e, em cerca de 15 dias, o cliente recebe o produto importado em sua casa e paga um frete fixo de 85 reais para até cinco itens.

E se a pessoa ainda não tiver a receita, a Hemp Vegan encaminha a médicos parceiros com consultas a custo humanizado, na faixa de 60 reais, ou indicamos outros médicos no Brasil de diversas especialidades que trabalham com cannabis.

Mas mesmo que seja, por exemplo, para um protetor solar, ainda assim o cliente que desejar comprar esse produto precisa de uma receita?
Sim, todos os produtos feitos à base da cannabis sativa precisam entrar no Brasil através da importação especial, com essa validação da Anvisa, que é a RDC 660.

Lutei muito contra isso no começo com a Linha Canabica da Bá, vinha com um ativismo forte, mas depois entendi que para o país alcançar a legalização e a descriminalização da maconha precisa, como tudo, oferecer dados

E se a gente não colabora com a Anvisa, se não tem lá 100 pessoas querendo utilizar um protetor solar que é 100% sustentável e biodegradável, talvez eles não tenham uma métrica para provar que aquilo é importante e eficaz.

Barbara, na loja da Hemp Vegan, em Madri.

Percebi que isso é uma coisa boa, é um sacrifício, mas é a forma de lutar e mostrar que muitas pessoas querem e precisam usar produtos à base de cannabis.

Como você define o movimento de “hempoderamento” e trabalha para acabar com o tabu sobre a maconha medicinal e cosmética?
O hempoderamento vem muito do meu lado materno, de que sim é possível ser mulher, mãe e empreender com maconha, mas muitas vezes somos caladas pelo simples fato de admirarmos uma planta que é 100% feminina.

Tudo o que envolve a maconha vem do feminino; quando vieram os homens é que começou essa proibição, essa vilanização da planta

E esse lado da maconha e da cosmetologia é a forma que encontrei de quebrar tabus, agradando minha avó, mostrando pros meus pais que a maconha é pura, que não precisa ser vista dessa forma como a maioria das pessoas conservadoras costumam enxergar.

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