Ele criou um projeto que oferece atendimento médico a quem não pode pagar e previne o suicídio analisando posts no Twitter

Rubem Ariano - 19 nov 2021
Rubem Ariano, fundador do Instituto Horas da Vida e da healthtech Filóo Saúde.
Rubem Ariano - 19 nov 2021
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Cresci ouvindo do meu pai que se eu me tornasse um corretor de café e falasse inglês, ganharia em dólar — e isso seria a chave para o meu sucesso profissional.

Esse era o sonho dele para mim. E, com certeza, era o sonho de muitos outros pais lá de Lins, no interior de São Paulo, onde fui criado, nas décadas de 1970 e 1980.

A produção e comercialização de café era uma das principais atividades econômicas da região e, por isso, era vista com grandeza e admiração pelas pessoas.

Meu pai, aliás, era um corretor de café. Mas faltava a ele o inglês, o que era motivo de lamento para si — e, sobretudo, um imperativo para que eu, seu filho, alcançasse esse conhecimento

Embora tivesse planos diferentes do dele (na real, meu sonho de infância era ser médico e ajudar as pessoas), aprendi inglês, como ele tanto queria.

E com o tempo, sem me dar conta, também acabei trilhando passos semelhantes na profissão.

DE CERTO MODO, SEGUI O CAMINHO QUE MEU PAI TINHA IMAGINADO PARA MIM. MAS OS MEUS PRÓPRIOS SONHOS RESSURGIRAM

Fui parar no mercado financeiro, atuando justamente na área de commodities agrícolas que atendia o mercado internacional.

O êxito que meu pai tanto sonhou para mim foi conquistado. Em 18 anos no mercado financeiro, estava plenamente realizado

Eu sentia gratidão pela vida ter me dado tanta coisa boa. Havia uma sensação de dever cumprido, como se um ciclo tivesse terminado, e uma vontade de retribuir a sorte que eu havia tido até ali… Mas, ao mesmo tempo, ressurgia em mim uma inquietação em relação aos meus próprios sonhos do passado

Eu via a vida passando a 1 milhão de quilômetros por hora… E pensei: não posso ficar trancado “do lado de dentro”.

Ainda que sem saber muito bem como, algo me chamava para um trabalho que tivesse mais sentido para mim.

DECIDI LARGAR O MERCADO FINANCEIRO PARA IMPACTAR DE ALGUMA FORMA A VIDA DAS PESSOAS. MAS AINDA NÃO SABIA COMO

A essa altura, eu já estava decidido: iria mudar tudo! Isso foi no final de 2009, quando me afastei definitivamente do mercado financeiro.

De certeza, a única que eu tinha era a de querer atuar com algo que impactasse a sociedade. Algo que realmente fizesse diferença na vida das pessoas.

Minha família, por óbvio, achou que eu estava enlouquecido. Amigos, idem!

No começo, ouvi muitos questionamentos. Afinal, eu tinha 36 anos, trabalhava numa gestora super conhecida no Brasil e no exterior — e, de repente, resolvi ir embora desse mercado, sem que as minhas explicações fossem “justificáveis” para as pessoas ao meu redor 

Mas foi justamente da família e dos amigos que veio a inspiração quanto aos passos que eu tinha a seguir. Ajudar as pessoas no meu círculo de relações, aliás, sempre foi algo costumeiro para mim.

Em 2010, vivi a solidão e as alegrias de um ano sabático, percorrendo lugares tão diferentes quanto a Inglaterra, a Tailândia e a Mongólia… Neste último país, passei um mês no deserto e nas montanhas, dormindo em barracas e tendas, junto a famílias nômades locais, e vivendo a vida simples deles.

Durante essa experiência na Mongólia, me aprofundei nessas ideias de empreendedorismo de impacto. Passei a procurar oportunidades que de fato atendessem grandes demandas da sociedade.

E a saúde, mais uma vez, era o tema que despertava com mais força dentro de mim. Óbvio! Se tem um assunto que é de interesse geral, que tem enorme demandas sociais, e que de fato impacta a vida das pessoas, esse é o número 1.

EU TINHA MEDO DE ARRISCAR UMA NOVA CARREIRA, MAS A VONTADE DE EMPREENDER COM PROPÓSITO FALOU MAIS ALTO

Havia também um componente sentimental misturado nisso: o resgate daquele sonho de menino, que já parecia tão distante, e que poderia (enfim) se concretizar.

Confesso: tive medo de seguir esse sonho. Mas a vontade de fazer algo com mais sentido para a minha vida era tanta que juntei coragem para arriscar.

A ideia inicial surgiu em 2012, em meio a um bate-papo com um médico a quem eu tinha me associado para criar uma startup de agendamento de consultas.

Durante a conversa, pensamos: “será que esses profissionais da saúde topariam doar parte de suas horas para atender quem não pode pagar?”. Ligamos para meia dúzia de amigos médicos e, quando nos demos conta, havíamos nos tornado um grupo de conexão entre quem precisa de atendimento e quem pode doar tempo para ajudar.

Não houve planejamento, apenas a vontade de fazer algo que tivesse impacto.

De uma ruptura profissional aparentemente inesperada, engatada em uma ideia maluca, surgiu o Instituto Horas da Vida — um projeto inovador que garante atendimento médico, psicológico e em muitas outras áreas da saúde a pessoas que não têm condições de pagar pelo serviço

Atualmente, são mais de 2 mil profissionais de saúde, como médicos, dentistas, entre outras especialidades — todos dispostos a ceder seu tempo e conhecimento a favor de quem mais precisa.

Tudo na base da compaixão e da vontade de profissionais de saúde interessados em contribuir com as causas sociais.

COMO AJUDAR A PREVENIR SUICÍDIOS POR MEIO DA ANÁLISE DE ALGORITMOS DO TWITTER

Um dos projetos dentro do Horas da Vida de que tenho grande orgulho é o “Algoritmo da Vida”, que, junto com parceiros como a SAP, identifica pessoas em vulnerabilidade emocional e quadro de depressão a partir de mensagens postadas no Twitter.

O Horas da Vida auxilia na consolidação dos dados filtrados pela ferramenta de inteligência artificial dos parceiros, que permite identificar perfis de pessoas com vulnerabilidade emocional e quadro de depressão a partir de suas mensagens na rede social. Então, os internautas recebem uma mensagem de orientação do projeto, que disponibiliza, inclusive, psicólogos gratuitamente.

Nos oito primeiros meses de 2021, foram recebidos mais de 2 milhões de tuítes desse tipo, contra os cerca de 1,5 milhão entre maio e dezembro de 2020 — um aumento de 48,5%.

Depois do processo de triagem, foram enviadas mais de 13 mil mensagens de orientação para quem tinha a conta na rede social aberta (mais do que o dobro das 5 653 mensagens de 2020).

Os internautas que deram retorno às mensagens recebidas também aumentaram na comparação com o ano passado. De janeiro a agosto de 2021, foram 1362 pessoas contra 355 entre maio e dezembro de 2020, um salto de 284%.

A tecnologia permite desenvolver um trabalho de prevenção ao suicídio bastante assertivo, ágil e humanizado

Acredito que é muito importante desabafarmos e falarmos sobre um tema tabu, ainda cercado de tanto preconceito.

APOIAMOS MUTIRÕES EM COMUNIDADES CARENTES QUE LEVAM CONSULTAS E DOAÇÕES A MILHARES DE PESSOAS EM SITUAÇÃO DE VULNERABILIDADE

Outro projeto do qual tenho orgulho são os mutirões de saúde, em comunidades carentes. Como os de oftalmologia, nos quais as crianças já saem com óculos doados por parceiros.

Há também outros mutirões em demais áreas da saúde e da educação. Eles geram grande impacto social por meio dos atendimentos e do conhecimento difundido.

Em nove anos de existência, o Instituto Horas da Vida hoje está presente em 13 estados e no Distrito Federal e já viabilizou mais de 500 mil benefícios entre consultas, exames, doações de óculos, medicamentos, cestas básicas e EPIs, impactando a vida de mais de 70 mil pessoas.

NÃO ME TORNEI MÉDICO. MAS HOJE SEI QUE ENCONTREI O MEU PROPÓSITO EMPREENDENDO NA ÁREA DA SAÚDE

O trabalho do instituto cresceu e hoje é complementado pela Filóo Saúde, plataforma/marketplace de saúde que criamos para escalar o impacto social do Horas da Vida.

A Filóo possibilita acesso à saúde de qualidade por preços que cabem no bolso. Ou seja: avançamos sobre mais um público que demanda por esse tipo de serviço.

Também vem crescendo o número de apoiadores dessas iniciativas. Entre eles, há gente do mercado financeiro (alguns, inclusive, com quem trabalhei e que já praticavam filantropia). Além, é claro, da minha família e dos amigos — todos felizmente já convencidos sobre a lucidez da minha guinada de vida.

Hoje, posso afirmar com segurança: a minha missão é levar saúde para o maior número possível de pessoas — no Brasil e lá fora.

É isso que dá sentido à minha vida. E é isso que eu posso chamar de concretização do sonho daquele menino que queria ser médico para ajudar os outros.

 

Rubem Ariano é fundador e conselheiro do Instituto Horas da Vida e fundador e CEO da healthtech Filóo Saúde.

 

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