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Estamos hoje reunidos e pensando em tudo o que já vivemos nesses oito anos de amizade. Juntos, eu e Beatriz Marcelino fidelizamos em nossos corações um propósito que orienta toda a nossa energia: mudar o mundo das pessoas, dando oportunidades de inclusão e superação e transformando suas realidades com educação e dignidade.
Nos conhecemos de forma bem improvável numa festa de bairro, em 2011, em São Bernardo, no ABC Paulista. Havia marcado com alguns amigos e todos faltaram. A Bia, na época, com 14 anos (dois mais nova do que eu), me chamou para não ficar sozinho no evento e assim começamos a nos falar e nunca mais paramos.
Acho que quando as coisas são para acontecer, não existe força que possa impedir de se concretizar e em pouco tempo nos tornamos irmãos.
Sentamos um dia no chão e planejamos o que queríamos ser quando crescer. Éramos jovens e dentre nosso desejos estava abrir uma organização social.
A paixão da Bia pulsava pela África desde pequena e ela tinha determinação suficiente, mesmo nova, para olhar nos olhos de qualquer pessoa e falar que um dia trabalharia naquele lugar
Se eu pudesse expressar em uma palavra aquilo que sinto por essa conexão é gratidão. Gratidão por ter permitido a nossa aproximação e também por nunca ter desistido de acreditar nos sonhos que ela me fez sonhar junto.
Aquela conversa no chão era apenas o início de uma caminhada que nos faria amadurecer rapidamente e explica a maneira de nos relacionarmos com tudo, revelando nosso sentido de viver, mesmo com pouca idade.
Um dia estávamos juntos e ela disse: “Para que esperar, vamos abrir a REVIVA!” Não poderia dizer não para algo que alegrava todas as nossas conversas e que aquecia o meu coração. Se juntos a gente chega mais longe, a minha única resposta só poderia ser o sim mais lindo da minha vida.
Juntamos todos os amigos mais próximos, Camila, Alexandre e Zizi (os pais e a avó da Bia, respectivamente), que foram nossas bases e acreditaram naquilo que era só uma ideia.
Foram meses levando marmita para moradores de rua e participando de atividades com esse público, até que, em 2013, Bia fez sua primeira viagem para a África sozinha com uma equipe que realiza esse tipo de trabalho.
A cidade era Nampula, em Moçambique, e foi um dos momentos mais difíceis para nós: fizemos rifas, a Bia vendeu tortas (ela tem um talento especial com doces!), produzimos camisetas para tornar esse sonho realidade.
Deu tudo certo. No embarque, apenas uma certeza: nas malas que ela levaria, mudaria a vida de todos nós para sempre. Das malas que voltaram vazias, pois ela deixou tudo lá, ela relembra:
“Deixei minhas mazelas, a superficialidade que me cobriu. Eu me encontrei na miséria mais profunda, descobri que o meu contentamento está no viver simples e comunitário. Nós precisávamos trabalhar em Moçambique e aquelas pessoas precisavam de alguém que descartasse a dó, mas acreditasse que o afeto é revolucionário, que somos criadores de oportunidade para a autonomia e transformação.”
Ela não poderia ignorar o que viveu e nem nós. Foi assim que em 2014 aconteceu a primeira expedição de ajuda humanitária da REVIVA, que através de um financiamento coletivo tornou-se realidade. Neste mesmo ano ocorreu a sua abertura oficial como organização sem fins lucrativos.
Durante essa visita, fizemos uma grande pesquisa de campo com intuito de entender mais profundamente em que área poderíamos atuar e qual era a maior necessidade. Achamos, então, nosso foco: água e educação.
Jair, um companheiro de Bia daquela primeira viagem, comentou sobre um equipamento de tratamento de água que fazia tudo através da energia solar e que o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) havia produzido com o pesquisador responsável Roland Vetter.
Era a chance perfeita que tínhamos para ajudar a resolver uma dos problemas que mais matava em Moçambique: a água contaminada. Não tínhamos dinheiro, eu estava desempregado, na minha conta tinha exatos 142 reais e a empresa da família da Bia tinha falido. Como poderíamos ir até a Amazônia conhecer esse equipamento?
Eu nunca fui de aceitar as condições em que estamos, pois acredito que tudo muda o tempo todo e a Bia tem o mesmo perfil — até mais intenso que o meu. Em uma sexta-feira nas minhas pesquisas esperançosas por passagens, encontrei uma promoção inacreditável. Parece que o universo preparou isso justamente para nós: Manaus ida e volta para duas pessoas por 600 reais. Liguei para o meu pai, pedi o cartão emprestado e parcelamos as passagens em dez vezes.
Viajamos e fomos até o INPA conhecer o equipamento que mudaria nossas vidas para sempre. Ficamos em um hostel que custava 19 reais a diária com café da manhã (imaginem um lugar com esse preço em Manaus!). Nossa motivação era tão grande que nem ligamos para as condições e o café do hostel serviu como nosso almoço durante quatro dias (sim, nós levávamos o café para comer no almoço).
Sem dinheiro para o ônibus, andamos 21 quilômetros para chegar e voltar da empresa que produzia a tal máquina e saímos de lá muito decepcionados, pois não tínhamos os 20 mil reais que eles pediram
O que parecia ser a viagem do “não” foi o que viabilizou a instalação do primeiro equipamento brasileiro fora do país. O Roland ligou dias depois do nosso retorno e disse que nos venderia cada um por 5 mil reais.
A primeira empresa que nos chamou para palestrar foi a Barry Callebaut, que nos encontrou por meio de uma pesquisa no Google e entrou em contato com um convite para participarmos de uma sabatina sobre a importância da água. O acesso a essa organização e o relacionamento que criamos lá dentro nos deram a oportunidade de conseguirmos comprar dois purificadores de água para Moçambique. Bia conta como voltou depois a Manaus com a ajuda de seus familiares:
“Um dia e meio depois da minha chegada, recebi uma mensagem da Barry de que um incêndio fez com que perdessem tudo na fábrica da Bahia e com isso teriam que cortar o patrocínio dos purificadores. Minha experiência em campo humanitário era pouca, mas a criação que os meus pais me deram sempre foi de compreender e tolerar. Uma paz me sobreveio. Entrei na sala do Roland em silêncio, nem sabia por onde começar, mas não precisei. Ele olhou nos meus olhos e disse: ‘Não sei o porquê, mas estou sentindo que preciso te entregar os purificadores sem custo algum’. Impressionante! Voltei para São Paulo e só então contei para o Bruno e todo mundo que no fim paguei um excesso de bagagem de 73 reais.”
Na segunda edição da Expedição Humanitária da REVIVA, conseguimos duas pessoas inscritas e foi ótimo, pois ocorreu a instalação do equipamento de tratamento de água em 2015, mesmo ano em que o governo de Moçambique concedeu 50 mil metros de terras para que a gente realizasse nosso trabalho.

Crianças da escola criada por Bruno e Bia em Moçambique.
Tínhamos muito pela frente e na terceira Expedição de Ajuda Humanitária, já com um grupo de 14 pessoas e muitos voluntários que acreditavam no nosso propósito, Regina e sua família patrocinaram a indenização das pessoas que plantavam nessas terras cedidas. (Regina é uma das nossas primeiras voluntárias; em Moçambique, é comum as pessoas serem donas de pés de caju, então para começar a construção do complexo da REVIVA achamos que era justo indenizá-las. Assim, ela e seus familiares nos doaram o dinheiro necessário).
Ser uma organização sem fins lucrativos é doloroso, pois o desgaste de conseguir recursos é uma guerra diária para não perdermos a esperança.
Então começamos um trabalho através do LinkedIn para conseguir algumas reuniões que fossem importantes para desenvolver a REVIVA.
Em alguns meses, sentamos com consulados europeus e norte-americanos, e falamos com diversos CEOS das maiores empresas do Brasil, dentre eles o Luis Rezende, da Volvo Cars Brasil, que nos deu outra percepção sobre a vida executiva que nos motivou ainda mais a seguir nossa caminhada além da África.
A Volvo patrocinou a REVIVA em uma expedição criada para levar ajuda humanitária para Mariana, após o rompimento da barragem [da Samarco, em novembro de 2015], e trabalhar com eles nos trouxe amadurecimento e responsabilidades. Saímos em expedição e rodamos nosso primeiro documentário, o Expedição Amariana, com uma produtora. O filme relata a destruição causada pelo crime ambiental e confronta histórias de pessoas que foram diretamente atingidas.
No ano seguinte, 2017, em nossas tentativa de independência financeira e de seguir ajudando as vítimas de Mariana, criamos o Reviva Festival, um festival de música autoral em São Bernardo.
Foram mais de 1 milhão de pessoas alcançadas com a divulgação pela Rádio 89, jornal Metrô de SP e emissoras de TV. Entre os artistas que iriam cantar estavam Jão, Ana Cañas e Rodrigo Alarcon. No sábado de 1º de julho, o termômetro marcava 14 graus e havia pancadas de chuva, o que fez com que muita gente não saísse de casa. Tivemos que pegar um empréstimo no nome da vó Zizi para cobrir os prejuízos.
Parece que quando a gente achava que as coisas iam acontecer, tudo dava errado. Lidar com expectativas e frustrações era o que a vida estava nos ensinando
Naquele mesmo ano, um parceiro (R.Rubio, montadora de estandes para feiras e convenções) nos apresentou a administração do shopping Golden Square Shopping, em São Bernardo, com a intenção de vendermos em uma loja física nossas camisetas, com frases inspiracionais, e fotografias humanitárias produzidas durante as expedições. A oportunidade aumentou nosso horizonte.
As vendas desses produtos já aconteciam pelo nosso Instagram e também no Mercado Manual, projeto de apoio ao pequeno produtor que utiliza o Museu da Casa Brasileira para fomentar e fortalecer esse consumo. As meninas do Mercado Manual nos apoiaram quando tínhamos apenas três estampas de camiseta e quadros de fotografias.

Roupas da marca Voz, com tecidos africanos.
Conseguimos o espaço para vender as peças e logo veio a ideia de trazer tecidos africanos para criar modelos diferenciados e disseminar a cultura local.
Em menos de um ano, já tínhamos uma marca intitulada Voz, um espaço maior no shopping e através desse lucro conseguimos construir uma escola em Moçambique e consolidar a nossa atuação no Brasil, em Jardim Gramacho [bairro de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense], que já foi o maior lixão a céu aberto da América Latina.
Lá, com uma escola comunitária, levamos educação, água potável e refeições diárias para crianças de 3 até 6 anos. Além disso, com os adolescentes fazemos oficinas e vamos inaugurar em breve a sala de informática.
Em 2018, conseguimos abrir a Casa Reviva. Tivemos que lidar com vários “nãos” novamente, pois sem fiador era difícil abrir um espaço em Pinheiros, na zona oeste da capital paulista.
A casa, inaugurada em dezembro, é um dos locais mais aconchegantes do bairro. Funciona como um coletivo de mais de 50 marcas conscientes, de várias regiões do Brasil (todas as vendas são revertidas em água potável e educação). Além disso, serve brunchs, tem um armazém de mais de 20 segmentos de produtos de pequenos produtores e acolhe reuniões, bate-papos, oficinas, terapia, yoga e eventos. E o melhor: transpira a compaixão humana.
Bia ensinou uma coisa para todos nós: quando há o objetivo de transformar a vida das pessoas, o NÃO se torna só mais um canalizador para continuarmos lutando
Já imaginou se tivéssemos parado lá atrás, quando deu tudo errado em Manaus? Certamente não teríamos fechado o ano de 2018 com esses números: mais de 30 mil refeições, 15 mil litros de água por dia, mais de 2 200 horas de aula e cerca de 2 mil atendimentos médicos e odontológicos oferecidos em todas as nossas ações nesses quatro anos.
Não teríamos conseguido a concessão para administrar uma fábrica de processamento de mandioca do governo de Moçambique e que hoje é comandada apenas por mulheres em uma sociedade extremamente patriarcal.
Se a gente não tivesse seguido em frente, a Bia não teria o prazer de adotar, com 23 anos de idade, duas crianças que precisam demais dela.
Empreender para a gente é uma palavra distante e nós não nos familiarizamos com ela, porque viver pelo propósito é nosso estilo de vida
Empreender é criar soluções para resolver problemas que são causados por nosso próprio estilo de vida e falta de civismo. É trazer dignidade através da autonomia para todas as pessoas atendidas e assistidas por nós.
Costumo dizer que estamos apenas no começo e que a prioridade de todo mundo que trabalha com a gente não é o sucesso pessoal e sim quantas vidas e quantos mundos vamos transformar. Quantas crianças terão a oportunidade de aprender, se desenvolver, chegar na universidade e poder contar a sua história de superação.
As pessoas precisam entender o real significado da palavra “empreendedor” e começar a pensar nas deficiências do nosso sistema para corrigi-lo
Em nossas reuniões de resultados, somos bem diferentes do resto do mercado — ainda bem! A gente discute quantas crianças a mais a gente consegue colocar para estudar. Quanto a gente precisa vender para gerar mais água potável e qual meta precisamos bater para fazer as melhorias necessárias nas escolas.
As expedições humanitárias da REVIVA em Moçambique acontecem todo mês de outubro desde 2014. A próxima será dia 20 e temos inscrições abertas. Todos os anos levamos mais de 1,5 toneladas de doações para as cidades que visitamos. São em média 25 voluntários que nos ajudam a acelerar os projetos em nossas atuações.
E para finalizar, quero deixar a primeira poesia que a Bia escreveu e que está estampada em uma camiseta, um dos nossos produtos mais vendidos: “Basta ser gente para outra gente.”
Bruno Silvestre, 26, tem experiência em Marketing e Comunicação. Fundou a REVIVA e participou do processo de estruturação da marca e dos negócios que mantêm o funcionamento independente do ecossistema da organização.
Filha de nordestinos que recomeçaram a vida em São Paulo, Elis Tolosa conta sua trajetória, da busca pela estabilidade no mundo corporativo à descoberta do propósito no impacto social e ao empreendedorismo na área da saúde.
Enquanto trilhava uma carreira corporativa, Ana Flávia de Sá sentia falta de algo que não sabia nomear. Um dia, ao ver um anúncio impresso no jornal, ela decidiu pedir demissão e desbravar um novo caminho profissional no terceiro setor.
Cinco anos atrás, Aziz Camali Constantino trocou São Paulo por Ilhabela, no litoral norte paulista. Mais do que uma “fuga” da metrópole, a mudança foi uma decisão estratégica que ajudou a transformar sua visão sobre onde o futuro pode nascer.
