Empreender na Economia Criativa não é fácil. Ouvimos quatro empreendedoras que estão vencendo a batalha em meio à crise

Dani Rosolen - 30 mar 2021
Ercília de Souza (à esq.) e a filha Karina, sócias na Ercília Arte Desana.
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Novo Airão, no Amazonas, fica a cerca de 3 horas de Manaus.

É lá que, há mais de 20 anos, a artesã Ercília de Souza, representante do povo indígena Desana, vende seus brincos, braceletes e tiaras feitos com sementes, palha, fibra e outros produtos de extrativismo sustentável da Floresta Amazônica.

Embora não se visse como “empreendedora”, Ercília se descobriu como tal. Hoje, aos 48, tem até sua marca online, a Ercília Arte Desana.

O valor do artesanato, porém, ela conhece desde a infância. É forma de sustento e tradição passada de geração a geração na sua família. 

“Comecei ainda criança a fazer peças grandes, como tapetes e esteiras. Depois, passei a criar brincos, peças menores… Eu mesma desenho as peças, pensando nas sementes que tenho. Às vezes, a ideia vem em um sonho… Com meus ancestrais mostrando o que eu devo fazer”

Ercília conta que as tias ajudaram a fundar a Associação dos Artesãos de Novo Airão (AANA), na década de 1990. Por meio da associação, as vendas eram mais fáceis — havia inclusive uma loja em São Paulo que escoava a produção.

Ercília, no entanto, acabou se afastando da organização em busca de mais liberdade para criar seus produtos. E passou a vender os acessórios em casa ou em feiras do Movimento Indígena. Hoje, produz as peças com a filha Carina, 27. 

UM PROGRAMA DE ACELERAÇÃO AJUDOU A TURBINAR AS VENDAS ONLINE

Carina conta que ela e a mãe participam de grupos no WhatsApp formados por mulheres indígenas e sempre pintam avisos sobre editais e processos seletivos.

Pulseira em fibra de arumã e tucum da Ercília Arte Desana. Custa 30 reais.

Foi assim que ficaram sabendo do programa de aceleração da Diver.ssa

“Foi a primeira vez que a gente inscreveu nosso negócio, porque até então sempre tínhamos atuado no coletivo, em associações, focando nas comunidades ribeirinhas e indígenas… E já de primeira, fomos contempladas!”

Mãe e filha receberam mentorias sobre como expandir o negócio e as oficinas de artesanato que Ercília já realiza.

A empresa também recebeu um investimento-semente de 10 mil reais para criar uma loja física. Enquanto isso, as duas trabalham para potencializar as redes sociais, hoje o único canal de venda.

“Na pandemia, a gente estava sem dinheiro, os artesanatos estavam vendendo pouco… a mentoria da Diver.ssa fez a gente acordar para um novo mundo, o digital. A gente já usava as redes, mas não com as técnicas certas… Agora estou com tanta encomenda que tenho até medo de não dar conta”

Ercília já recebe pedidos de fora do Amazonas e até do Brasil, mas ainda estuda a questão do frete. Hoje, os acessórios custam a partir de 15 reais. E no futuro, ela sonha em vender, em sua própria loja, trabalhos de outros artesãos indígenas. 

“Quero fazer parcerias com as comunidades para ajudá-las a gerar renda e divulgar sua cultura.”

A TRANSLUDICA QUER LEVAR PROTAGONISMO PARA EMPREENDEDORES TRANS

A maior parte das 8 milhões de empreendedoras brasileiras montou seu negócio por necessidade.

Fernanda Custódio, sócia da Transludica.

Para algumas, porém, o que move o negócio é o propósito. Esse é o caso de Fernanda Kawani Custódio, 33, a empreendedora à frente da Transludica, que se anuncia como a primeira loja colaborativa de pessoas trans da América Latina.

Fernanda é uma mulher trans. Nascida em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, vivia de bicos como esteticista em Araraquara (SP), onde cursou Estética e Cosmetologia. Ela conta que jamais conseguiu um emprego CLT:

“Infelizmente ainda existe uma invisibilidade grande para os corpos trans quando se fala em mercado de trabalho e empregabilidade… Cerca de 90% da população trans e travesti ainda vive da prostituição”

Em 2015, Fernanda fez seu processo de transição em Curitiba. No ano seguinte, arranjou trabalho de vendedora numa galeria da Rua Augusta, em São Paulo. Na paralela, conheceu Guttervil Guttervil, produtore agênero e não binário, e começou a estudar teatro e a encenar na Cia. Os Satyros, na Praça Roosevelt.

Primeiro, Fernanda e Guttervil criaram uma produtora para produzir as próprias peças. Depois, fundaram a Transludica. Feita e pensada por pessoas trans, a loja oferece produtos — como brinquedos eróticos, camisetas e bijuterias — para públicos diversos.

O APOIO DOS JURADOS DO SHARK TANK PERMITIU UM RESPIRO EM MEIO À COVID

A dupla começou realizando bazares em bares e lanchonetes. Na época, Fernanda investiu 500 reais para comprar os produtos — e conta que na mesma noite quadruplicou o valor.

“Com o dinheiro arrecadado em sete edições dos bazares, abrimos uma loja física em dezembro de 2018, numa galeria na Augusta, e também uma loja virtual”, diz. 

A marca chegou a estar em outros dois pontos de venda na rua. Em março de 2020, resolveram concentrar tudo em uma única loja, maior, próxima ao Largo do Arouche.

“A gente tinha o sonho de levar a Transludica para essa região historicamente ocupada pela população trans na prostituição, mas mostrando que agora ela era ocupada por trans empreendedoras”

A pandemia adiou o plano. A dupla precisou reforçar a loja virtual e as vendas pelas redes sociais. O faturamento sofreu um baque.

Um alento veio do apoio de Camila Farani e Caito Maia, jurados do Shark Tank, que doaram 25 mil reais, cada. Fernanda e Guttervil tinham participado do programa do Canal Sony em meados de 2019.

“Foi muito importante estar no programa e ter a ideia do que é empreender para além da vontade, ter mais noção de pitch, valuation, ticket médio…”

Enquanto espera o fim da pandemia, a dupla segue sonhando com um espaço físico para abrigar não só a loja, mas também residências artísticas e produções culturais:

“Nosso objetivo é ter mais colaboradores, retomar as atividades da nossa loja física — e ser um ponto turístico de referência para a cultura trans.”

UMA TRANSIÇÃO CAPILAR NA ORIGEM DE UMA TRAJETÓRIA EMPREENDEDORA

Em 2015, uma mudança nos cabelos mexeu com a cabeça de Jéssica Silva, moradora de Olinda (PE).  

Negra, ela decidira assumir seus cachos. Seguir em frente com a transição capilar não foi assim tão simples: 

“Quando deixei de alisar as mechas, vivi um processo devastador de autoestima baixa… Mas também de me reconhecer enquanto mulher preta e me reconectar com minha ancestralidade. E percebi que as lojas não estavam preparadas para vestir meu corpo preto”

Movida por essa inquietação, Jéssica e o marido, Rodrigo Silva, fundaram a Zarina Moda Afro, uma marca de roupas e acessórios com estampas coloridas, em estilo africano.

Jéssica, fundadora da Zarina, com roupas e turbante da marca.

Nenhum dos dois entendia de confecção: Jéssica é bailarina de origem, e Rodrigo, músico. Mesmo assim, se animaram a comprar tecidos que encontraram numa viagem a Salvador e produziram os primeiros modelos, despertando a atenção dos amigos.

No início, o casal procurou costureiras e passou referências do que queriam.

Com o tempo, Rodrigo fez cursos de confecção e modelagem, se familiarizou com a máquina e virou o costureiro oficial da empresa. Jéssica, por sua vez, ficou dedicada à parte criativa: desenvolver as coleções em si e os conteúdos para as redes sociais. 

Eles investiram 3 mil reais e montaram um pequeno ateliê na parte de baixo da casa onde vivem, na comunidade do Terreiro de Xambá, no bairro de São Benedito. 

NA PANDEMIA, JÉSSICA PASSOU A PRODUZIR MÁSCARAS COM ESTAMPAS AFRO

Candomblecista, Jéssica diz que se inspira na essência dos terreiros.

“Não vamos atrás de tendência, somos atemporais. A coleção mais recente — ‘Patuá, conexão ancestral’ — tem tudo a ver com nossa experiência, trazendo as roupas como elemento de força e proteção”

Em 2018, os dois deixaram seus empregos administrativos com carteira assinada para se dedicar ao negócio.

A Zarina já foi uma das estilistas do Homem da Meia-Noite, bloco carnavalesco de Olinda, e participou de desfiles da Fenearte (Feira Nacional de Negócios do Artesanato).

“Estamos quebrando barreiras quando subimos em uma passarela e trazemos ali nossa história e representatividade — algo às vezes muito distante para uma pequena marca preta”

Durante a Covid, a Zarina passou a produzir máscaras junto com outras marcas. A cada kit (de cinco unidades) vendido, uma máscara é doada a uma comunidade carente de Olinda, diz Jéssica, que viu crescer a demanda pelo acessório com estampas afro.

Acelerada pela Diver.ssa em 2020, ela diz que o processo a ajudou a evoluir como empreendedora, o investimento semente deve dar um gás no negócio:

“Com esse recurso, vamos continuar a reformar nosso ateliê. Queremos também contratar uma equipe de confecção, para que o Rodrigo fique mais como supervisor, além de lançar o nosso site.”

COMO SABER QUE É HORA DE LARGAR SEU EMPREGO PARA VIVER DE ARTE?

A paulistana Natalia Felippe já vinha repensando sua missão na vida desde 2019, quando superou um câncer de mama. 

Natalia e suas peças inspiradas em elementos da natureza.

Em agosto de 2020, cansada do mundo corporativo e consumida pelo home office, decidiu fazer um teste: seria possível viver de arte?

Por um mês — sempre após o expediente como designer na marca de moda praia Cia. Marítima –, ela se dedicou intensamente à produção e divulgação de seu trabalho artístico. 

A experiência deu certo, Natalia deixou o emprego e hoje, aos 33, vive fazendo o que ama: pintar.

Com a marca que leva seu nome, ela produz e vende pinturas delicadas em suporte de madeiras rústicas, que reproduzem espécimes da flora e da fauna brasileira.

“Foi surpreendente: mesmo na situação em que o país estava [em meio à pandemia e à crise econômica], consegui muitas encomendas e fui crescendo organicamente…!”

O arrebatamento pela arte surgiu ainda na infância, e se mistura com seu encanto pela natureza. “Tenho essa crença de que somos uma coisa só, acredito na reconexão que o contato com a natureza traz. Essas questões me inspiram a pintar”, diz.

Natalia começou pintando em pedras (por volta de 2015) e expondo seu trabalho em feiras de artesanato e nas redes sociais. Daí, migrou para troncos de madeiras de reflorestamento ou de árvores tombadas por tempestades ou outras causas naturais.

FELIZ E DONA DO PRÓPRIO NARIZ, ELA HOJE TRABALHA MAIS DO QUE ANTES

Inicialmente ela gastou cerca de 400 reais, adquirindo pedras, madeiras e itens de papelaria para as embalagens.

Em agosto, investiu em impulsionamento no Instagram. Mesmo assim, diz que a maioria dos quase 30 mil seguidores foi conquistada de forma orgânica.

Desde novembro, Natalia tem um site próprio:

“Antes eu fazia todas as transações pelo Instagram, mas poucas pessoas [ainda] usam a rede para concluir uma compra… No site, elas já sentem mais confiança porque tem os preços especificados, os tamanhos, formas de pagamento…”

As peças custam a partir de 150 reais. O catálogo é renovado a cada dois meses. Em média, ela confecciona 60 peças por mês, entre produções seriadas e sob encomenda.

Uma vez ela quase ficou na mão com um fornecedor de madeira; para evitar perrengues, pensa em diversificar os suportes e aprender a pintar telas. 

Outra amolação — natural, claro — é quando a inspiração não vem.

“Quem trabalha com arte sabe que tem dias que a gente não acorda tão inspirada… Se eu sento para produzir e não acho que está legal, então é melhor parar [por um tempo], porque isso gera uma frustração grande”

O principal desafio, porém, é dar conta de todas as áreas do negócio. 

“Sou eu que pinto, fotografo, faço posts, stories, subo produtos na loja, faço o atendimento ao cliente, as embalagens, vou ao correio…  São muitas atividades. Antes eu achava que trabalhava muito quando era CLT. Hoje, vejo que trabalho tanto quanto — ou mais.”

 

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