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Por muitos anos, acreditei que sucesso era ter uma carreira sólida, estabilidade financeira e conquistas materiais. Construí uma trajetória de mais de duas décadas no mundo corporativo, com crescimento e reconhecimento.
Vinda de uma família simples, filha de nordestinos que recomeçaram em São Paulo, sempre valorizei esse caminho, até perceber que, em algum momento, ele deixou de ser suficiente
Hoje, aos 47 anos, percebo que minha inquietação vem de longe. Cresci ouvindo da minha mãe que eu precisava ter um propósito e acreditar no meu potencial. Guardei isso como uma bússola e, mesmo sem saber exatamente o caminho, sempre soube que não queria viver no automático.
Sempre muito criativa, escolhi cursar Publicidade e Propaganda por gostar de ideias e comunicação. Minha entrada na saúde não foi planejada: surgiu como oportunidade quando comecei no teleatendimento do Grupo Fleury para pagar a faculdade.
O que começou por necessidade acabou me transformando.
Com o tempo, me envolvi com a empresa e com o universo da saúde. Após me formar, em 2001, migrei para o marketing, onde permaneci por cerca de dez anos.
Viajei pelo Brasil, organizei eventos e convivi com diferentes profissionais, desenvolvendo agilidade, resiliência e capacidade de resolver problemas. Foi uma grande escola.
Ao mesmo tempo, comecei a me perguntar com insistência qual era o meu propósito.
No início, era algo sutil, mas virou incômodo e, depois, necessidade. Apesar do crescimento e reconhecimento profissional, sentia que algo faltava: uma inquietação silenciosa, como se por dentro ainda houvesse uma peça fora do lugar
Essa mudança começou em 2011, quando fui convidada a estruturar programas sociais na área de sustentabilidade. Senti medo e questionei se estava pronta, mas ouvi que o perfil vem antes da técnica e que as habilidades se desenvolvem.
Aquilo me marcou, porque foi a primeira vez que alguém acreditou em mim antes de eu mesma me sentir pronta.
Mergulhei no desafio, estudando, ouvindo pessoas e buscando transformar discurso em impacto real. Assim nasceu o projeto “Dom”, que conectava a empresa a organizações sociais de saúde em todo o Brasil.
Mais do que o reconhecimento, o que me marcou foi perceber, pela primeira vez, que trabalho e propósito podiam caminhar juntos
Mesmo assim, não mudei de rota de imediato. Reconheci o chamado antes de ter coragem de segui-lo. E foi a maternidade que marcou essa virada na minha história.
Quando descobri a gravidez, em 2014, desacelerei e me aprofundei. Meu filho, Gabriel, me fez revisitar minha trajetória e, durante a licença, iniciei um processo de mentoria e autoconhecimento.
A maternidade rompeu minha ilusão de controle e mudou a forma como passei a olhar para a vida e para mim mesma.
Foi então que me fiz uma pergunta decisiva: como meu filho vai me descrever no futuro? Essa reflexão me atravessou por inteiro e me levou a tomar uma decisão que me assustou: deixar o corporativo e migrar para o terceiro setor
Eu tinha estabilidade, carreira consolidada e um bebê no colo, o que tornou a decisão tudo menos confortável. Foi um salto cheio de medo, sobretudo pela insegurança financeira.
Trabalhar com impacto social envolve renúncias, incertezas e riscos reais, uma travessia sem garantias. Quase desisti várias vezes, especialmente diante de propostas para voltar ao corporativo com mais estabilidade e segurança.
Como parte da geração sanduíche, cuidando de filho e de pais, sustentar a minha escolha trouxe um cansaço constante e desafiador.
No terceiro setor, saí da zona de conforto ao estruturar uma área comercial do zero, com metas, orçamento e captação de recursos. Foi ali que vivi o empreendedorismo de impacto na prática e entendi que propósito não elimina as dificuldades, apenas dá sentido para enfrentá-las.
Se me arrependo de algo, talvez seja de ter demorado para fazer essa transição, que aconteceu aos 38 anos, já com filho pequeno
Hoje vejo que talvez já estivesse pronta antes, mas também entendo que cada etapa foi essencial: o corporativo me deu repertório e gestão, o terceiro setor trouxe profundidade e escuta, e o empreendedorismo veio como consequência natural.
A pandemia foi o maior desafio. Em 2020, trabalhando com saúde, vivi pressão constante, incertezas e exaustão, conciliando preocupações pessoais e profissionais sem poder parar. Com jornadas de mais de 14 horas, houve momentos de medo real de não dar conta.
O que me sustentou foi a rede de apoio: meu marido, meu gestor, a terapia e a espiritualidade. A pandemia me ensinou que cuidado é prática: presença, decisões difíceis e, sobretudo, reconhecer os próprios limites antes de adoecer junto com o problema.
Nesse período, vivi histórias marcantes, como na tragédia de São Sebastião, no litoral norte paulista, em 2023, quando um bebê sobreviveu a uma situação extrema após a perda de familiares. Experiências assim reforçaram para mim a fragilidade humana e a importância das redes de cuidado e da atuação humanitária em momentos críticos
Ao longo desses anos, percebi que o cuidado sempre atravessou minha trajetória. Especialmente na pandemia, ao ver tantas mulheres conciliando múltiplos papéis, passei a refletir sobre a presença feminina na saúde e no impacto social.
Entendi que cuidar não era só parte do meu trabalho – mas da minha identidade.
Após sete anos no terceiro setor, fundei a Trilha Gestão de Projetos. Foi continuidade no propósito e, por outro lado, uma ruptura pela responsabilidade direta. Empreender trouxe um novo tipo de frio na barriga, sem receita pronta. Exige escuta, ajustes constantes e pessoas que acreditam na causa.
Hoje, sigo preocupada em manter a capacidade de aprender em um mundo cada vez mais rápido e digital. Ainda lido com a busca por controle, mas entendi que seguir em frente não exige ausência de medo, e sim coragem para continuar apesar dele.
Muita coisa na minha vida ainda está em construção. Sigo estruturando novos caminhos, ampliando frentes e pensando soluções de impacto social que, no futuro, possam se tornar políticas públicas.
Talvez esse seja o sonho que ainda não realizei: ver iniciativas ganharem escala, continuidade e independência, gerando transformação mais profunda
Também desejo inspirar outras mulheres, especialmente as de origem simples, a ocuparem esse espaço. Se pudesse falar com a menina que fui, diria que ela não imagina onde pode chegar… E que nada se constrói sozinha, mas com apoio, encontros e pessoas que acreditam em nós antes mesmo de acreditarmos.
Um dos momentos que mais representa quem me tornei foi o lançamento do livro Mulheres na Saúde, do qual fui coautora. Ao ver o olhar do meu filho, no dia do aniversário dele, senti, em silêncio, que estava no lugar certo.
Hoje sei que sucesso não é mais acúmulo, mas coerência. É reconhecer sentido no que construí, apesar do medo, do cansaço e das dúvidas, e saber que, ainda assim, continuei
No fim das contas, a frase da minha mãe nunca deixou de ser verdade. A gente é, sim, do tamanho dos próprios sonhos!
Elis Tolosa é publicitária com mais de 25 anos de experiência em comunicação, marketing em saúde e ESG, tendo atuado no setor corporativo, no terceiro setor e em negócios sociais. É pós-graduada em Gestão de Negócios pelo Mackenzie, com especialização em Administração e MBA em Gestão da Sustentabilidade pela FGV. Foi responsável pelas áreas de Operações, Marketing e Sustentabilidade no Grupo Fleury e ocupou a Diretoria de Desenvolvimento Organizacional no Instituto Horas da Vida. Atualmente, é sócia e COO da Fleximedical/Kure, onde conduz a expansão estratégica de soluções móveis e portáteis para ampliar o acesso à saúde da população de baixa renda, aliando inovação e impacto social. Sua trajetória é reconhecida por premiações como o Guia Exame de Sustentabilidade 2014 e o título de Melhores ONGs da Revista Época por quatro anos consecutivos.
Existe um momento em que a mulher deixa de caber no sistema e começa a enxergá-lo com clareza: a publicitária Iris Coldibelli conta por que, mesmo após anos de uma carreira de sucesso, se sente hoje recomeçando e no auge da vida.
Enquanto trilhava uma carreira corporativa, Ana Flávia de Sá sentia falta de algo que não sabia nomear. Um dia, ao ver um anúncio impresso no jornal, ela decidiu pedir demissão e desbravar um novo caminho profissional no terceiro setor.
O tempo é a moeda mais valiosa do mundo. Brunna Farizel conta como tomou consciência desse fato ao empreender para conciliar a maternidade com o trabalho à frente da Splash Bebidas Urbanas, empresa que ela criou com o marido.
