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Foi-se o tempo em que cerveja sem álcool era sinônimo de um líquido chocho, sem aroma e com gosto de “chá de aveia adocicado”. Também ficou para trás a ideia de que um brinde só faz sentido quando há álcool no copo ou na taça. Em meio a um movimento que propõe uma relação mais consciente com a bebida, novas formas de celebrar e socializar começaram a ganhar espaço.
É nesse contexto que nasceu a LUCI, marca de cerveja artesanal sem álcool que aposta em sabor, valor nutricional e brasilidade. À frente do negócio está o advogado Danniel Rodrigues, 36, natural de Campinas (SP), que transformou a decisão pessoal de reduzir o consumo de álcool em um empreendimento. O conceito, por sinal, parece fazer bastante sentido aqui no Brasil, o segundo maior consumidor de cerveja sem álcool, atrás apenas da Alemanha.
Em dezembro passado, a LUCI completou um ano com seis rótulos, que podem ser encontrados no site da marca ou em cerca de 70 pontos de venda, concentrados em São Paulo, mas também disponíveis em Campinas (SP), São José dos Campos (SP), Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba.
Antes de criar a LUCI, Danniel atuou por oito anos como sócio de um escritório de advocacia em São Paulo, onde trabalhava com propriedade intelectual.
“Eu tinha muita proximidade com setores de marketing, criação e P&D das empresas. E isso já me despertava o interesse de estar sentado do outro lado da mesa”
Durante a pandemia, esse desejo de mudança se intensificou, assim como sua dedicação à corrida. “Sou uma pessoa muito ansiosa e inquieta, então dava umas escapadas para correr sozinho e extravasar a energia naquela época em que não tinha ninguém circulando.” Em um desses treinos, completou 21 km, metade de uma maratona, marco que o incentivou a se preparar para um evento do tipo.
O objetivo se concretizou em 2022, quando viajou à Alemanha com o marido, Thiago Guarnieri, para correr a maratona de Berlim. Dois meses antes da prova, o casal decidiu cortar o álcool da rotina para melhorar a performance.
“Em Berlim, quando fomos fazer compras, pois estávamos em um Airbnb, nos surpreendemos com a quantidade de rótulos sem álcool nos supermercados locais”
Outra surpresa veio durante a maratona: “A Erdinger, marca de cerveja sem álcool e uma das patrocinadoras do evento, entregou copos da bebida nos quilômetros finais e ofereceu um open bar depois da prova”
A ação de marketing faz sentido levando em conta que, de acordo com pesquisas científicas mencionadas pelo empreendedor, a bebida é apontada como uma opção de pós-treino por conter bons carboidratos, ação antioxidante (do lúpulo) e servir para hidratar. Ainda na Alemanha, o casal participou da Oktoberfest consumindo apenas opções sem álcool e achou incrível o número de rótulos à disposição.
De volta ao Brasil, Danniel passou a refletir sobre a ausência de cervejas artesanais sem álcool no país. Ele e Thiago já haviam tentado empreender antes, testando um MVP de marketplace de produtos orgânicos, mas o projeto não avançou.
Em 2023, com mais clareza e propósito de seus ideais, Danniel começou a se preparar para deixar o escritório enquanto estruturava o plano de negócios da LUCI. “Nesse meio tempo, conheci o case da Athletic Brewing Company, primeira marca de cervejas sem álcool dos EUA, que superou a Ambev nessa área. E mais uma vez pensei que isso poderia dar certo por aqui”, diz.
Um amigo de Danniel embarcou na empreitada, mas logo acabou saindo e, em 2024, o advogado deixou, de fato, o escritório para se dedicar integralmente à marca, assumindo desde o desenvolvimento da identidade até os processos técnicos ligados à produção da cerveja. Thiago seguiu como investidor-anjo. Para tirar a ideia do papel, Danniel entendeu que precisava de um(a) mestre cervejeiro(a).
“A gente fez questão de ter uma cervejeira mulher. A LUCI tem uma questão de diversidade muito forte, porque o Thiago é consultor nessa área, ajuda a trazer esse olhar que sempre esteve nos princípios da empresa”
No segundo semestre de 2024, Danniel chegou a Bárbara Mörtl, mestre cervejeira que se tornou sócia da LUCI.
Bárbara foi fundamental para a LUCI refinar seu propósito ligado à noção de brasilidade. Segundo Danniel:
“Ela nos ajudou a organizar a nossa proposta de enaltecer a biodiversidade local, uma sementinha que já vinha do nosso projeto de marketplace de orgânicos”
No lançamento, a marca apresentou três rótulos. Uma delas é a Hop Lager, com notas cítricas e tropicais dos lúpulos orgânicos e biodinâmicos da Fazenda Felicidade, localizada em Bom retiro, na Serra Catarinense. “É como se fosse uma pilsen, o estilo mais consumido no Brasil”, explica Danniel, que fez um curso de cervejas para dialogar com mais propriedade nas negociações com o varejo. O rótulo leva vitaminas A e D e foi premiado no NaturalTech Awards 2025.
A Pilsen com Café aposta nas notas marcantes de caramelo e frutas amarelas do café orgânico, usando a variedade Arara do sítio Boa, na região de Campinas, e é fabricada em parceria com a microtorrefação D.Origem, também campineira. Já a primeira opção da marca de Catharina Sour — estilo brasileiro de cerveja reconhecido internacionalmente — utiliza jabuticaba e cambuci, com as frutas compradas do Sítio do Bello, em Paraibuna, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo, e lúpulo da Éden Hops, de Sorocaba (SP). O rótulo foi vice no Concurso Brasileiro de Cervejas, realizado em Blumenau (SC) em 2025.

Os seis rótulos de cerveja sem álcool da LUCI.
Depois veio a Catharina Sour Maracuvaia, que combina uvaia e maracujá (também comprados em Paraibuna) e conquistou medalha de ouro no World Beer Awards e bronze na Copa Sul-Americana de Cervejas, ambas premiações de 2025. E ainda na esteira de lançamentos surgiu a Pilsen Caipira, com limão-cravo (ou caipira) do sítio da família de Bárbara (em São José dos Campos, SP) e a IPA Lucinada, puro malte que leva em sua formulação o pacová, especiaria da Mata Atlântica.
“Esse rótulo é inspirado nas escolas de cerveja belgas, mais condimentadas. Para trazer esse sabor, a Bárbara sugeriu o pacová, conhecido como o cardamomo brasileiro”
Quem ajudou a equipe a selecionar e se conectar com produtores desse insumo em Paraty (RJ) foi o etnobotânico Jorge Forager. Todas as cervejas têm teor reduzido de glúten e são baixas em calorias. As latas custam entre R$ 16,90 e R$ 18,90.
Atualmente, quatro rótulos estão esgotados porque a LUCI trabalha com produções menores para garantir o frescor, já que o prazo de validade é de um ano. Todos serão relançados na primeira semana de fevereiro, com destaque na lata e na comunicação para a origem dos insumos, que são agroflorestais, agroecológicos e orgânicos.
“Vamos destacar quem é o pequeno produtor dos ingredientes da bebida que a pessoa está comprando”
Pensadas com uma proposta gastronômica, as cervejas da LUCI buscam ainda harmonizar com diferentes pratos. “A Hop Lager combina bem com hambúrgueres, pratos estruturados com mais carne. Eu sou vegetariano, então, para mim cai bem com um hambúrguer vegetal.”
Já a Pilsen com Café, diz o empreendedor, funcionam bem com sobremesas, assim como as do tipo Sour, que também combinam com pratos mais gordurosos. Enquanto a Caipira é definida como a cerveja de boteco, ideal para tomar com petiscos.
Mais do que uma alternativa ao álcool, a LUCI se posiciona como uma marca para um público que busca o bem-estar. Segundo Danniel, o maior volume de compras vem de pessoas acima dos 35 anos, que não necessariamente deixaram de beber, mas querem fazer escolhas equilibradas.
Essa visão se conecta diretamente ao próprio nome da marca. “A gente se apoiou nesse conceito de lucidez, que tem um lado filosófico muito forte”, afirma o fundador. Para ele, lucidez não é sinônimo de restrição, mas de presença; e cabe a cada um entender o que isso significa, seja fazer um esporte, ler um livro ou cozinhar com a família. Essa proposta também orienta a comunicação da LUCI, que evita o discurso moralizante.
“A gente não tem como objetivo ficar demonizando algo, mas convidar as pessoas para se conhecerem melhor a partir dessa diminuição ou pausa no consumo de álcool”
Depois do Janeiro Seco, denominação criada para conscientizar sobre o tema após as festas de fim de ano e marco utilizado nas campanhas de conscientização da LUCI, chega fevereiro e com ele o Carnaval, período tradicionalmente associado ao excesso. Danniel deixa um convite-reflexão:
“Queremos convidar as pessoas a curtirem o Carnaval sem a dependência do álcool, entendendo que a celebração e a alegria, elas são suas, não é algo que você precisa tomar para acontecer”.
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