Toda empresa enfrenta o coronavírus do mesmo jeito? Os erros, acertos e esforços de quem empreende em tempos de pandemia

Bruno Leuzinger - 14 abr 2020
Afinar rituais de gestão e estabelecer "padrinhos" para os colaboradores novatos foram algumas das medidas de empresas que agora atuam em home office.
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Não adianta lamentar projetos e pedidos cancelados. Com as restrições impostas pela pandemia do coronavírus, a hora é de reorganizar o trabalho, se adaptar rapidamente, extrair aprendizados — e identificar novas oportunidades.

Desde a segunda quinzena de março, o Draft vem coletando, por meio de uma pesquisa online, depoimentos de empreendedores que ajudem a traçar alguns dos desafios e ajustes trazidos pela Covid-19 e a reverberar experiências.

“A transição rápida para o meio 100% digital foi uma dor inicial — desde um servidor na nuvem, hangouts, até o kanban que ficava na nossa sala virou digital”, conta Suzana Ivamoto, sócia-fundadora da Playground, consultoria de estratégia e inovação baseada em São Paulo. 

“Percebemos que nas primeiras semanas trabalhamos muito mais, e muitas vezes envolvíamos mais gente do que o necessário nas reuniões virtuais. Isso fez com que todos se desgastassem muito, sem ter de fato uma necessidade”

Ajustar processos foi a saída em busca de mais eficiência. “Temos definido heads em cada projeto e dividindo mais tarefas e responsabilidades, a partir da organização do tempo.” 

SOLUÇÃO: OS PROFISSIONAIS MAIS EXPERIENTES “APADRINHAM” OS NOVATOS

Ter o time trabalhando em home office se tornou a regra, mas não pode ser razão para impactar negativamente a performance da empresa. Porém, fica difícil driblar a angústia em um contexto como o atual.

Roberto Braga, cofundador e CMO [Chief Marketing Officer] da Bxblue, fintech brasiliense especializada em empréstimos consignados, conta que os funcionários têm reportado “medo perante às incertezas da crise”. 

A startup adotou uma medida criativa, um esquema de “apadrinhamento” que pode contribuir para que os colaboradores mais jovens, com menos bagagem, se sintam menos perdidos no dia a dia:

“Pareamos os experientes com os novatos em trabalho remoto, estabelecendo um padrinho para cada um. Além disso, criamos novos rituais para aumentar a produtividade remota”

O empreendedor diz que, num cenário extremo, a crise poderia impactar até 70% do seu faturamento. Mas por ora, os negócios estão andando:

“Nossos clientes continuam usando nossos serviços com tranquilidade. Como trabalhamos com empréstimos, já estamos vendo casos de pessoas solicitando empréstimos para resolver problemas relacionados à pandemia.”

A CRISE EXIGE JOGO DE CINTURA E DIÁLOGO COM CLIENTES E COLABORADORES

Novos ou antigos, os rituais de gestão são importantes. E precisam estar afinados.

Rodrigo Allgayer, fundador da Creators, afirma que a empresa reforçou seu daily meeting (“um papo rápido de 15 minutos com update das tarefas concluídas, pendentes e em execução”), no mesmo horário de antes, mas agora via videoconferência.

A plataforma que conecta marcas e freelancers da indústria criativa foi pauta aqui no Draft em 2019, ainda com o nome antigo: Nosotros. O anúncio do novo nome deveria ocorrer em março de 2020, num evento no campus Google for Startups, em São Paulo (onde a empresa residia até adotar o home office); por conta da pandemia, o evento acabou cancelado.

Num contexto de crise, é preciso saber a hora de ter jogo de cintura. Segundo Rodrigo:

“Estamos buscando um diálogo mais próximo com clientes e profissionais para entender o cenário que se desenha pela frente. Mudamos o escopo de um projeto em andamento, sem custo adicional, para atender uma necessidade do cliente”

Até aqui, ele aponta a queda no fluxo transacional e as incertezas em relação à economia e como principais dificuldades.

“Ainda não sabemos precisar os efeitos reais em nosso modelo de negócio, porém acreditamos que o trabalho criativo sob demanda será essencial para empresas se destacarem de forma positiva e menos oportunista diante da crise que enfrentamos.”

ATIVAR REUNIÕES ONLINE PARA PROSPECÇÃO TEM SIDO UMA TAREFA ÁRDUA

O home office não foi uma novidade para Gabriela Frühauf, da Dot, Inc, empresa de comunicação com presença em São Paulo e Porto Alegre.

“Nosso formato já era remoto desde o início, isso foi natural. Fizemos posts para ajudar outras pessoas a trabalhar nesse formato.” 

A dor de cabeça, na verdade, tem sido seguir com as prospecções em meio à pandemia:

“Tentamos ativar alguns parceiros e reuniões online, mas em termos de prospecção está bem parado. Prospects que estávamos começando a ativar entre fevereiro e março deixaram tudo em stand-by para dar mais atenção às prioridades: gerenciar a equipe remota, [realizar] demissões, gerenciar a crise dos seus clientes…”

Convencer esses prospects de que sua empresa pode ajudar (com estratégia e ações para marcas) se torna mais difícil pelo tamanho reduzido da equipe:

“Não temos força de venda, somos pequenos, e isso dificulta muito nesse momento. E claro, sem verba para investir agora. Precisamos nos garantir para os próximos meses.” 

Ao mesmo tempo, Gabriela diz que alguns novos clientes têm aparecido, em projetos com verbas menores. “Alguns nos procuraram, justamente para criar ações para apoiar o controle da pandemia ou para fazer algo para se destacar e não morrer nessa crise.”

NÃO TEM JEITO: CONCILIAR CASA, FAMÍLIA E TRABALHO É MESMO UM DESAFIO

Sentir os clientes “puxando o freio” nos custos é inevitável. Suzana, da Playground, conta que a consultoria teve uma pausa em um projeto que estava para começar. Mas também vê a demanda surgir em outras pontas:

“Estamos recebendo muitas solicitações para ajudarmos a pensar o posicionamento das marcas perante o contexto e fazermos juntos reflexões sobre o novo futuro que se desenha.”

Independentemente dos percalços que o trabalho remoto traz para a gestão de pessoas e projetos, a empreendedora diz que o período de pandemia tem sido de muita dedicação:

“Estamos trabalhando muito mais, em ritmo de startup. O desafio é conciliar o trabalho com a casa e a família, que também estão todos em adaptação nesse momento de confinamento

E qual é a maior necessidade do seu negócio, hoje? A resposta de Suzana soa esperançosa: “Pessoas talentosas, que nos ajudem a colocar de pé a transição que estamos desenhando.”

***

O coronavírus impacta a vida de todos. Para repercutir histórias e bons exemplos, queremos entender como a pandemia vem afetando o seu negócio. Participe da nossa pesquisa!

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