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Eles criaram um coworking na garagem de casa. Hoje, estão em três prédios na Avenida Paulista, dois em Campinas e um imóvel histórico em Lisboa

Dani Rosolen - 9 mar 2026 Daniel e Fanny Moral, os fundadores do Eureka Coworking.
Daniel e Fanny Moral, os fundadores do Eureka Coworking.
Dani Rosolen - 9 mar 2026
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Em 2014, a garagem da casa de Daniel e Fanny Moral, na zona Sul de São Paulo, oferecia uma mesa longa para doze pessoas e três salinhas de reunião. Em pouco tempo, os primeiros clientes chegaram para trabalhar num espaço que a maioria das pessoas reserva para o carro. 

Era o início do Eureka Coworking, uma aposta do casal num modelo pouco conhecido no Brasil naquela época.

Hoje, o negócio ocupa diferentes andares em três prédios da Avenida Paulista, dois em Campinas (SP) e um imóvel histórico em Lisboa, somando faturamento anual de cerca de 12 milhões de reais, segundo os fundadores.

QUANDO NEM A ESTABILIDADE DO CLT SEGURA A VEIA EMPREENDEDORA

Em 2013, o primeiro filho de Daniel e Fanny estava prestes a completar um ano. O casal, então, começou a repensar a rotina de trabalho. Ambos atuavam no Itaú, onde se conheceram. Ele, na área de tecnologia, e ela, na de finanças. Daniel, 44, relembra:

“Naquele momento, entendi que não dava mais para viver na rotina louca de banco… Por ser da área de tecnologia, ficava conectado quase 24 horas por dia. Resolvi pedir demissão e retomar os meus projetos. Um mês depois, a Fanny também pediu as contas”

Em 1999, Daniel já tinha criado um projeto paralelo, o site chacaraklabin.com.br, que trazia notícias de cidadania e cultura relacionadas ao bairro da zona Sul de São Paulo, onde a família vivia. Mas por conta do emprego no banco, desde 2001 a plataforma estava “adormecida”.

O empreendedor retomou o site, que gerava renda por meio de anúncios de empresas da região, e ainda criou posteriormente uma revista física, a CHK. Na mesma época, o irmão o chamou para cofundar o Bike Tour SP, que realiza passeios culturais de bike pela cidade (já falamos sobre o negócio aqui). Enquanto isso, Fanny decidiu criar uma marca de decoração, a Decorart Home. 

ELES PRECISAVAM DE UM ESPAÇO PARA SEUS PROJETOS. ASSIM, NASCEU O EUREKA COWORKING

No fundo da garagem de uma casa de dois andares onde viviam na rua Ernesto de Oliveira, Daniel já tinha criado uma salinha para ser a sede do site da Chácara Klabin lá em 1999. Ele resolveu retomar o “escritório” e criou mais uma outra sala para operar a parte administrativa do Bike Tour e para Fanny gerir seu negócio de decoração.

Até que surgiu a ideia de abrir a garagem, capaz de abrigar dez carros, para outras pessoas do bairro. O conceito de coworking ainda engatinhava no Brasil, mas eles decidiram apostar o dinheiro do FGTS no projeto.

Para entender o mercado, viajaram a Nova York e visitaram o modelo da WeWork. De volta ao Brasil, entraram em ação para criar o Eureka:

“Reformamos a garagem inteira, criando uma sala com 12 posições de trabalho compartilhadas. Também construímos uma sala de reunião, reformamos as outras duas que já existiam e um banheiro que já havia ali, e criamos mais um. Além disso, fechamos o acesso para a nossa casa, criando uma entrada independente”

Antes mesmo de terminar a pintura, surgiram os primeiros interessados. “Os moradores do prédio da frente vieram pedir uma sala. A gente ainda não tinha nem precificado direito as locações, mas foi lá no nosso espaço que eles começaram as reuniões para criar o que viria a ser o Ryô, restaurante japonês com duas estrelas Michelin.”

DA GARAGEM AO IMÓVEL INTEIRO: ELES PRECISARAM DEIXAR A CASA ONDE MORAVAM PARA DAR ESPAÇO AO NEGÓCIO

Em pouco tempo, a antiga garagem foi completamente ocupada.

“O próximo passo foi subir para o primeiro andar da casa. Transformamos a sala de estar em sala de reunião. A cozinha e a área de serviço viraram salas privativas e o quintal, uma área de convivência”

A família se apertou no andar de cima, onde ficou por pouco tempo. “O meu filho, por exemplo, não podia pular, porque estavam rolando reuniões no andar de baixo.” 

Eles, então, se mudaram para um prédio na região e transformaram a casa inteira no coworking. Logo integraram também o imóvel vizinho. Já eram quase 100 posições e os primeiros projetos sob medida para clientes maiores, como a InEvent.

COM A ENTRADA DE UM NOVO SÓCIO, O EUREKA FOI PARA A AVENIDA PAULISTA 

Em 2018, sem espaço para crescer na Chácara Klabin, veio a expansão para a Avenida Paulista. O casal recebeu uma proposta de um grupo de sete sócios, mas acabou fechando parceria com Rodolfo Henrique Fischer, o Rudi.

Ex-vice-presidente do Itaú BBA, Rudi já era conhecido do casal por conta do projeto ALPAPATO (Anna Laura Parques para Todos), que cria parques acessíveis onde crianças com ou sem deficiência podem brincar juntas. Daniel ajudara a desenvolver, como voluntário, o site do projeto, do qual cuida da parte de tecnologia até hoje.

Quando surgiu a possibilidade da expansão, ele resolveu pedir ajuda a Rudi para analisar o projeto. O empreendedor social gostou da ideia e se ofereceu para entrar como sócio-investidor. O casal lapidou o plano de negócio por seis meses e, então, o trio inaugurou a nova unidade no número 2439 da Avenida Paulista.

“Conseguimos esse prédio em frente à Praça do Ciclista. A localização se encaixava com tudo o que acreditávamos, pois já éramos o coworking da ciclomobilidade”

O Eureka ocupou, a princípio, o quinto e o décimo quinto andar – o rooftop. “Fizemos um projeto especial para essa área aberta, montando uma ciclovia, piso com o mapa do estado de São Paulo, grafite, trazendo esse conceito do Eureka como uma extensão da cidade.”

Um dos espaços de trabalho do coworking na Avenida Paulista.

Logo, o quinto andar inteiro foi ocupado completamente pela empresa Tembici. Então o casal alugou o quarto andar, para abrigar a Sympla. Com novas demandas chegando, pouco a pouco o Eureka estava também no terceiro e no décimo primeiro andares, totalizando uma área de quase 3 mil metros quadrados.

CAMPINAS E LISBOA ENTRARAM NA ROTA, MAS NO MEIO DO CAMINHO VEIO A PANDEMIA 

Quando, em 2019, clientes grandes como QuintoAndar e Sympla expandiram suas operações para Campinas (SP), o Eureka foi junto, abrindo duas unidades no bairro Cambuí, em prédios diferentes, que totalizam cerca de 700 metros quadrados.

No fim daquele ano, surgiu a oportunidade de levar o modelo para Lisboa, ocupando um prédio histórico, o Palácio Rosa, imóvel de mil metros quadrados comprado pelo sócio Rudi. O casal embarcou para Portugal para conhecer o espaço e na volta tomou um baque:

“Lá estávamos vendo no jornal sobre a Covid, só que parecia algo distante, na China, Mas quando desembarcamos no Brasil, em 2020, os agentes da Polícia Federal já estavam usando máscaras”

A crise sanitária afetou profundamente o negócio. “Foi destruidor. Tivemos um cancelamento após o outro.”

Essa “bomba” só não explodiu porque dois dos maiores clientes, justamente a Sympla e a CVC, que também atuam em áreas afetadas pela pandemia, não cancelaram o contrato naquele momento (a empresa de turismo até hoje é residente do coworking). “Conseguimos passar por isso, porque sempre tivemos um bom planejamento financeiro.”

APÓS UM PERÍODO DE CONTENÇÃO, ELES VOLTARAM A CRESCER

Com a diminuição das restrições e a retomada do trabalho no modelo híbrido, pouco a pouco, os espaços do Eureka em todas as unidades foram sendo ocupados.

Em 2021, a unidade da Chácara Klabin, onde tudo começou, foi vendida para uma construtora. Os andares na Paulista, por sua vez, encheram-se de novo. E em 2024, o Eureka ocupou mais dois pisos no número 688. 

“Pegamos dois andares, cada um de cerca de 500 metros quadrados, sendo um deles, o rooftop, que é o nosso conceito de sempre ter uma área ao ar livre”

No começo de 2026, foi preciso alugar outro espaço, desta vez no número 460 (mesmo prédio do Centro Cultural Coreano no Brasil), para abrigar um time de 100 pessoas da empresa Quinto Andar.

Palácio Rosa, imóvel que abriga a filial do Eureka em Lisboa.

Em Lisboa, o coworking também começou a ganhar tração, com dez empresas instaladas e espaço para crescer. “Estamos diminuindo bastante a vacância”, diz Daniel, que junto com Fanny, administra o empreendimento à distância, mas viaja a Lisboa três vezes ao ano para acompanhar mais de perto o negócio. 

O FOCO NO SOCIAL FAZ PARTE DO DNA DO NEGÓCIO

Desde os tempos na Chácara Klabin, o Eureka mantém projetos sociais dentro de casa.

“No começo, pensamos em criar um coworking só para ONGs, mas entendemos que fazia mais sentido abrir espaço para esses projetos conviverem e fazerem negócios e networking com empresas tradicionais”

As organizações usam salas e espaço para eventos gratuitamente. “Entre os projetos sociais com a gente desde o começo está o Instituto Recomeçar, inicitiva ligada a Gerando Falcões que ajuda a inserir egressos do sistema prisional no mercado de trabalho”, diz Daniel.

“E como temos essa conexão com a mobilidade também apoiamos várias iniciativas nessa área, como o Ciclocidade, o Cidade a Pé, o Instituto Aromeiazero, o Pedale-se e o Cheguei de Bike.”

TRABALHO HÍBRIDO OU PRESENCIAL? INDEPENDENTE DO MODELO, ELE APOSTA QUE OS COWORKINGS VÃO PROSPERAR 

Se no começo o Eureka era basicamente composto por uma rede de vizinhos dividindo uma garagem, hoje o público é bem mais diverso. Inclui desde freelancers a profissionais em viagem que precisa de internet estável e um lugar estruturado para trabalhar.

Vira e mexe, o coworking realiza ações para que novas pessoas possam conhecer o espaço. Na época dos apagões de 2025, por exemplo, ofereceram um day use gratuito para quem trabalhava em casa e estava sem luz.

“O grosso dos nossos clientes, no entanto, são empresas grandes, com dezenas e às vezes centenas de pessoas rodando no modelo híbrido”, diz Daniel.

Mesmo que no futuro as empresas optem por voltar 100% ao presencial (o Nubank, por exemplo, já fez esse movimento), ele se mostra otimista:

“Para mim, é um mercado que está aquecido e só tende a crescer. Muitas empresas devolveram lajes próprias durante a pandemia e perceberam que não fazia sentido voltar a alugá-las” 

E complementa: “Para elas é muito mais fácil chegar num espaço pronto, com infraestrutura, sem precisar se preocupar com a parte burocrática. E se colocar na ponta do lápis, o nosso modelo ainda representa uma economia”.

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