Empresa remota por convicção, a Husky mira clientes em home office: profissionais PJ que precisam receber grana do exterior

Paulo Vieira - 31 mar 2020
Os sócios da Husky, da esq. à dir.: Luiz Eduardo Duarte e os cofundadores Maurício Carvalho e Tiago Santos.
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Blogueiros, gamers, influenciadores e desenvolvedores digitais — enfim, profissionais PJ, trabalhando em home office — formam o núcleo duro dos clientes da Husky, uma startup dedicada a viabilizar o recebimento de pagamentos vindos do exterior.

A fintech nasceu em 2016, fundada por Tiago Santos, CEO, e Maurício Carvalho, CTO, ambos da área de tecnologia. Antes, trabalhando remotamente para a Must Have Menus, eles sentiram na pele as dores de cabeça burocráticas de quem precisa receber por serviços prestados a empresas estrangeiras. 

Decididos a empreender, mas ainda sem empresa formalizada, eles constaram que havia mesmo uma demanda reprimida. “As pessoas nos perguntavam como poderiam ter certeza de que o dinheiro deles ia chegar mesmo no Brasil, afinal ainda não tínhamos nem CNPJ”, diz Tiago. 

Tiraram o negócio do papel e, um dia, “o primeiro cliente confiou”. Mais tarde, em 2018, Luiz Eduardo Duarte (sócio da NDM, consultoria jurídica com foco em startups) embarcou no negócio, assumindo a função de COO. 

Desde a fundação, a Husky já movimentou cerca de 200 milhões de reais para uns 3 500 clientes. Em 2019, o faturamento foi de 1,7 milhão de reais. 

AGILIDADE E TAXAS MAIS BAIXAS SERIAM DUAS VANTAGENS

Por que usar a plataforma da Husky? Uma razão é o prazo. Segundo Tiago, pelos canais tradicionais, um pagamento do exterior leva em média de três a cinco dias para cair na conta.

“Mas é comum ouvirmos relatos de pagamentos levando duas semanas… E houve um caso recorde de 45 dias em um banco, relatado por um dos nossos clientes.”

Por meio de parcerias com instituições financeiras dos Estados Unidos e da Europa (a startup não revela quais), a fintech viabiliza o pagamento com mais rapidez:

“Na Husky, em condições normais, o pagamento chega até o cliente em poucas horas, no mesmo dia. No máximo no dia seguinte, caso chegue num horário avançado”

Além disso, segundo o empreendedor, os bancos costumam cobrar até 9% sobre o valor da transação, entre taxas fixas, de manutenção, spread e outras taxas escondidas. Na Husky, a tarifa fica em 4%, e a abertura de conta é gratuita.

“Outro ponto muito importante é que não temos spread”, diz o CEO. “Ao contrário dos bancos, que utilizam um câmbio desvalorizado, a Husky paga pelo câmbio comercial do horário do pagamento, sem pegadinhas.”

QUEM INDICA OUTROS USUÁRIOS PODE GANHAR DINHEIRO NA PLATAFORMA

A princípio dedicada a prestar “um serviço de câmbio ágil sob taxas justas”, a empresa foi ampliando o leque e hoje também oferece contabilidade e conta digital.

“Facilitamos a abertura de empresa, privando os profissionais de se preocuparem com a emissão de notas fiscais, custos da empresa, que inclui a contratação de um contator, pagamento de tributos e previdência privada”, diz Tiago.

A taxa de 4% sobre cada operação pode cair a zero — e até se transformar em retorno financeiro para o cliente — se o usuário trouxer amigos para a plataforma. 

“Temos um programa de cashback sem similar no mercado. Todo cliente da Husky, ao indicar outros clientes, passa a receber como compensação uma parte da renda de todas as transações dos amigos indicados. Nós literalmente dividimos o lucro das transações com os nossos clientes”

Como esse cashback é permanente sobre todas as transações dos amigos indicados, diz Tiago, o cliente que fez a indicação passa a ter uma receita recorrente. 

“Indicando vários amigos, suas tarifas vão reduzindo até chegarem a zero. Se continua indicando e gerando cashback depois de zerar as tarifas, nós pagamos o saldo em dinheiro.”

PROGRAMAS DE ACELERAÇÃO AJUDARAM A IMPULSIONAR A FINTECH

A Husky segue a linha do bootstraping. Ou seja, abriu mão, até aqui, de buscar investimento. 

No caso da fintech, uma injeção de grana veio da participação em um programa de aceleração chileno, que ajudou a alavancar o negócio e quitar dívidas de conversão de moedas do começo da operação, quando os sócios “pescavam” clientes nos chats do Facebook. Tiago conta:

“Participamos do programa SEED do Startup Chile. O governo chileno nos deu um bolsa de 30 mil dólares na época, e fomos escolhidos a melhor startup dentre as cerca de 100 startups do nosso batch

Foram sete meses de aceleração, de fevereiro a setembro de 2017, que culminaram com a vitória no Demo Day e um bilhete de ida-e-volta para conhecer o Vale do Silício.

Entre 2018 e 2019, eles participaram de uma segunda aceleração, a Parallel 18, em Porto Rico, que rendeu uma nova bolsa, no valor de 40 mil dólares. 

O programa chegou a ser interrompido pela passagem de um furacão que devastou a ilha (um território dos Estados Unidos no Caribe), e retomado meses depois, quando a Husky foi ganhou destaque como startup de escolha dos investidores.

SEM SEDE FIXA, A EMPRESA É REMOTA POR CONVICÇÃO

Com sete funcionários (num total de dez pessoas), a Husky não tem sede física. Os três sócios, por sinal, vivem cada um em uma cidade. 

Formado em Ciências da Computação pela Universidade Federal de Mato Grosso, o CEO tem 36 anos e vive em Araraquara (SP). Maurício, 28, é analista de sistemas pelo IFSP e mora na capital paulista. Luiz, 30, é morador de Uberlândia (MG), onde se formou em direito pela Universidade Federal.

Ser remoto não significa ser “distante”. Segundo Maurício:

“A distância não te impede de abordar as pessoas para saber como estão se sentindo em relação ao trabalho e às suas vidas, nem de entender o que está afetando a produtividade. É tudo uma questão de adaptar a forma de se comunicar”

Embora considere até quatro contratações em 2020, a fintech quer se manter enxuta. 

“Ser pequeno é intencional, a gente não acredita que é ao colocar mais pessoas [no time] que você escala”, diz Tiago. “Se o time fica grande, é preciso criar muitos canais e níveis de comunicação, e a cultura dispersa.”

COM O TIME ENXUTO, TODOS SE REVEZAM NO SUPORTE TÉCNICO

O CEO explica que startups costumam crescer aumentando seus times de suporte técnico e vendas. A Husky fez a opção de capacitar seu time para a realização de múltiplas tarefas, inclusive o atendimento ao cliente. 

Em um esquema de rodízio, cada membro da equipe – sócios incluídos – passa uma semana como responsável pelo suporte técnico, fazendo o atendimento de clientes por chat e e-mail e cobrando soluções dos colegas.

“Isso aumentou a qualidade do atendimento e também a visibilidade dos problemas para o time interno. O alinhamento ficou muito mais fácil, com todo mundo conhecendo e sofrendo o mesmo problema”

Paralelamente, parte do time se dedica a reduzir a necessidade de suporte. “Há engenheiros de software focados nisso, pensando em soluções de programação”, diz. “É dessa maneira que a gente consegue escalar.” 

Tiago não vê problema na interrupção temporária dos projetos tocados por cada colaborador em sua semana dedicada ao suporte.

“Encaramos essa semana como uma espécie de ‘retiro’, um tempo para conhecer a empresa. Quando a pessoa está no suporte, ela vira meio que um ‘CEO da Husky’, a gente nota isso na atitude: ela fica mais ativa no papel de lidar com os colegas e buscar soluções para os clientes.”

O CORONAVÍRUS VAI INCREMENTAR O HOME OFFICE, “TARGET” DA EMPRESA

Os sócios da Husky pretendem triplicar o faturamento do ano passado, com uma estimativa de chegar a 5 milhões de reais em 2020. Até aqui, os resultados de janeiro e fevereiro estão alinhados com esse objetivo. 

O baque na economia mundial que o coronavírus certamente vai provocar obviamente preocupa, mas não é encarado com temor especial. Isso porque o trabalho remoto, além de prática na empresa, já é também o seu “target”. 

Ou seja: o público-alvo da Husky, PJs em home office, ficou ainda maior com as recomendações das autoridades de saúde pública e das determinações de interdição de escolas e atividades que geram aglomerações.  

“O movimento em direção ao trabalho remoto está na máxima histórica”, diz Tiago. “Todo mundo está falando disso.”

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Husky
  • O que faz: Fintech que facilita o recebimento de pagamentos no exterior
  • Sócio(s): Tiago Santos, Maurício Carvalho e Luiz Eduardo Duarte
  • Funcionários: 7
  • Sede: operação remota (sócios em São Paulo, Araraquara e Uberlândia)
  • Início das atividades: 2016
  • Investimento inicial: US$ 30 mil
  • Faturamento: R$ 5 milhões (projeção para 2020)
  • Contato: [email protected]
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