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Quando um tratamento de câncer termina, junto com o alívio surge uma preocupação: a doença pode voltar?
A previsão da chamada recidiva é um grande desafio para a oncologia e o foco da OncoAI, deep tech que usa inteligência artificial para antecipar esse risco antes que os sintomas reapareçam, permitindo tomadas de decisões clínicas mais rápidas e assertivas.
A ideia do negócio nasceu da pesquisa de Mariana Zuliani, 34. Doutora em Ciências da Saúde pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês, ela se juntou ao engenheiro de IA, Alexandre Ray, para fundar a startup em 2023.
Por enquanto, o trabalho da OncoAI se concentra no combate ao câncer de mama. Em média, segundo a empreendedora, a startup recebe, toda semana, o registro de 40 pacientes em sua plataforma.
Natural de Cordeirópolis, no interior de São Paulo, Mariana cresceu em Limeira e cursou física biomolecular na USP, em São Paulo.
Durante na faculdade, ela se envolveu com iniciativas de empresa júnior, estimulada por um sentimento persistente:
“Sempre quis ser cientista, mas à medida que comecei a me envolver com os projetos, percebi que desejava trabalhar com soluções que pudessem ser aplicadas a curto prazo”
No mestrado, Mariana deu sequência a essa pegada empreendedora ao se juntar a outros colegas da universidade para criar uma fintech de predição do impacto de notícias na precificação de ações: a Brazilian Investment Technology (BIT), que operou por sete anos.
Na mesma época, ela começou a trabalhar como professora de Cálculo na Universidade Mackenzie e, depois, migrou para a disciplina de IA (Mariana é pós-graduada em Data Science).
O embrião da OncoAI surgiu na época do doutorado. Mariana começou a estudar a predição de recorrência de câncer de bexiga com IA, focando depois em projetos de câncer de mama e de pulmão.
Durante a pesquisa, ela entendeu que a ideia poderia virar um produto:
“Decidi então inscrever o projeto em um edital de fomento para o desenvolvimento e aceleração de startups”
O edital em questão era o Projeto IA2 (Inteligência Artificial e Tecnologias Associadas), iniciativa do CNPq em parceria com o MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) e patrocinado pela Softex, que aportou cerca de 1 milhão de reais nas selecionadas.
Com a aprovação, Mariana chamou Alexandre, que conhecia da faculdade por terem feito algumas matérias na mesma turma (e com quem já havia trabalhado na fintech), para tocarem juntos a OncoAI.
Além de Alexandre, Mariana juntou um time de parceiros da área de negócios e de medicina para ajudar a criar a plataforma de IA.
A ferramenta foi treinada com 30 anos de dados históricos de prontuários do Instituto do Câncer Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho, de São Paulo, analisando variáveis de 3 100 casos de câncer de mama e 900 de câncer de pulmão (no momento, reforçando, a tecnologia da startup foca apenas no primeiro tipo).
“Cada prontuário tinha duas mil páginas e a gente precisava extrair deles informações sobre variáveis clínicas dos paciente, sempre com o apoio de médicos do próprio hospital”
Esse histórico balizou o modelo preditivo da startup. A partir da inserção de exames clínicos e de imagem em seu sistema, a OncoAI permite que hospitais e médicos vislumbrem o risco de um retorno da doença. “A gente já consegue estimar a recidiva no primeiro dia do diagnóstico.”
Segundo Mariana, a forma como os médicos vão compartilhar os resultados com os pacientes é objeto também de cuidado da empresa. “Esses dados podem ser apresentados como um alerta ou em porcentagem.”
O Instituto do Câncer Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho utiliza o sistema da OncoAI desde o fim de 2025. Agora, o Hospital da Faculdade de Medicina de Botucatu (SP) está começando a implementar o uso da ferramenta.
No B2B, além de hospitais, a startup pretende buscar clientes também entre planos de saúde e farmacêuticas. Há ainda uma frente B2C: no aplicativo OncoCare, pacientes oncológicos podem inserir os exames, acessar um dashboard que facilita a avaliação do médico e tirar dúvidas relacionadas a questões nutricionais.
No futuro, diz Mariana, a ideia é transformar essa plataforma em uma rede social, na qual os pacientes possam interagir entre si.
Hoje, segundo a empreendedora, o grau de acurácia da ferramenta da OncoAI é de 82%. “Esse índice está bastante acima quando a gente avalia, por exemplo, a literatura médica internacional.”
Os dados, ela diz, não ajudam apenas a trazer um prognóstico. Seus impactos vão além:
“Alguns pacientes relataram que se sentem vistos e cuidados ao saber que há uma tecnologia de ponta para monitorar seu quadro. Acontece muito de as pessoas terminarem o tratamento e não voltarem mais ao hospital, mas quando recebem uma avaliação quantitativa sobre o risco, começam a se cuidar melhor”
Mariana também comenta as vantagens para o sistema de saúde e para os médicos: “A gente nunca fala em substituição do profissional, é uma ferramenta de apoio no consultório”, diz. E prossegue:
“Os diretores clínicos dos hospitais apontam diminuição dos ciclos de quimioterapia, o que reduz o sofrimento do paciente e também custos financeiros”
De acordo com a empreendedora, dados dos planos de saúde mostram que tratar precocemente um paciente com recorrência gera dez vezes menos custo para o sistema de saúde.
Atualmente, a OncoAI oferece sua tecnologia para os dois hospitais citados em um modelo de parceria. Com o uso nestes ambientes, a startup faz a prova de conceito do serviço enquanto coleta evidências e aguarda a aprovação da Anvisa para poder, de fato, vender sua solução.
Mesmo sem monetizar, a OncoAI já vem recebendo reconhecimento. Um exemplo é a seleção, em julho passado, para participar do programa J-WINGS Empreende Mulher, uma iniciativa da Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA), que levou os fundadores da startup, segunda colocada entre 140 negócios, para uma imersão em Tóquio.
Em fevereiro deste ano, a OncoAI foi anunciada como uma das dez finalistas do Aurora Tech Award 2026, premiação global da inDrive voltada a mulheres fundadoras de empresas de tecnologia. A startup foi selecionada entre 3 400 inscritas de 127 países. Mariana afirma:
“Quando soube que ficamos entre as dez finalistas, chorei mesmo, porque as pessoas não têm ideia do desafio que é transformar uma pesquisa em negócio. É algo que exige muita paciência”
A fase final da premiação vai ocorrer entre 4 a 8 de maio, em Santiago, no Chile, e Mariana estará lá. O prêmio para a empresa vencedora será de 500 mil dólares.
Outro motivo de orgulho recente foi a seleção para um programa de incubação da ApexBrasil e do Sebrae em Lisboa.
Por três meses, a startup poderá validar suas soluções de inteligência artificial voltadas à oncologia no mercado português e, consequentemente, em toda a União Europeia. “O Alexandre, cofundador da OncoAI, já está para fazer os primeiros contatos e reuniões”, diz Mariana.
Embora ainda existam muitos desafios no presente, a fundadora já traça planos futuros:
“Nossa ideia é expandir aqui no Brasil, de São Paulo para outras regiões, sempre trazendo a melhoria do produto e não só usando dados clínicos, que é o que temos hoje em dia, mas também, futuramente, dados genômicos.”
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